17 outubro 2005

Os segredos de uma floresta dos Arcos de Valdevez - 3ª parte




Obtiveram-se 42 fotos de mamíferos assim como várias fotos de passeriformes. Em média foi conseguida 1 foto por cada 5,5 dias de amostragem.
Como se pode ver no gráfico 1 foram fotografados lobo, raposa, gineta, fuinha, corço, javali, rato-do-bosque, cães assilvestrados e gado bovino. Os mamíferos mais fotografados foram a raposa, a fuinha, o corço e o javali.
Refira-se que a gineta e a fuinha têm territórios bem delimitados, praticamente não existindo sobreposição entre as duas espécies, enquanto que, por exemplo, a raposa pode ser encontrada por toda a floresta.
A área de estudo goza ainda de alguma tranquilidade motivo pelo qual foi possível documentar a actividade diurna de alguns mamíferos, como se observa no gráfico 2.

10 outubro 2005

Os segredos de uma floresta dos Arcos de Valdevez – 2ª parte


Entre Novembro de 2004 e Fevereiro de 2005, foram percorridos os principais trilhos de uma mata pertencente ao concelho dos Arcos de Valdevez, perfazendo um total de mais de 80 km, e colocaram-se câmaras fotográficas activadas por sensor de movimento. O objectivo era o de recolher o máximo de informação possível sobre os animais que frequentam a floresta, a sua distribuição e hábitos.
Nos trilhos mais importantes encontraram-se dejectos de Lobo (Canis lupus), Raposa (Vulpes vulpes), Corço (Capreolus capreolus), Javali (Sus scrofa) e Gineta (Genetta genetta). O único mamífero directamente observado foi o Esquilo (Sciurus vulgaris), do qual se podem encontrar indícios de presença por toda a floresta.
Foram avistados ou escutados várias espécies de aves como a Águia-de-asa-redonda (Buteo buteo), Gavião (Accipiter nisus), Gaio-comum (Garrulus glandarius), Pica-pau-malhado-grande (Dendrocopus major), Pica-pau verde (Picus viridis), Pisco-de-peito-ruivo (Erithacus rubecula), Chapim-azul (Parus caeruleus), Chapim-real (Parus major), Chapim-rabilongo (Aegithalos caudaus), Chapim-de-poupa (Parus Cristatus), Tentilhão (Fringilla coelebs), Verdilhão (Carduelis chloris).
As câmaras fotográficas activadas por sensor de movimento foram colocadas entre 7 de Novembro de 2004 e 26 de Fevereiro de 2005. O número de câmaras em campo variou entre 2 e 4. Estiveram activas por um total de 232 dias, cobrindo diferentes biótopos florestais, a diferentes altitudes. Durante este período de tempo as condições meteorológicas caracterizaram-se por tempo frio e seco com temperaturas médias próximas dos 5º C.

04 outubro 2005

Os segredos de uma floresta dos Arcos de Valdevez - 1ª parte


Nos contrafortes da Serra do Soajo, por entre uma paisagem devastada por queimadas sucessivas, subsiste até aos dias de hoje uma importante mata de frondosas e coníferas. Trata-se duma floresta plantada pelos Serviços Florestais, composta por árvores com algumas dezenas de anos, e que assume um importante papel como refúgio para a fauna do alto Minho.
A mata estende-se entre os 550 e os 1200 metros de altitude e compreende uma área de 6 Km quadrados. Nas altitudes mais baixas existem várias estruturas importantes como 2 parques de campismo, um centro hípico e uma estrada Nacional; o ponto mais elevado alcança os 1216 m de altitude e é uma zona isolada de difícil acesso; a ocidente está limitada por um curso fluvial; a oriente o limite é menos definido devido aos variados incêndios que anos após ano lhe reduzem a dimensão.
O coberto vegetal é variado, composto por manchas de Pinheiros-silvestres (Pinus sylvestris), Ciprestes (Chamaecyparis lawsoniana), Castanheiros (Castanea Sativa), Faias (Fagus sylvatica), Carvalhos (Quercus robur) e Bétulas (Bétula pubescens). Dispersos pelas manchas de caducifólias encontram-se alguns exemplares de azevinho (Ilex aquifolium). Destaca-se na floresta uma importante diversidade de fungos pois encontramo-nos na zona mais chuvosa do país, com cerca de 3000 mm de precipitação média anual.

29 setembro 2005

Os segredos de uma floresta dos Arcos de Valdevez - Introdução


O blog Fauna Ibérica irá dedicar-se nas próximas semanas à caracterização de uma das maiores manchas florestais do concelho dos Arcos de Valdevez.
Esta região compreende ainda extensas zonas de alta montanha relativamente livres da pressão humana e por isso representa um refúgio para a fauna portuguesa mais ameaçada.
Durante meses percorremos dezenas de quilómetros por trilhos de montanha, observamos pegadas e dejectos, colocamos câmaras fotográficas activadas por sensor de movimento em locais recônditos.
O resultado será apresentado durante o próximo mês neste blog, com o objectivo de dar a conhecer a todos os interessados os animais fantásticos que povoam ainda os montes do alto Minho.
A primeira parte será editada na próxima terça-feira, 4 de Outubro... Espero que apreciem e que no fim todos estejamos mais cientes da grande riqueza ambiental que o nosso país ainda possui.

20 setembro 2005

Mito rural: a solta de lobos


Tal como os famosos mitos urbanos assiste-se hoje no mundo rural português ao surgimento de um novo mito, transversal a diferentes gerações e classes sociais: a solta de lobos (Canis lupus)...

É palavra comum nas aldeias do Norte de Portugal, que o Estado, organizações conservacionistas ou particulares procedem à libertação de lobos-ibéricos (Canis lupus signatus).

O contorno do “acontecimento” é sempre o mesmo:

  1. A solta nunca foi presenciada por aquele que conta a história mas a fonte é de "confiança".
  2. Dos meios utilizados consta habitualmente uma carrinha branca que ao cair da noite percorre as serras libertando os animais…
  3. Existem então “novos lobos”, de porte e pelagem diferentes dos lobos tradicionais e que não fogem quando encontram o Homem (como sempre aconteceu em milénios de coexistência Homem/Lobo).

De tão repetido este folclore assume contornos de axioma e quem o tente desmontar encontra invariavelmente o antagonismo, a desconfiança e até a agressividade.

Realmente é irónico que num país em que o Estado não apresenta qualquer projecto de reintrodução da fauna mais ameaçada, a ignorância leve a que o povo acredite que as instituições de conservação da natureza funcionem bastante melhor do que aquilo que na verdade acontece…