16 fevereiro 2006

A Marta no Alto Minho - IV


No dia 14 de Março de 2004 esta Marta (Martes martes)
foi fotografada por 2 vezes em plena luz do dia

Actividade diurna da Marta (Martes martes)
.
Apesar de essencialmente nocturna a marta pode também apresentar actividade diurna (ver gráfico em anexo). Na floresta do Alto Minho alvo deste estudo, as estações fotográficas documentaram os movimentos de 2 martas em 2 áreas distintas sob a luz do dia.
Estas fotografias foram obtidas principalmente durante os meses de Março e Abril, ou seja no início da Primavera. Este é um período particularmente importante no ciclo biológico da marta, visto que é a altura do nascimento das crias. Intensifica-se a busca de alimento por parte das fêmeas podendo ser esta a explicação mais provável para os movimentos diurnos da espécie.
Apesar da raridade destas fotos, deve-se realçar o facto de aparentemente o aumento da luminiosidade não tornar as martas mais fugidias. Com efeito, estes mustelídeos podem manter-se junto das câmaras fotográficas durante mais de 1 minuto, ou seja, um procedimento em tudo semelhante ao que habitualmente ocorre ao abrigo da noite.

09 fevereiro 2006

A Marta no Alto Minho - III


Marta (Martes martes) fotografada às 5h e 9 minutos
de 1 de Abril de 2003
.
Fuinha (Martes foina) fotografada às 0h e 35 minutos
da noite seguinte, precisamente no mesmo local

Interacção Marta (Martes martes)/Fuinha (Martes foina)

A floresta do Alto Minho onde se realizou este trabalho de campo é talvez o melhor representante de bosque caducifólio maduro existente em Portugal continental. Além disso a povoação mais próxima encontra-se a pelo menos 5 quilómetros de distância. Neste habitat tão pouco humanizado seria de esperar uma ocupação do território quase total por parte da marta e simultaneamente a ausência da fuinha, que tradicionalmente prefere meios mais humanizados.
O que se constata contudo é que, apesar da predominância da marta, a fuinha ocorre em números não negligenciáveis (ver gráfico em anexo). Tal deve-se provavelmente ao facto de nos encontrarmos no limite Sul de distribuição da marta a nível europeu. Seria bastante interessante prolongar no tempo a realização deste trabalho com vista a compreender a evolução das populações dos dois mustelídeos.
O bosque estudado é atravessado por 6 linhas de água, verificando-se nesses pequenos vales diferenças marcadas na ocupação do território. Assim, após vários semanas de prospecção, verificou-se uma presença quase absoluta da marta em 4 desses vales (onde a fuinha estava ausente) enquanto que num outro vale apenas se identificou a presença da fuinha (com a ausência completa da marta) e num último vale os dois mustelídeos coexistiam (ver fotos em anexo).
Conclui-se portanto que, pelo menos em termos territoriais, no Norte de Portugal, a marta e a fuinha são verdadeiros competidores.

01 fevereiro 2006

A Marta no Alto Minho - II

Apesar da chuva intensa que se fazia sentir na noite de
11 de Fevereiro de 2003, esta Marta (Martes martes) manteve-se
activa como comprova a foto.
[Atente-se na mancha peitoral amarela característica da marta]

3 Km mais a Norte a Fuinha (Martes foina) é senhora absoluta
de um pequeno vale, não se constatando a presença de marta.
[Atente-se na mancha peitoral branca característica da fuinha]
.
Ao longo dos 16 meses de trabalho de campo foram utilizadas várias câmaras fotográficas activadas por um sensor de movimento e calor com o objectivo de registar a presença e padrões de actividade da marta.
Os dados absolutos obtidos foram os seguintes:
  • Nº total de dias de trabalho de campo: 516
  • Nº de câmaras utilizadas: entre 2 e 4
  • Nº de dias de funcionamento das câmaras: 497
  • Nº de dias em que foi registada actividade de fauna: 159
  • Nº de espécies de mamíferos fotografados: 9
  • Nº de fotos de marta: 114
  • Nº de fotos de fuinha: 34
  • Nº fotos nocturnas de mamíferos: 266
  • Nº fotos diurnas de mamíferos: 29
  • Nº de deslocações à área de estudo: 36
  • Nº de quilómetros percorridos a pé no decorrer do trabalho: 176

22 janeiro 2006

A Marta no Alto Minho - I


A área prospectada em busca da presença de Marta (Martes martes) compreendeu a maior mancha boscosa caducifólia do Alto Minho.
Entre grandes paredes graníticas que sobem dos 600 aos 1500 metros de altitude existe uma extensa floresta formada por velhos carvalhos (Quercus robur), núcleos de faia (Fagus sylvatica), pinheiros silvestres (Pinus sylvestris) e imponentes teixos (Taxus baccata).
Este bosque desenvolve-se ao longo da bacia hidrográfica do afluente de um dos principais rios minhotos. Existem 5 vales que drenam para o curso fluvial principal e que delimitam diferentes zonas com cobertos vegetais distintos.
Em todos estes vales foram colocadas câmaras fotográficas activadas por um sensor de movimento e calor com o objectivo de determinar áreas de ocorrência de marta e relacionar a sua presença com a da Fuinha (Martes foina), seu parente próximo e também mais comum. Este tipo de câmaras foi empregue com sucesso para o estudo da população de Urso (Ursus arctos) nas montanhas cantábricas ou de Lince (Lynx lynx) na Suiça.

16 janeiro 2006

A Marta no Alto Minho - Introdução

Marta (Martes martes), fotografada em Maio de 2004
numa floresta do Alto Minho

Entre Fevereiro de 2003 e Junho de 2004 foram colocadas câmaras fotográficas activadas por sensor de movimento numa floresta caducifólia do Alto Minho. Tratava-se de uma experiência com vista a tentar fotografar um qualquer mamífero numa área montanhosa preservada do nosso país. Os resultados foram surpreendentes: naquele vale recôndito por onde iniciei os trabalhos apenas fotografei uma espécie mas logo uma das mais raras: a Marta (Martes martes).
Desde então adquiri mais equipamento, sistematizei a busca, ganhei experiência. Logo um grande amigo, entusiasmado pelos resultados, também se juntou ao trabalho. Tivemos meses em que não conseguimos uma única fotografia de marta e outros em que os resultados foram excelentes.
Completa a tarefa chegou agora a altura de compilar os dados e apresentá-los, o que será feito ao longo das próximas semanas neste blogue.
Devo referir que este relatório não é um trabalho científico nem pretende sê-lo. Espero contudo que a sua leitura permita compreender um pouco melhor os segredos dum animal tão fascinante e que contribua para a valorização dos espaços florestais do Norte de Portugal.