08 março 2006

A Marta no Alto Minho - Conclusão

Um mustelídeo durante a noite e um Corço (Capreolus capreolus)
durante o dia passam defronte do mesmo carvalho, realçando a
tranquilidade que ainda existe nesta serra minhota.
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Em Junho de 2004, após vários meses de trabalho de campo, consideramos terminada a primeira fase deste estudo. Tínhamos colocado câmaras fotográficas automáticas nos principais vales desta floresta do Alto Minho e determinado aqueles em que era frequente a presença de Marta (Martes martes), um mustelídeo do qual ainda pouco se sabe em Portugal.
As ameaças que este animal enfrenta estão na sua maioria relacionadas com o meio em que vive. O fogo, o corte de árvores, a fragmentação do bosque pela construção de novas estradas ou alargamento das já existentes poderão fazer perigar a evolução da sua população.
A maior ameaça contudo será provavelmente o veneno. Usado frequentemente pelos pastores locais com vista a eliminar o Lobo (Canis lupus) para diminuir os danos que este super-predador inflige aos seus rebanhos, o veneno é uma arma cega, que mata indiscriminadamente todos os predadores, incluindo a marta.
São necessárias medidas de sensibilização da população rural minhota alertando para os graves danos que a utilização do veneno provoca no meio ambiente e também uma vigilância eficaz das nossas áreas naturais mais importantes. Só assim será possível continuarmos a usufruir da presença deste pequeno mamífero, tão ágil e gracioso.
Termino com uma nota de optimismo. Em Novembro de 2005 foi possível confirmar a presença de marta numa floresta extensa contígua, já pertencente a Espanha (Galiza). As duas populações parecem estar em comunicação aumentado assim consideravelmente o número total de individuos e diminuindo a vulnerabilidade da população portuguesa.

02 março 2006

A Marta no Alto Minho - VI


Gineta fotografada em local de presença habitual de Marta
(Martes martes)
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Animais que partilham o território com a Marta (Martes martes)
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No trabalho de campo efectuado para determinação da ocorrência de Marta nas serras do Norte de Portugal foram identificados outros animais que compartem o mesmo território.
Merece particular destaque, pelo facto de potencialmente predar sobre as mesmas presas, a presença da Gineta (Genetta genetta) - ver gráfico em anexo.
Significativo é também o elevado número de fotos de Rato-do-bosque (Apodemos sylvaticus) nas zonas de presença confirmada de marta, podendo constituir um recurso importante na dieta deste mustelídeo.
O Javali (Sus scrofa), o Corço (Capreolus capreolus) ou predadores como a Raposa (Vulpes vulpes) e o Lobo-ibérico (Canis lupus signatus) são presença assídua do habitat por onde deambulam as martas do Noroeste português.

22 fevereiro 2006

A Marta no Alto Minho - V

Apesar de nesta fotografia a Marta (Martes martes) não se encontrar
defronte para a câmara mesmo assim é possível observar a
característica mancha peitoral amarela e atentar no pormenor
dos seus contornos, o que se revela fundamental
para a individualização deste animal.
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Metodologia e Resultados
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Ao longo dos 16 meses de trabalho de campo numa floresta das serras do Alto Minho foram colocadas 12 estações fotográficas, tendo sido registada a presença de Marta (Martes martes) em 9 delas.
As máquinas fotográficas activadas por movimento posicionadas mais a Norte e mais a Sul distavam entre si aproximadamente 4 km. As câmaras colocadas mais a Ocidente e mais a Oriente distavam por sua vez 2,5 km. A distância média entre estações fotográficas contíguas foi de 460 metros.
A área efectivamente estudada foi de cerca de 10 quilómetros quadrados. Neste território foi possível identificar um mínimo de 5 martas distintas.
Deve-se referir que os dados obtidos não são suficientes para a determinação das densidades médias destes mustelídeos uma vez que a totalidade da floresta não foi abrangida pelo esforço de campo. A título meramente indicativo pode-se contudo admitir densidades aproximadas de 5 martas por 10 quilómetros quadrados na zona central do bosque. Apesar da disparidade de ecossistemas e regiões climáticas estes dados correlacionam-se com os de Zalewski A. (in Ann. Zool. Fennici 32:131-144) que na floresta primitiva de Bialowieza na Polónia, em estudo por radiotracking com 6 martas marcadas, obteve uma densidade média de 5,43 martas por 10 quilómetros quadrados.
É importante realçar contudo que as densidades médias de martas podem ser muito diferentes consoante a área estudada (de 1 até 12 martas por 10 quilómetros quadrados; in Collins Field Guide - Mammals of Britain and Europe). Talvez por isso a melhor medida para determinar o grau de ameaça sobre esta população seja a presença da Fuinha (Martes foina). Em florestas maduras com populações estáveis de marta a fuinha tem uma densidade vestigial, ocorrendo principalmente próximo a áreas habitadas; nesta floresta do Alto Minho, e apesar das condições ecológicas favoráveis, a presença da fuinha é ainda importante, com um ratio aproximado de 1:3 (favorável à marta).
Torna-se imperativo um estudo a médio/longo prazo da evolução das populações destes mustelídeos para conhecer a real tendência dos seus efectivos.

16 fevereiro 2006

A Marta no Alto Minho - IV


No dia 14 de Março de 2004 esta Marta (Martes martes)
foi fotografada por 2 vezes em plena luz do dia

Actividade diurna da Marta (Martes martes)
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Apesar de essencialmente nocturna a marta pode também apresentar actividade diurna (ver gráfico em anexo). Na floresta do Alto Minho alvo deste estudo, as estações fotográficas documentaram os movimentos de 2 martas em 2 áreas distintas sob a luz do dia.
Estas fotografias foram obtidas principalmente durante os meses de Março e Abril, ou seja no início da Primavera. Este é um período particularmente importante no ciclo biológico da marta, visto que é a altura do nascimento das crias. Intensifica-se a busca de alimento por parte das fêmeas podendo ser esta a explicação mais provável para os movimentos diurnos da espécie.
Apesar da raridade destas fotos, deve-se realçar o facto de aparentemente o aumento da luminiosidade não tornar as martas mais fugidias. Com efeito, estes mustelídeos podem manter-se junto das câmaras fotográficas durante mais de 1 minuto, ou seja, um procedimento em tudo semelhante ao que habitualmente ocorre ao abrigo da noite.

09 fevereiro 2006

A Marta no Alto Minho - III


Marta (Martes martes) fotografada às 5h e 9 minutos
de 1 de Abril de 2003
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Fuinha (Martes foina) fotografada às 0h e 35 minutos
da noite seguinte, precisamente no mesmo local

Interacção Marta (Martes martes)/Fuinha (Martes foina)

A floresta do Alto Minho onde se realizou este trabalho de campo é talvez o melhor representante de bosque caducifólio maduro existente em Portugal continental. Além disso a povoação mais próxima encontra-se a pelo menos 5 quilómetros de distância. Neste habitat tão pouco humanizado seria de esperar uma ocupação do território quase total por parte da marta e simultaneamente a ausência da fuinha, que tradicionalmente prefere meios mais humanizados.
O que se constata contudo é que, apesar da predominância da marta, a fuinha ocorre em números não negligenciáveis (ver gráfico em anexo). Tal deve-se provavelmente ao facto de nos encontrarmos no limite Sul de distribuição da marta a nível europeu. Seria bastante interessante prolongar no tempo a realização deste trabalho com vista a compreender a evolução das populações dos dois mustelídeos.
O bosque estudado é atravessado por 6 linhas de água, verificando-se nesses pequenos vales diferenças marcadas na ocupação do território. Assim, após vários semanas de prospecção, verificou-se uma presença quase absoluta da marta em 4 desses vales (onde a fuinha estava ausente) enquanto que num outro vale apenas se identificou a presença da fuinha (com a ausência completa da marta) e num último vale os dois mustelídeos coexistiam (ver fotos em anexo).
Conclui-se portanto que, pelo menos em termos territoriais, no Norte de Portugal, a marta e a fuinha são verdadeiros competidores.