22 março 2006

Queimadas

Incêndio em Fevereiro num dos vales mais remotos do Parque Nacional da Peneda-Gerês

Nestes dias caminhando pelas serras do Norte de Portugal podem-se observar várias colunas de fumo elevando-se no céu. Correspondem a dezenas de fogos diários, na sua maioria ateados pelas populações locais (principalmente pastores) mas também pelas autoridades competentes (Serviços Florestais). Pretende-se com estas queimadas intencionais renovar os pastos ou então queimar áreas de "mato" com vista a prevenir os grandes incêndios de Verão.
Os resultados desta actividade contudo são no mínimo controversos. Primeiro porque queimar as mesmas áreas ao longo de anos não renova os pastos, antes acaba por esgotá-los. Depois porque ao incendiar "simples matos" se está na realidade a destruir zonas de regeneração de vegetação autóctone bastante mais ricas para a nossa fauna do que as monoculturas de Pinheiro-bravo ou Eucalipto.
Em Portugal infelizmente as montanhas estão associadas ao fogo... em qualquer altura do ano!

16 março 2006

Ainda o Inverno


Estamos a meio de Março e os dias são cada vez mais longos. Adivinha-se o regresso da Primavera, antecipa-se a explosão de vida... contudo nas nossas montanhas o Inverno ainda persiste.
Na Cordilheira Cantábrica os cumes apresentam-se revestidos por um manto branco imaculado, os bosques continuam despidos, os prados permanecem estéreis, as aldeias encontram-se isoladas do mundo.
E a fauna? São os dias mais duros do ano, em que a escassez de alimento é extrema.
Todos ansiamos pela próxima estação...

08 março 2006

A Marta no Alto Minho - Conclusão

Um mustelídeo durante a noite e um Corço (Capreolus capreolus)
durante o dia passam defronte do mesmo carvalho, realçando a
tranquilidade que ainda existe nesta serra minhota.
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Em Junho de 2004, após vários meses de trabalho de campo, consideramos terminada a primeira fase deste estudo. Tínhamos colocado câmaras fotográficas automáticas nos principais vales desta floresta do Alto Minho e determinado aqueles em que era frequente a presença de Marta (Martes martes), um mustelídeo do qual ainda pouco se sabe em Portugal.
As ameaças que este animal enfrenta estão na sua maioria relacionadas com o meio em que vive. O fogo, o corte de árvores, a fragmentação do bosque pela construção de novas estradas ou alargamento das já existentes poderão fazer perigar a evolução da sua população.
A maior ameaça contudo será provavelmente o veneno. Usado frequentemente pelos pastores locais com vista a eliminar o Lobo (Canis lupus) para diminuir os danos que este super-predador inflige aos seus rebanhos, o veneno é uma arma cega, que mata indiscriminadamente todos os predadores, incluindo a marta.
São necessárias medidas de sensibilização da população rural minhota alertando para os graves danos que a utilização do veneno provoca no meio ambiente e também uma vigilância eficaz das nossas áreas naturais mais importantes. Só assim será possível continuarmos a usufruir da presença deste pequeno mamífero, tão ágil e gracioso.
Termino com uma nota de optimismo. Em Novembro de 2005 foi possível confirmar a presença de marta numa floresta extensa contígua, já pertencente a Espanha (Galiza). As duas populações parecem estar em comunicação aumentado assim consideravelmente o número total de individuos e diminuindo a vulnerabilidade da população portuguesa.

02 março 2006

A Marta no Alto Minho - VI


Gineta fotografada em local de presença habitual de Marta
(Martes martes)
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Animais que partilham o território com a Marta (Martes martes)
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No trabalho de campo efectuado para determinação da ocorrência de Marta nas serras do Norte de Portugal foram identificados outros animais que compartem o mesmo território.
Merece particular destaque, pelo facto de potencialmente predar sobre as mesmas presas, a presença da Gineta (Genetta genetta) - ver gráfico em anexo.
Significativo é também o elevado número de fotos de Rato-do-bosque (Apodemos sylvaticus) nas zonas de presença confirmada de marta, podendo constituir um recurso importante na dieta deste mustelídeo.
O Javali (Sus scrofa), o Corço (Capreolus capreolus) ou predadores como a Raposa (Vulpes vulpes) e o Lobo-ibérico (Canis lupus signatus) são presença assídua do habitat por onde deambulam as martas do Noroeste português.

22 fevereiro 2006

A Marta no Alto Minho - V

Apesar de nesta fotografia a Marta (Martes martes) não se encontrar
defronte para a câmara mesmo assim é possível observar a
característica mancha peitoral amarela e atentar no pormenor
dos seus contornos, o que se revela fundamental
para a individualização deste animal.
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Metodologia e Resultados
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Ao longo dos 16 meses de trabalho de campo numa floresta das serras do Alto Minho foram colocadas 12 estações fotográficas, tendo sido registada a presença de Marta (Martes martes) em 9 delas.
As máquinas fotográficas activadas por movimento posicionadas mais a Norte e mais a Sul distavam entre si aproximadamente 4 km. As câmaras colocadas mais a Ocidente e mais a Oriente distavam por sua vez 2,5 km. A distância média entre estações fotográficas contíguas foi de 460 metros.
A área efectivamente estudada foi de cerca de 10 quilómetros quadrados. Neste território foi possível identificar um mínimo de 5 martas distintas.
Deve-se referir que os dados obtidos não são suficientes para a determinação das densidades médias destes mustelídeos uma vez que a totalidade da floresta não foi abrangida pelo esforço de campo. A título meramente indicativo pode-se contudo admitir densidades aproximadas de 5 martas por 10 quilómetros quadrados na zona central do bosque. Apesar da disparidade de ecossistemas e regiões climáticas estes dados correlacionam-se com os de Zalewski A. (in Ann. Zool. Fennici 32:131-144) que na floresta primitiva de Bialowieza na Polónia, em estudo por radiotracking com 6 martas marcadas, obteve uma densidade média de 5,43 martas por 10 quilómetros quadrados.
É importante realçar contudo que as densidades médias de martas podem ser muito diferentes consoante a área estudada (de 1 até 12 martas por 10 quilómetros quadrados; in Collins Field Guide - Mammals of Britain and Europe). Talvez por isso a melhor medida para determinar o grau de ameaça sobre esta população seja a presença da Fuinha (Martes foina). Em florestas maduras com populações estáveis de marta a fuinha tem uma densidade vestigial, ocorrendo principalmente próximo a áreas habitadas; nesta floresta do Alto Minho, e apesar das condições ecológicas favoráveis, a presença da fuinha é ainda importante, com um ratio aproximado de 1:3 (favorável à marta).
Torna-se imperativo um estudo a médio/longo prazo da evolução das populações destes mustelídeos para conhecer a real tendência dos seus efectivos.