20 junho 2006

A Salamandra-lusitânica


Nas montanhas do Norte de Portugal e da Galiza, próximo a ribeiros de águas puras e com abundante vegetação rupícola habita um pequeno anfíbio único no mundo: a Salamandra-lusitânica (Chioglossa lusitanica).
Os adultos desta espécie apresentam uma actividade preferencialmente terrestre apenas utilizando o meio aquático para se refugiarem dos predadores ou acasalarem e depositarem os seus ovos. Durante o dia descansam sob pedras ou em cavidades naturais e à noite deambulam por lameiros ou bosques caducifólios em busca de pequenos insectos e aracnídeos.
Uma das características mais destacadas da salamandra-lusitânica é a capacidade de libertar a cauda quando ameaçada, algo de bastante raro na classe dos anfíbios.
Com o seu corpo negro de 16 cm de comprimento, duas listas douradas e ponteado azulado no dorso esta salamandra enriquece com a sua presença os locais mais preservados das nossas serras húmidas atlânticas. Esperemos que por um longo tempo..

11 junho 2006

Os pombais


Em Trás-os-Montes é frequente encontrarmos dispersos pela paisagem pombais como o retratado na foto acima: no Nordeste Transmontano existem mais de 3500 destas estruturas.
Começaram a ser construídos no início do século XIX e tinham como principais funções a produção de estrume de pombo (ou "pombinho") e a produção de carne. Devido ao exôdo rural da segunda metade do século XX e à caça desregulada verificou-se um abandono progressivo destas edificações encontrando-se actualmente muitos deles em ruínas.
Numa excelente medida de conservação da natureza e do património cultural, o Parque Natural do Douro Internacional iniciou em 1997 a recuperação de 25 pombais. Posteriormente apoiou a criação da PALOMBAR (palavra que significa pombal em mirandês), ou seja a associação dos proprietários de pombais tradicionais do Nordeste Transmontano, que tem como principal objectivo precisamente "recuperar, conservar e revitalizar" estas estruturas.
Para além do embelezamento da paisagem e da recuperação das populações de Pombos-das-rochas (Columba livia) as principais beneficiadas deverão ser as aves de rapina, como a ameaçada Águia de Bonelli (Hieraaetus fasciatus), que assim veêm aumentar a disponibilidade das suas potenciais presas.

30 maio 2006

O Lobo e as suas presas em Montalegre (3/3)

Lobo-ibérico (Canis lupus signatus) fotografado aos 1300 metros de altitude, numa serra do concelho de Montalegre. (Para ampliar a foto teclar com o botão esquerdo do "rato" sobre a imagem)

Embora não tenha sido possível observar directamente ou escutar os seus uivos, a presença do Lobo-ibérico (Canis lupus signatus) nesta serra do Noroeste transmontano foi sugerida pela existência de rastros e excrementos.
A confirmação foi conseguida pela foto reproduzida acima, obtida na noite de 20 Julho de 2005 num pequeno bosque de Carvalho-negral (Quercus pyrenaica) onde o Corço (Capreolus capreolus) é particularmente abundante.
Como é bom saber que em alguns pontos do território português o eterno ciclo predador/presa ainda acontece e logo com intervenientes tão emblemáticos e majestosos...

25 maio 2006

O Lobo e as suas presas em Montalegre (2/3)

O Corço (Capreolus capreolus) é o ungulado mais frequente na área estudada

De acordo com os objectivos do trabalho de campo apresentados no post anterior a observação de índicios de presença de mamíferos permitiu detectar a ocorrência de Lobo-ibérico (Canis lupus signatus), Corço (Capreolus capreolus) e Javali (Sus scrofa). Nas altitudes mais elevadas constatou-se a presença de gado equino e bovino pastoreados em regime extensivo.
As fotografias obtidas pelas camâras automáticas confirmaram os dados indirectos de presença. Desta forma pode-se concluir que o regime alimentar do lobo nesta serra do extremo Norte português deverá basear-se fundamentalmente nas 4 espécies referidas (duas silvestres e outras duas cuja abundância depende do homem), desconhecendo-se no entanto a importância relativa de cada uma na dieta do canídeo.
Foi possível constatar o abandono de um cadáver de gado bovino num prado próximo a uma aldeia, uma prática que provavelmente representará mais uma importante fonte alimentar para o lobo.

20 maio 2006

O Lobo e as suas presas em Montalegre (1/3)

Em Montalegre ainda é possível encontrar vales isolados cobertos por vegetação autóctone.

Esta fotografia confirma a reprodução de Javali (Sus scrofa) numa zona de vegetação cerrada do vale. As crias inspeccionam atentamente a câmara automática conforme se pode constatar pela sua proximidade à objectiva.

O concelho de Montalegre apresenta uma riqueza natural considerável abrangendo uma enorme diversidade de biótopos. Aqui encontramos as serras mais altas do Norte de Portugal, importantes bosques caducifólios, cursos de água preservados, planaltos de altitude e formas únicas de exploração agrícola compatíveis com o meio ambiente. No último número da revista Tribuna da Natureza, publicação trimestral dedicada à conservação da natureza editada pelo FAPAS-Portugal (Fundo para a Protecção dos Animais Selvagens), assino um artigo sobre a região e as suas áreas naturais mais importantes.
Rendido à beleza das terras do Barroso, realizei um trabalho de campo durante 5 meses (entre Maio e Setembro de 2005) tendo por objectivos determinar a ocorrência do Lobo-ibérico (Canis lupus signatus) e das suas principais presas e também os padrões de ocupação de território das diferentes espécies.
Escolhi como área de estudo o vale, portela e cumeadas adjacentes a um pequeno afluente da margem direita do Rio Cávado. Esta zona apresenta um interessante coberto vegetal constituído nas altitudes mais baixas (aos 900 metros de altitude) por bosques relativamente conservados de Carvalho-negral (Quercus pyrenaica) alternando com prados de lima, enquanto que nos locais mais elevados (acima dos 1300 metros) predominam as carvalheiras e as formações arbustivas de Urze (Erica spp.), Giesta (Cystisus spp.) e Tojo (Ulex parviflorus).
Foram realizados 4 transectos distintos com uma média de 5 quilómetros (mínimo de 3 e máximo de 9 quilómetros) com o intuito de detectar indícios da presença de fauna. Simultaneamente foram colocadas 2 câmaras fotográficas activadas por um sensor de movimento em locais susceptíveis de serem frequentados pelos mamíferos objecto do estudo. O número total de dias de utilização das camâras foi de 129 dias; o número médio de dias em que cada câmara esteve efectivamente activa foi de 67.
Os resultados serão apresentados no próximo post, a publicar dentro de dias.