14 setembro 2006

Vale do Águeda: o desfiladeiro mais selvagem (2)

Grifo (Gyps fulvus) em vôo tipo "soaring" sobre a
encosta direita do Vale do Águeda

Painel de azulejo em Almofala, a aldeia dos abutres e das águias

O vale do Rio Águeda é uma das regiões mais importantes da Península Ibérica no que respeita à avifauna. Neste canhão remoto nidificam o Abutre-do-egipto (Neophron percnopterus), símbolo do Parque Natural do Douro Internacional, o Grifo (Gyps fulvus), que aqui possui uma das maiores colónias de nidificação no nosso país, a Águia-real (Aquila chrysaetos), que no concelho de Figueira de Castelo Rodrigo apresenta uma das maiores densidades populacionais da Europa Ocidental, e também as raras Águia-perdigueira (Hieraetus fasciatus) e Cegonha-negra (Ciconia nigra).
Desde a aldeia de Almofala parte um cómodo trilho pedestre de cerca de 3 quilómetros de extensão que termina na Igreja de Santo André, miradouro privilegiado sobre as arribas do Águeda, onde, com os indispensáveis binóculos e guia de aves e uma dose razoável de paciência, se podem observar todas as espécies acima descritas.
Fica a certeza de nesse local, independentemente dos avistamentos efectuados, desfilar perante nós o melhor de um Portugal Natural, há muito perdido em grande parte do restante território...

09 setembro 2006

Vale do Águeda: o desfiladeiro mais selvagem (1)



Em plena Beira Alta, ao longo da fronteira com Espanha, junto às aldeias de Almofala, Mata de Lobos e Escalhão encontra-se uma das mais belas paisagens naturais da Península Ibérica: o desfiladeiro do Rio Águeda.
Integrado no Parque Natural do Douro Internacional desde 1998, o vale do Águeda discorre em sentido Sudeste-Noroeste, partilhado pelo Concelho de Figueira de Castelo Rodrigo e pela província castelhana de Salamanca. O curso das águas cavou ao longo de milénios uma profunda garganta sobre o planalto granítico, determinando a configuração da paisagem actual de grande beleza em que por entre fragas de dezenas de metros de altura podemos encontrar bosques densos de Azinheira (Quercus rotundifolia) e Zimbro (Juniperus communis) ou arbustos e pequenas árvores como o Zambujeiro (Olea europaea), Sanguinho (Frangula alnus) ou a Cornalheira (Pistacia terebinthus).
A acompanhar um ecossistema bastante preservado surge uma grande riqueza faunística, principalmente ao nível da avifauna, de que falarei no próximo post...

04 setembro 2006

Melro-das-rochas: um visitante ameaçado


O Melro-das-rochas (Monticola saxatilis) é, de entre as várias espécies de melros existentes em Portugal, uma das mais atraentes. Visita-nos a cada Primavera e Verão, vindo da África Tropical, mas fá-lo em cada vez menor número, encontrando-se actualmente classificado como Em Perigo de Extinção segundo o recém-publicado Livro Vermelho dos Vertebrados (ICN, 2006).
No nosso país esta bonita ave prefere as paisagens serranas do Parque Nacional da Peneda-Gerês e Parque Natural da Serra da Estrela, frequentando as áreas rochosas com pastos ou matos rasteiros entre os 1000 e os 2000 metros de altitude.
Na Península Ibérica pouco se sabe sobre as causas do declínio da espécie (em Portugal existirão menos de 2500 exemplares e em Espanha menos de 10 000 indivíduos maturos), o que dificulta a implementação de estratégias de conservação. É por isso um privilégio cada vez mais raro avistar um macho de melro-das-rochas, com a sua espectacular plumagem vermelha e azulada, numa caminhada pelos blocos graníticos da Serra do Laboreiro ou pelos cumes nevados do Parque Nacional de Ordesa y Monte Perdido, onde a foto foi obtida.

28 agosto 2006

O tempo das amoras

Agosto não é só o mês dos incêndios. Por esta altura, em quase todo o território português, um pequeno arbusto, pouco atraente nos restantes meses do ano, revela os seus apetitosos frutos. Falo da Silva, arbusto cientificamente conhecido pelo nome de Rubus ulmifolius, e dos seus rebentos, as amoras.
Nas margens de caminhos ou em terras abandonadas e desde que as temperaturas invernais sejam relativamente suaves prospera o silvado. Constitui em muitas ocasiões um refúgio importante para a fauna com caules que podem atingir os dois metros de altura e espinhos curtos e aguçados.
As amoras amadurecem ao longo do presente mês integrando a dieta de um grande número de espécies animais, desde pequenos passeriformes a carnívoros como a Fuinha (Martes foina) ou a Raposa (Vulpes vulpes). Os frutos são constituídos por 80% de água e uma quantidade apreciável de açúcar, cálcio e vitaminas. Por isso, numa próxima caminhada pelas nossas serras, não perca a oportunidade de provar aquelas duas ou três amoras mais maduras mas deixe as restantes para a fauna selvagem que frequenta esse local...

21 agosto 2006

Vale do Ramiscal - Retratos de uma paisagem desoladora

Cumeada dos Bicos

Couto Grande

Colmadela

Baixo Arroio

Alto Arroio

No jornal Público de Domingo, 20 de Agosto, o director do Parque Nacional da Peneda-Gerês (PNPG), Professor Henrique Pereira, afirma: "Nos vales mais encaixados do Ramiscal não ardeu tudo, e até nos parece que não foi afectada a área onde a águia-real costuma caçar". Já o Instituto da Conservação da Natureza (ICN) em nota para a Imprensa, a 17 de Agosto, refere: "O Ramiscal é refúgio para uma águia-real. A observação da área ardida revela que as áreas onde esta espécie procura alimento mantêm-se intactas."
Com o devido respeito pelos dirigentes e técnicos envolvidos, estas afirmações não correspondem à verdade. A grande maioria das áreas utilizadas para caçar pelo único exemplar de águia-real do PNPG, as que seguramente apresentavam as maiores densidades de Coelho-bravo (Oryctolagus cuniculus), foram totalmente dizimadas pelas chamas. As imagens acima publicadas confirmam isso mesmo.

A águia-real é uma das mais raras aves de rapina portuguesas. Segundo o recém-publicado Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal, não existirão mais de 60 casais no nosso país, estando classificada como "Em Perigo de Extinção". No PNPG sobrevive um único exemplar.
O desaparecimento desta águia, a verificar-se, confirmará o que desde há anos se adivinha: mais de 30 anos após a sua criação o Parque Nacional, a jóia de coroa da Conservação da Natureza em Portugal, terá fracassado num dos seus objectivos principais. Será altura para questionar: se no local de máxima protecção ambiental foi possível a extinção de um dos animais selvagens mais emblemáticos, o que esperar da conservação do restante património natural português?

Preocupado com a mais que provável falta de alimento que este exemplar de águia-real e outros vertebrados selvagens actualmente enfrentarão redigi a seguinte carta aberta ao Director do Parque Nacional da Peneda-Gerês:

"
Exmo. Prof. Henrique Pereira,

Na sequência dos violentos incêndios que entre 9 e 16 de Agosto assolaram os vales do Ramiscal e do Arroio e os cumes mais elevados da Serra da Peneda, grande parte do território de caça do último exemplar de Águia-real (Aquila chrysaetos) do Parque Nacional da Peneda-Gerês (PNPG) foi destruído pelas chamas. Os matos rasteiros da Colmadela, Bicos e Couto Grande habitualmente perscrutados por esta rapina em busca de alimento deixaram de existir.

Actualmente esta águia-real, que felizmente ainda sobrevive, e um grande número de predadores ameaçados de extinção, nos quais se incluem o Lobo (Canis lupus signatus), o Gato-bravo (Felis silvestris), o Tartaranhão-caçador (Circus pygargus) ou o Açor (Accipiter gentilis) vivem um período de grande escassez alimentar. Neste contexto venho pedir-lhe para colocar em prática uma medida de baixo custo económico e que seria de grande valia para os vertebrados selvagens desta área do PNPG: a disponibilização de alimentação suplementar para a fauna. De fácil construção e manutenção, a colocação de alimento numa estrutura preparada para o efeito num qualquer local da Serra da Peneda seria um contributo importante para a sobrevivência de alguns dos animais mais emblemáticos do Parque Nacional.

Antecipadamente agradecido pela atenção prestada, com os melhores cumprimentos,
Miguel Barbosa"