01 outubro 2006

Sierra de la Culebra - o imenso território do Lobo



"No tenía par. Ningúm otro lugar podía compararse, en esplendor primigenio, a la Sierra de la Culebra. Allí era de ver la estepa infinita, los horizontes profundos, marcando el límite natural entre Aliste y Sanabria. Sin sentirse arrebatado, allí mismo, por el proprio misterio, no sería uno capaz de conocer la naturaleza y, menos aún, de acceder al conocimiento del lobo." Estas palavras são de Ramón Grande del Brio, um dos maiores estudiosos do Lobo-ibérico (Canis lupus signatus), e reflecte, de maneira magistral, o encanto da serra europeia onde o lobo alcança a sua maior densidade.
Localizada junto à raia portuguesa, limitada a poente pelo Parque Natural de Montesinho, a Serra da Culebra é uma extensa elevação montanhosa de pequena altura, disposta no sentido NW-SE, que deve o seu nome à forma serpentiforme dos seus cumes. As altitudes oscilam entre os 900 e os 1200 metros, alcançando o valor máximo no pico de Peña Mira, com 1243 metros de altitude.
A paisagem é dominada por bosques de Carvalho-negral (Quercus pyrenaica), pinhais de Pinheiro-bravo (Pinus pinaster) e Pinheiro-silvestre (Pinus sylvestris), intercalados por matos e pequenas parcelas cultivadas junto às aldeias. Nesta área com mais de 60 mil hectares, pertencente à rede de Espacios Naturales de Castilla e León, habitam importantes comunidades de herbívoros, como o Veado (Cervus elaphus) com mais de 1200 exemplares, o Javali (Sus scrofa) com cerca de 1000 indíviduos, ou o Corço (Capreolus capreolus). Os 6 grupos familiares de Lobo-ibérico que percorrem a Culebra alimentam-se, quase em exclusivo, destas presas selvagens pelo que este ecossistema constitui um raro exemplo de equilíbrio natural entre presa e predador ainda existente na Península Ibérica.
A todos os amantes da Natureza recomendo vivamente uma visita a esta terra de horizontes sem fim, autêntico paraíso para a fauna.

19 setembro 2006

A Brama do Veado


Nesta altura do ano nas Serras do Nordeste Transmontano, no Parque Natural do Tejo Internacional ou no Alentejo raiano desenrola-se um dos espectáculos naturais mais fascinantes da Fauna Ibérica: a Brama do Veado (Cervus elaphus).
Percorrendo os cumes isolados das Serras do Montesinho ou da Coroa é possível ouvir, a qualquer hora do dia ou da noite, longos e potentes bramidos emitidos pelos machos de veado, que assim procuram dominar as melhores áreas, as que apresentam o maior número de fêmeas, e intimidar os possíveis concorrentes. Por vezes a vocalização, o tamanho corporal e a ostentação das hastes não são suficientes para desmotivarem os machos concorrentes e nessa altura o confronto é inevitável. O choque das hastes e a tentativa de empurrar o adversário para fora do território, apesar da sua espectacularidade, habitualmente não provocam lesões graves. O vencedor da contenda tem ainda um longo trabalho pela frente: terá que defender o território recém-conquistado durante vários dias até que seja aceite pelo grupo de fêmeas e estas se encontrem receptivas à cópula.
O macho acima retratado, fotografado a 15 de Setembro por uma câmara activada por um sensor de movimento, dirigia-se para um conhecido local de alimentação de um numeroso grupo de fêmeas. Nessa zona esperava-o outro macho que desde há algumas semanas dominava o local. Com pesar informo os leitores do blogue Fauna Ibérica que o nosso exemplar perdeu a batalha... por enquanto!

14 setembro 2006

Vale do Águeda: o desfiladeiro mais selvagem (2)

Grifo (Gyps fulvus) em vôo tipo "soaring" sobre a
encosta direita do Vale do Águeda

Painel de azulejo em Almofala, a aldeia dos abutres e das águias

O vale do Rio Águeda é uma das regiões mais importantes da Península Ibérica no que respeita à avifauna. Neste canhão remoto nidificam o Abutre-do-egipto (Neophron percnopterus), símbolo do Parque Natural do Douro Internacional, o Grifo (Gyps fulvus), que aqui possui uma das maiores colónias de nidificação no nosso país, a Águia-real (Aquila chrysaetos), que no concelho de Figueira de Castelo Rodrigo apresenta uma das maiores densidades populacionais da Europa Ocidental, e também as raras Águia-perdigueira (Hieraetus fasciatus) e Cegonha-negra (Ciconia nigra).
Desde a aldeia de Almofala parte um cómodo trilho pedestre de cerca de 3 quilómetros de extensão que termina na Igreja de Santo André, miradouro privilegiado sobre as arribas do Águeda, onde, com os indispensáveis binóculos e guia de aves e uma dose razoável de paciência, se podem observar todas as espécies acima descritas.
Fica a certeza de nesse local, independentemente dos avistamentos efectuados, desfilar perante nós o melhor de um Portugal Natural, há muito perdido em grande parte do restante território...

09 setembro 2006

Vale do Águeda: o desfiladeiro mais selvagem (1)



Em plena Beira Alta, ao longo da fronteira com Espanha, junto às aldeias de Almofala, Mata de Lobos e Escalhão encontra-se uma das mais belas paisagens naturais da Península Ibérica: o desfiladeiro do Rio Águeda.
Integrado no Parque Natural do Douro Internacional desde 1998, o vale do Águeda discorre em sentido Sudeste-Noroeste, partilhado pelo Concelho de Figueira de Castelo Rodrigo e pela província castelhana de Salamanca. O curso das águas cavou ao longo de milénios uma profunda garganta sobre o planalto granítico, determinando a configuração da paisagem actual de grande beleza em que por entre fragas de dezenas de metros de altura podemos encontrar bosques densos de Azinheira (Quercus rotundifolia) e Zimbro (Juniperus communis) ou arbustos e pequenas árvores como o Zambujeiro (Olea europaea), Sanguinho (Frangula alnus) ou a Cornalheira (Pistacia terebinthus).
A acompanhar um ecossistema bastante preservado surge uma grande riqueza faunística, principalmente ao nível da avifauna, de que falarei no próximo post...

04 setembro 2006

Melro-das-rochas: um visitante ameaçado


O Melro-das-rochas (Monticola saxatilis) é, de entre as várias espécies de melros existentes em Portugal, uma das mais atraentes. Visita-nos a cada Primavera e Verão, vindo da África Tropical, mas fá-lo em cada vez menor número, encontrando-se actualmente classificado como Em Perigo de Extinção segundo o recém-publicado Livro Vermelho dos Vertebrados (ICN, 2006).
No nosso país esta bonita ave prefere as paisagens serranas do Parque Nacional da Peneda-Gerês e Parque Natural da Serra da Estrela, frequentando as áreas rochosas com pastos ou matos rasteiros entre os 1000 e os 2000 metros de altitude.
Na Península Ibérica pouco se sabe sobre as causas do declínio da espécie (em Portugal existirão menos de 2500 exemplares e em Espanha menos de 10 000 indivíduos maturos), o que dificulta a implementação de estratégias de conservação. É por isso um privilégio cada vez mais raro avistar um macho de melro-das-rochas, com a sua espectacular plumagem vermelha e azulada, numa caminhada pelos blocos graníticos da Serra do Laboreiro ou pelos cumes nevados do Parque Nacional de Ordesa y Monte Perdido, onde a foto foi obtida.