09 agosto 2007

Explorações mineiras: cicatrizes na paisagem

Mina a céu aberto localizada no Principado das Astúrias próximo à Reserva da Biosfera da UNESCO de Muniellos, bastião da principal população de Urso-pardo (Ursus arctos) da Península Ibérica.

Aspecto actual das minas de volfrâmio de Portelo no Parque Natural de Montesinho, onde decorre um projecto de recuperação ambiental.


Nas montanhas da Península Ibérica ainda são relativamente frequentes as cicatrizes na paisagem provocadas por explorações mineiras actuais ou passadas.
Na Cordilheira Cantábrica por exemplo, habitat de espécies tão ameaçadas como o Urso-pardo (Ursus arctos) ou o Galo-montês (Tetrao urogallus), co-existem a poucas centenas de metros dos locais de criação destes animais minas a céu aberto, feridas abertas nas encostas florestadas que chegam a atingir quilómetros de diâmetro.
Em Portugal, em pleno Parque Natural de Montesinho as antigas minas de volfrâmio de Portelo, localidade fronteiriça no coração desta área protegida, embora desactivadas há mais de 20 anos ainda hoje marcam a paisagem com centenas de poços distribuídos por uma área de 15 hectares que colocam em risco a segurança das populações e da fauna protegida do parque. Mas este panorama está a mudar: actualmente decorrem trabalhos com vista ao encerramento das cavidades e à recuperação ambiental desta vertente da Serra de Montesinho.
Parabéns à Câmara Municipal de Bragança responsável pela iniciativa a qual devolve a dignidade perdida a uma das mais belas montanhas portuguesas. Espero contudo que os responsáveis políticos locais sejam coerentes e que depois do grande esforço económico envolvido neste projecto (fala-se em mais de 1,5 milhões de euros) não deitem tudo a perder instalando dezenas de aerogeradores na cumeada da serra arruinando assim o maior valor desta região: a sua paisagem belíssima, única no país...

30 julho 2007

Lontra: a super-predadora dos nossos rios

A Lontra-europeia (Lutra lutra) habita os rios portugueses menos poluídos rodeados de abundante vegetação ribeirinha.

Em Portugal encontra-se uma das principais populações de Lontra (Lutra lutra) de toda a Europa. Este mamífero dotado de incrível agilidade e curiosidade inesgotável habita na maior parte do território nacional apresentando o estatuto de conservação de Pouco Preocupante segundo o Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal.
Vales remotos e sossegados, praias desertas rodeadas por costas rochosas escarpadas ou lagoas de altitude são potenciais locais de ocorrência do super-predador dos meios húmidos. Observá-la, como para todos os mamíferos da nossa fauna, requer conhecimento do terreno, bastante paciência e... sorte!
O autor destas linhas foi recentemente bafejado pela fortuna: caminhando na Paisagem Protegida da Lagoa de Bertiandos e São Pedro de Arcos no concelho de Ponte de Lima e observando o Rio Estorãos (afluente da margem direita do Rio Lima) surgiram a certa altura 2 lontras. Durante alguns segundos "brincaram" uma com a outra tentando capturar-se e mergulhando para apanhar objectos. A certa altura aperceberam-se da minha presença e rapidamente desapareceram. Momentos fugazes mas inesquecíveis para qualquer amante da Natureza.
Esperemos que os nossos rios mantenham condições para continuar a suportar esta espécie, verdadeiro símbolo da fauna lusitana.

20 julho 2007

A infância de uma Águia-real portuguesa

Obtida ao pôr-do-sol e desde uma grande distância para não perturbar a ave, esta imagem revela em toda a sua fragilidade a infância de um dos mais fantásticos super-predadores portugueses:
a Águia-real (
Aquila chrysaetos)...

O dia chegava ao fim e a tranquilidade daquele vale remoto do interior transmontano apenas era quebrada pelo voo ocasional de um Papa-figos (Oriolus oriolus). No rio por baixo de mim a água corria límpida e um Melro-d´água (Cinclus cinclus) mergulhava incessantemente tentando capturar o maior número de invertebrados para alimentar a sua prole. Apesar do calor que se fazia sentir e do trilho por onde caminhava conduzir até ao convidativo curso de água, detive-me a meia encosta contemplando a imponente escarpa que se elevava na margem oposta. Perante mim surgiam 2 fantásticas construções, praticamente contíguas, localizadas nas fendas mais inacessíveis: lenha acumulada durante anos constituía a matéria-prima de 2 ninhos de dimensões inesperadas, ambos com mais de 5 metros de altura e outro tanto de largura. Quem no passado tenha visto um ninho semelhante sabe que apenas uma das nossas aves, a mais poderosa, seria capaz de tal façanha: encontrava-me perante o local de nidificação da Águia-real (Aquila chrysaetos).
Sentei-me a contemplar os ninhos. Olhei para o céu, depois para as principais árvores e para os poisos situados na linha do horizonte tentando encontrar a rainha das aves mas sem sucesso. Peguei então nos binóculos e apontei-os para os gigantescos ninhos: no mais discreto, no mais resguardado, um aguioto já de apreciável tamanho devolvia a minha curiosidade fixando-me com o seu olhar de rapina.
Lá em baixo a água continuava a correr por entre as margens recobertas de zimbro, ao fundo um belíssimo castelo testemunha de duras batalhas pela posse desta terra dominava a paisagem e eu, aconchegado pelo olhar ingénuo da jovem águia-real e pelo vento quente de uma tarde de Verão, sentia-me feliz por ser português e ainda existirem locais assim em Portugal...

12 julho 2007

O declínio das abelhas


Imagens cada vez menos frequentes nas nossas serras:
Abelha (Apis mellifera) a preparar-se para recolher o néctar
e colmeias repletas de mel.


Nos últimos anos e de forma inexplicável as populações mundiais de Abelha (Apis mellifera) têm diminuído acentuadamente sem que se conheçam as causas para tal situação.
Em Portugal, Espanha, Itália, Grécia, Estados Unidos ou Argentina as abelhas saem da colmeia para recolher o néctar e não voltam à colónia, desaparecendo simplesmente sem deixar rasto.
Entre as explicações avançadas para tal declínio encontram-se a diminuição da biodiversidade botânica, a seca provocada pelas alterações climáticas, a existência de parasitas agressivos que infectam estes insectos ou as radiações emitidas por antenas de telemóvel ou cabos de alta tensão que eventualmente interferem com o sistema de navegação das abelhas e impedem o seu regresso às colmeias.
Seja qual for a causa, a verdade é que o seu desaparecimento teria enormes repercussões no mundo tal como hoje o conhecemos. Em vastas áreas as abelhas constituem o único polinizador conhecido pelo que a sua ausência poderia levar a uma perda de mais de 30% da biodiversidade. Para bem da Humanidade esperemos que esta regressão populacional se inverta rapidamente e que tal previsão nunca se concretize...

06 julho 2007

Picanço-real: de espécie comum a ameaçada


Juvenis de Picanço-real (Lanius meridionalis) observados na Serra de Montesinho.

O Picanço-real (Lanius meridionalis), juntamente com o Picanço-de-dorso-ruivo (Lanius collurio) e o Picanço-barreteiro (Lanius senator), constitui uma das 3 espécies de picanços que se podem observar em Portugal, sendo a única residente no nosso país durante todo o ano. A sua designação latina é uma referência ao hábito que estas aves apresentam de empalarem as suas presas (habitualmente escaravelhos, borboletas ou abelhas) em espinhos ou arame farpado de forma a armazenarem ou despedaçarem os alimentos capturados.
O picanço-real é uma espécie típica de habitats abertos pelo que não é comum encontrá-lo em zonas florestadas. Mas há excepções... No dia 30 de Junho caminhava num extenso pinhal de Pinheiro-bravo (Pinus pinaster) da Serra de Montesinho em que as clareiras escasseiam quando subitamente deparei com 4 (!) picanços-reais. Uma observação mais atenta permitiu-me constatar que se tratava de 2 adultos e de 2 crias, provavelmente saídas há pouco do ninho. Pude então admirar detalhadamente esta elegante ave que embora ainda seja relativamente comum na Península Ibérica (especula-se que existirão mais de 200 mil casais reprodutores) tem apresentando nos últimos anos um declive populacional acentuado. Espero nos próximos anos continuar a testemunhar o êxito reprodutivo da agora por mim denominada "família de picanços do pinhal de Montesinho".