20 agosto 2007

Final de tarde de Agosto


Estamos em Agosto e por esta altura do ano, principalmente no interior do país, o verde da Primavera deu já lugar ao tom amarelado característico das terras que experimentam um acusado défice hídrico. A chegada do estio está associada às primeiras incursões dos juvenis das diferentes espécies para o exterior das suas tocas ou ninhos. Enquanto os herbívoros anseiam por melhores pastagens, os carnívoros regozijam-se com a abundância de presas inexperientes.
Ao forte calor do meio do dia sucedem com frequência na alta montanha tempestades tão breves quanto violentas. Após minutos de intensa precipitação e em que a queda de relâmpagos constitui uma ameaça real para todos os seres vivos, a Natureza como que se arrepende dos seus excessos proporcionando imagens de grande beleza e serenidade como a que está reproduzida acima.
Dificilmente haverá melhor final de tarde do que o de um dia longo de Agosto...

16 agosto 2007

A perdiz-comum


Progenitora e cria de Perdiz-comum (Alectoria rufa) fotografadas este Verão num refúgio de caça do Norte de Portugal.

A Perdiz-comum (Alectoris rufa) é uma das principais espécies cinegéticas da fauna ibérica. Amplamente distribuída, trata-se de uma ave capaz de se adaptar a diferentes habitats e franjas altitudinais alcançando as maiores densidades na paisagem tipicamente mediterrânea do Sul de Portugal e rareando nas montanhas do Norte.
Alimenta-se sobretudo de sementes e folhas de plantas silvestres ou cultivadas (como gramíneas ou leguminosas); com frequência as crias no decurso da Primavera consomem também um número apreciável de insectos.
Estima-se que existirão mais de 2 milhões de exemplares em toda a Península Ibérica constituindo uma das principais presas-chave, fundamental para o regime alimentar de espécies ameaçadas de extinção como a Águia-real (Aquila chryseatus) ou Águia-perdigueira (Hieraaetus fasciatus). Esperemos que esta progenitora e a sua cria, fotografadas num dos raros refúgios de caça portugueses, possam sobreviver à perseguição venatória que decorrerá entre 5 de Outubro e 30 de Dezembro, de forma a poderem desempenhar o seu papel ecológico da forma mais natural possível...

09 agosto 2007

Explorações mineiras: cicatrizes na paisagem

Mina a céu aberto localizada no Principado das Astúrias próximo à Reserva da Biosfera da UNESCO de Muniellos, bastião da principal população de Urso-pardo (Ursus arctos) da Península Ibérica.

Aspecto actual das minas de volfrâmio de Portelo no Parque Natural de Montesinho, onde decorre um projecto de recuperação ambiental.


Nas montanhas da Península Ibérica ainda são relativamente frequentes as cicatrizes na paisagem provocadas por explorações mineiras actuais ou passadas.
Na Cordilheira Cantábrica por exemplo, habitat de espécies tão ameaçadas como o Urso-pardo (Ursus arctos) ou o Galo-montês (Tetrao urogallus), co-existem a poucas centenas de metros dos locais de criação destes animais minas a céu aberto, feridas abertas nas encostas florestadas que chegam a atingir quilómetros de diâmetro.
Em Portugal, em pleno Parque Natural de Montesinho as antigas minas de volfrâmio de Portelo, localidade fronteiriça no coração desta área protegida, embora desactivadas há mais de 20 anos ainda hoje marcam a paisagem com centenas de poços distribuídos por uma área de 15 hectares que colocam em risco a segurança das populações e da fauna protegida do parque. Mas este panorama está a mudar: actualmente decorrem trabalhos com vista ao encerramento das cavidades e à recuperação ambiental desta vertente da Serra de Montesinho.
Parabéns à Câmara Municipal de Bragança responsável pela iniciativa a qual devolve a dignidade perdida a uma das mais belas montanhas portuguesas. Espero contudo que os responsáveis políticos locais sejam coerentes e que depois do grande esforço económico envolvido neste projecto (fala-se em mais de 1,5 milhões de euros) não deitem tudo a perder instalando dezenas de aerogeradores na cumeada da serra arruinando assim o maior valor desta região: a sua paisagem belíssima, única no país...

30 julho 2007

Lontra: a super-predadora dos nossos rios

A Lontra-europeia (Lutra lutra) habita os rios portugueses menos poluídos rodeados de abundante vegetação ribeirinha.

Em Portugal encontra-se uma das principais populações de Lontra (Lutra lutra) de toda a Europa. Este mamífero dotado de incrível agilidade e curiosidade inesgotável habita na maior parte do território nacional apresentando o estatuto de conservação de Pouco Preocupante segundo o Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal.
Vales remotos e sossegados, praias desertas rodeadas por costas rochosas escarpadas ou lagoas de altitude são potenciais locais de ocorrência do super-predador dos meios húmidos. Observá-la, como para todos os mamíferos da nossa fauna, requer conhecimento do terreno, bastante paciência e... sorte!
O autor destas linhas foi recentemente bafejado pela fortuna: caminhando na Paisagem Protegida da Lagoa de Bertiandos e São Pedro de Arcos no concelho de Ponte de Lima e observando o Rio Estorãos (afluente da margem direita do Rio Lima) surgiram a certa altura 2 lontras. Durante alguns segundos "brincaram" uma com a outra tentando capturar-se e mergulhando para apanhar objectos. A certa altura aperceberam-se da minha presença e rapidamente desapareceram. Momentos fugazes mas inesquecíveis para qualquer amante da Natureza.
Esperemos que os nossos rios mantenham condições para continuar a suportar esta espécie, verdadeiro símbolo da fauna lusitana.

20 julho 2007

A infância de uma Águia-real portuguesa

Obtida ao pôr-do-sol e desde uma grande distância para não perturbar a ave, esta imagem revela em toda a sua fragilidade a infância de um dos mais fantásticos super-predadores portugueses:
a Águia-real (
Aquila chrysaetos)...

O dia chegava ao fim e a tranquilidade daquele vale remoto do interior transmontano apenas era quebrada pelo voo ocasional de um Papa-figos (Oriolus oriolus). No rio por baixo de mim a água corria límpida e um Melro-d´água (Cinclus cinclus) mergulhava incessantemente tentando capturar o maior número de invertebrados para alimentar a sua prole. Apesar do calor que se fazia sentir e do trilho por onde caminhava conduzir até ao convidativo curso de água, detive-me a meia encosta contemplando a imponente escarpa que se elevava na margem oposta. Perante mim surgiam 2 fantásticas construções, praticamente contíguas, localizadas nas fendas mais inacessíveis: lenha acumulada durante anos constituía a matéria-prima de 2 ninhos de dimensões inesperadas, ambos com mais de 5 metros de altura e outro tanto de largura. Quem no passado tenha visto um ninho semelhante sabe que apenas uma das nossas aves, a mais poderosa, seria capaz de tal façanha: encontrava-me perante o local de nidificação da Águia-real (Aquila chrysaetos).
Sentei-me a contemplar os ninhos. Olhei para o céu, depois para as principais árvores e para os poisos situados na linha do horizonte tentando encontrar a rainha das aves mas sem sucesso. Peguei então nos binóculos e apontei-os para os gigantescos ninhos: no mais discreto, no mais resguardado, um aguioto já de apreciável tamanho devolvia a minha curiosidade fixando-me com o seu olhar de rapina.
Lá em baixo a água continuava a correr por entre as margens recobertas de zimbro, ao fundo um belíssimo castelo testemunha de duras batalhas pela posse desta terra dominava a paisagem e eu, aconchegado pelo olhar ingénuo da jovem águia-real e pelo vento quente de uma tarde de Verão, sentia-me feliz por ser português e ainda existirem locais assim em Portugal...