17 setembro 2007

A hora do adeus

Cuco-europeu (Cuculus canorus) fotografado num prado de altitude nas montanhas do Alto Sil, Cordilheira Cantábrica.

Para muitas espécies de aves da nossa fauna esta é hora do adeus, a altura de migração para paragens onde o Inverno é uma recordação vaga e o alimento abunda.
Caminhando num prado de altitude próximo ao Parque Natural de Somiedo, em plena Cordilheira Cantábrica, escutei ao longe o inconfundível canto do Cuco-europeu (Cuculus canorus). A paisagem desarborizada e a ajuda de binóculos permitiu-me localizar o exemplar que emitia a vocalização e assim pude observar o seu voo hesitante, de arbusto em arbusto, à procura de alimento por longos minutos. Apesar de se tratar de uma espécie relativamente comum a sua observação é difícil devido ao mimetismo da penugem. Mas naquele fim de tarde, numa das mais belas e preservadas paisagens naturais ibéricas, pude despedir-me da melhor maneira deste característico visitante estival. Boa viagem até à África subsariana e que em 2008 nos possamos ver novamente...

10 setembro 2007

Sabor: o destino inevitável, próprio de um país sem rumo

Vale do Sabor: reduto de vida selvagem desde tempos imemoriais tem o fim anunciado para os próximos meses!

Há opiniões que não devem ser proferidas a quente. Por isso esperei mais de 1 semana para me pronunciar sobre a decisão final de construção de um aproveitamento hidroeléctrico de grande envergadura no Vale do Sabor.
Querem-nos fazer crer que o melhor para o país é a edificação da barragem do Sabor. Querem-nos fazer crer que esta obra pública vai criar mil postos de trabalho que solucionarão os problemas de regressão demográfica do interior transmontano. O Ministro do Ambiente, Francisco Nunes Correia, quer-nos fazer crer que a construção da albufeira irá "trazer algumas consequências negativas que serão mais do que contrabalançadas pelos aspectos positivos" (SIC).
Pois a mim estes senhores não me convencem. Em Portugal a Conservação da Natureza é o parente pobre das prioridades nacionais. Não é algo que surpreenda quando se sabe que são as sociedades mais evoluídas aquelas que dedicam a maior fatia de recursos para a preservação do Meio Ambiente.
Qualquer país do primeiro mundo há muito tempo que já teria declarado o Vale do Sabor não Paisagem Protegida, não Parque Natural, mas sim Parque Nacional! França 7 tem Parques Nacionais, Espanha 14, Portugal apenas 1! O Sabor é dos raríssimos locais do país que reúne as condições necessárias para receber a classificação máxima em termos de protecção do ambiente. Senão vejamos: a maior população de Águia-real (Aquila chrysaetos) em território exclusivamente português, uma das maiores densidades de Águia-de-Bonneli (Hieraaetus fasciatus) a nível mundial, populações estáveis de Lobo-ibérico (Canis lupus signatus), de Lontra (Lutra lutra) e de Gato-montês (Felis silvestris). E mais: Abrutre-do-egipto (Neophron percnopterus), Cegonha-negra (Ciconia nigra), Grifo (Gyps fulvus) ou Bufo-real (Bubo bubo) todos apresentam neste vale importantes efectivos populacionais. A lista continuaria indefinidamente: os mais extensos e bem conservados azinhais e sobreirais de Trás-os-Montes, um elevado número de endemismos, etc., etc.
Que vão então os portugueses fazer a um dos seus últimos paraísos? Destrui-lo irremediavelmente! Que diz o nosso Ministro do Ambiente, supostamente aquele que deveria colocar os valores naturais à frente dos interesses económicos? Avance-se com a obra... Pois na minha opinião Sr. Ministro não há protocolo de Quioto, não há plano de redução da emissão de gases estufa, que justifique a destruição de 60 quilómetros do mais preservado vale do país quando sabemos que na melhor das expectativas esta barragem só irá produzir 0,6% da energia consumida em Portugal. Democraticamente lhe digo Sr. Ministro que estou cansado da sua subserviência relativamente ao lobby energético. Democraticamente lhe digo Sr. Ministro que lhe falta a coragem necessária para enfrentar interesses instalados em prol do Ambiente que em primeira instância deveria defender...
Termino com uma mensagem para as populações locais: não se iludam com os mil postos de trabalho. Estes serão temporários e a construção da barragem por si só não se traduz em riqueza para os seus afectados. Várias situações de expectativas não cumpridas poderiam ser referidas: Alto Lindoso, Vilarinho das Furnas, Picote, apenas para citar algumas.
Deixo um exemplo do que poderia e deveria ser uma alternativa à albufeira: no Principado das Astúrias (Norte de Espanha) o concelho de Somiedo era uma remota região montanhosa vergada à desertificação... até há 15 anos atrás. Nessa altura a população apoiou a criação de um Parque Natural, foi promovida a protecção do Urso-pardo (Ursus arctos) convertido em emblema dessas serras, surgiram casas de turismo de habitação, restaurantes, lojas de produtos locais, passeios pedestres organizados. Hoje Somiedo está entre os concelhos mais ricos das Astúrias e os ursos aumentaram a sua população. Trata-se de uma riqueza sustentada que perdurará no tempo. Vendem algo que cada vez existe menos: conforto e bem-estar numa paisagem intocada e bravia. Resistiram à tentação das barragens, da energia eólica, das estações de esqui... e ganharam! Poderia o mesmo modelo desenvolvimento ter sido aplicado no Baixo Sabor? Claro que sim... E em vez dos mil postos de trabalho durante o pouco tempo que dura a construção da barragem teríamos umas largas centenas de empregos que perdurariam por décadas... além dum país de que nos poderíamos orgulhar!

27 agosto 2007

No meio dos Javalis

Fêmea de Javali (Sus scrofa) observa-me atentamente enquanto a sua prole alcança a segurança.

Conforme se pode facilmente constatar pela fotografia esta fêmea ainda se encontra a amamentar as suas crias (clique com o botão esquerdo do rato sobre a imagem para ampliá-la).

Uma das situações mais delicadas que pode suceder a qualquer amante da Natureza numa caminhada pelas nossas serras diz respeito ao encontro imediato com uma vara de Javalis (Sus scrofa).
Em locais com baixo índice de furtivismo e boa cobertura vegetal é relativamente frequente observarem-se nesta altura do ano grupos familiares constituídos por 1 ou 2 fêmeas acompanhadas pela respectiva prole. Na maioria das ocasiões os suídeos limitam-se a continuar o seu caminho, por vezes iniciando uma fuga a toda a velocidade. Pode contudo suceder que uma das fêmeas devido ao nosso posicionamento inadvertido nos considere uma ameaça real para as suas crias. Nessa altura ela não foge: antes encara-nos permitindo assim que os seus filhotes alcancem a segurança. Inclusivamente pode-se decidir por uma carga sobre o incauto naturalista!
Estes momentos de enfrentamento (que feliz ou infelizmente já tive a oportunidade de experimentar) são instantes inesquecíveis, carregados de tensão. Correspondem a raras circunstâncias que nos obrigam a recordar que a fauna ibérica, apesar de milénios de condicionamento e temor ao Homem, não pertence a ninguém e transporta ainda bem viva a centelha da liberdade...

20 agosto 2007

Final de tarde de Agosto


Estamos em Agosto e por esta altura do ano, principalmente no interior do país, o verde da Primavera deu já lugar ao tom amarelado característico das terras que experimentam um acusado défice hídrico. A chegada do estio está associada às primeiras incursões dos juvenis das diferentes espécies para o exterior das suas tocas ou ninhos. Enquanto os herbívoros anseiam por melhores pastagens, os carnívoros regozijam-se com a abundância de presas inexperientes.
Ao forte calor do meio do dia sucedem com frequência na alta montanha tempestades tão breves quanto violentas. Após minutos de intensa precipitação e em que a queda de relâmpagos constitui uma ameaça real para todos os seres vivos, a Natureza como que se arrepende dos seus excessos proporcionando imagens de grande beleza e serenidade como a que está reproduzida acima.
Dificilmente haverá melhor final de tarde do que o de um dia longo de Agosto...

16 agosto 2007

A perdiz-comum


Progenitora e cria de Perdiz-comum (Alectoria rufa) fotografadas este Verão num refúgio de caça do Norte de Portugal.

A Perdiz-comum (Alectoris rufa) é uma das principais espécies cinegéticas da fauna ibérica. Amplamente distribuída, trata-se de uma ave capaz de se adaptar a diferentes habitats e franjas altitudinais alcançando as maiores densidades na paisagem tipicamente mediterrânea do Sul de Portugal e rareando nas montanhas do Norte.
Alimenta-se sobretudo de sementes e folhas de plantas silvestres ou cultivadas (como gramíneas ou leguminosas); com frequência as crias no decurso da Primavera consomem também um número apreciável de insectos.
Estima-se que existirão mais de 2 milhões de exemplares em toda a Península Ibérica constituindo uma das principais presas-chave, fundamental para o regime alimentar de espécies ameaçadas de extinção como a Águia-real (Aquila chryseatus) ou Águia-perdigueira (Hieraaetus fasciatus). Esperemos que esta progenitora e a sua cria, fotografadas num dos raros refúgios de caça portugueses, possam sobreviver à perseguição venatória que decorrerá entre 5 de Outubro e 30 de Dezembro, de forma a poderem desempenhar o seu papel ecológico da forma mais natural possível...