18 outubro 2007

Plano de Ordenamento do Parque Natural de Montesinho

Natureza preservada e horizontes sem fim...
Qual o valor turístico desta realidade? Não tem preço! As gentes de Bragança preparam-se para condenarem
à desertificação definitiva as Serras de Montesinho e da Coroa ao pretenderem a instalação de gigantescos parques eólicos nesta paisagem belíssima.

Terminou ontem, dia 17 de Outubro, o período de discussão pública do Plano de Ordenamento do Parque Natural de Montesinho. Trata-de de um documento fundamental pois entre outras importantes determinações dele dependerá a eventual exploração ou não de energia eólica no âmbito da área protegida.
Transcrevo de seguida o meu contributo pessoal para a discussão pública sobre o Plano de Ordenamento.

"O Parque Natural de Montesinho constitui um dos mais belos locais de Portugal. O valor da sua paisagem é inquestionável e o potencial turístico que encerra representa porventura a principal mais valia do Distrito de Bragança.
A exploração sustentada de um turismo de qualidade que inclua a recuperação arquitectónica das aldeias e a preservação do meio natural é o maior garante da criação de postos de trabalho para a população local e a única forma de deter o declive populacional de que padece a região.
Deve ser portanto proibida a instalação de torres eólicas no âmbito do Parque Natural de Montesinho. A sua edificação acarretaria de forma definitiva a perda do valor da paisagem e condenaria as povoações a uma desertificação inevitável.
Os parques eólicos, por maiores que sejam, apenas criam postos de trabalho durante a sua instalação. Uma vez concluídos poucos empregos proporcionam para os habitantes das aldeias afectadas. Neste caso em particular a situação seria ainda mais gravosa pois condenar-se-iam ao encerramento os alojamentos rurais actualmente em exploração. Por acaso alguém acredita que continuariam a chegar turistas das cidades do litoral para visitar uma paisagem industrializada em pleno Montesinho? Não é precisamente um ideal de aldeias e Natureza preservadas que atraem visitantes a Bragança? Que sentido faria a instalação de torres eólicas nas mais belas praias algarvias ou próximo a locais tão emblemáticos como Almourol ou Alcobaça?
Os rendimentos que provenham da implantação de parques eólicos na mais extraordinária paisagem montanhosa do país terão a médio prazo um preço demasiado elevado: condenarão ao desaparecimento as aldeias das Serras de Montesinho e da Coroa."

15 outubro 2007

A reprodução dos Anfíbios


Lagoa de origem glaciar na alta montanha cantábrica onde em Setembro se podia observar a fase final de desenvolvimento
larvar de anuro.


Os anfíbios, cuja designação com origem no latim significa vida dupla, caracterizam-se por alternarem o seu ciclo de vida entre as fases aquática e terrestre. Assim enquanto que o estado larvar decorre na água já a vida adulta inicia-se com a metamorfose e desenvolve-se em ambiente terrestre.
A reprodução ocorre nas épocas de maior pluviosidade e de temperaturas mais amenas coincidindo habitualmente com a Primavera e o Outono. Nos anuros (a ordem de anfíbios mais numerosa onde se incluem as rãs, as relas e os sapos) a fecundidade é bastante elevada podendo atingir milhares de ovos por postura.
O desenvolvimento larvar tem uma duração variável podendo prolongar-se por vários meses. Os membros surgem numa fase avançada da maturação aparecendo em primeiro lugar os posteriores. Os membros anteriores emergem próximo da metamorfose, a grande transformação onde se verifica a reabsorção da cauda e que culmina com o aparecimento do juvenil já bastante semelhante ao adulto.
Da próxima vez que caminhar próximo a uma zona húmida ou lagoa de altitude não se esqueça de dar uma espreitadela à massa de água e tente descobrir quais os anfíbios que a frequentam. A descoberta das suas características e as particularidades dos seus ciclos de vida contam-se entre os aspectos mais interessantes da vida selvagem.

28 setembro 2007

Regresso do Quebra-ossos ao Parque Nacional dos Picos de Europa


Com a sua aparência extravagante levada ao extremo nos seus olhos de "fogo", o Quebra-ossos (Gyapetus barbatus) representa uma súmula de dois mundos: o dos águias e o dos abutres.

Percorrer os principais trilhos do Parque Nacional dos Picos da Europa no Norte da Península Ibérica é uma experiência inolvidável: representa conhecer da forma mais próxima um dos locais mais preservados da Europa. Por aqui abundam Lobos-ibéricos (Canis lupus signatus), Águias-reais (Aquila chrysaetos), Grifos (Gyps fulvus), Pica-paus negros (Dryocopus martius), entre outras jóias faunísticas do Velho Continente. Mas para os meios conservacionistas espanhóis, e concretamente asturianos, o bom não é suficiente: buscam a excelência e por isso planeiam o regresso de uma espécie mítica à Cordilheira Cantábrica...
Essa espécie é o Quebra-ossos (Gyapetus barbatus), uma ave gigantesca (a sua envergadura atinge os 3 metros), rara a nível mundial, conhecida pelos seus peculiares hábitos dietéticos: é a única ave osteófaga (que se alimenta predominantemente de ossos) do planeta!
Actualmente a área de distribuição do Quebra-ossos abrange a Cordilheira Pirenaica, os Alpes Orientais (onde foi reintroduzido a partir de exemplares espanhóis no início dos anos 90 do século passado), os Himalaias e alguns maciços montanhosos da África Oriental.
A população dos Pirinéus apresenta uma alta densidade de exemplares e portanto será expectável que dentro de algumas décadas colonize a vizinha Cordilheira Cantábrica, de onde se extinguiram por volta da década de 60. Mas a Fundación para la Conservación del Quebrantahuesos e o organismo Parques Nacionales não querem esperar tanto tempo. Para 2008 está programada a solta de exemplares a partir da população pirenaica em pleno Parque Nacional dos Picos da Europa. E assim talvez dentro de meia dúzia de anos teremos mais um símbolo da Conservação da Natureza mundial, uma das aves mais elegantes e com um ciclo de vida dos mais fascinantes a criar a pouco mais de 200 quilómetros do Norte de Portugal.

22 setembro 2007

Contra as torres eólicas no Parque Natural de Montesinho

Parque Natural de Montesinho:
terra de horizontes longínquos e intocados. Até quando?


O Parque Natural de Montesinho (PNM), uma das mais emblemáticas áreas protegidas portuguesas, encontra-se de momento ameaçado pela instalação de aerogeradores ao longo das suas principais serras.
A instalação do maior parque eólico europeu, proposto pela empresa irlandesa Airtricity com o apoio de autarcas locais, levaria à abertura de acessos de grande envergadura nos locais mais remotos e nobres da área protegida ameaçando os seus principais valores naturais. Afectaria directamente a população de Lobo-ibérico (Canis lupus signatus) mais estável de Portugal, perturbaria o território de caça de pelo menos 3 casais de Águia-real (Aquila chrysaetos) e mais importante ainda destruiria o valor derradeiro do PNM: a sua paisagem, a sua beleza agreste e indomável.
Felizmente a proposta inicial de plano de ordenamento desta área protegida proíbe a instalação de torres eólicas. Henrique Pereira, representante do Instituto da Conservação da Natureza e Biodiversidade (ICNB), veio declarar: "Vale a pena ponderar o valor económico de duas alternativas: temos um valor importante que é a ideia de Montesinho, jóia da coroa do país, um sitio como não há outro e essa ideia pode trazer fluxos económicos. Acreditamos que a colocação dos aerogeradores pode destruir esse valor".
Tais afirmações enchem-me de esperança e nesta, como noutras situações, espero que a posição do ICNB prevaleça sobre um modelo de desenvolvimento lesivo de valores naturais únicos. Os técnicos do ambiente que têm a seu cargo o plano de ordenamento do PNM estão de parabéns, assumindo com coragem a atitude que mais serve o futuro do país! Espero agora que este governo lhes faça justiça...

17 setembro 2007

A hora do adeus

Cuco-europeu (Cuculus canorus) fotografado num prado de altitude nas montanhas do Alto Sil, Cordilheira Cantábrica.

Para muitas espécies de aves da nossa fauna esta é hora do adeus, a altura de migração para paragens onde o Inverno é uma recordação vaga e o alimento abunda.
Caminhando num prado de altitude próximo ao Parque Natural de Somiedo, em plena Cordilheira Cantábrica, escutei ao longe o inconfundível canto do Cuco-europeu (Cuculus canorus). A paisagem desarborizada e a ajuda de binóculos permitiu-me localizar o exemplar que emitia a vocalização e assim pude observar o seu voo hesitante, de arbusto em arbusto, à procura de alimento por longos minutos. Apesar de se tratar de uma espécie relativamente comum a sua observação é difícil devido ao mimetismo da penugem. Mas naquele fim de tarde, numa das mais belas e preservadas paisagens naturais ibéricas, pude despedir-me da melhor maneira deste característico visitante estival. Boa viagem até à África subsariana e que em 2008 nos possamos ver novamente...