09 janeiro 2008

Seguimento da Alcateia de Bragança - 2007 (1)

Eis o extenso território da Alcateia de Bragança que reúne das melhores condições no nosso país para a sobrevivência do Lobo-ibérico (Canis lupus signatus).

Este grupo familiar de lobos partilha o seu território com outros mamíferos carnívoros como a Gineta (Genetta genetta).


Introdução

Conforme avançado em 3 artigos publicados no blogue Fauna Ibérica em Março de 2007 encontro-me a acompanhar desde há 2 anos um grupo familiar de Lobo-ibérico (Canis lupus signatus) do Distrito de Bragança, a que designo por Alcateia de Bragança. Esta alcateia é referida no Censo Nacional de Lobo 2002/03 embora lhe seja atribuída uma outra denominação (a qual não utilizo de forma a não expor em demasia uma espécie classificada no nosso país como em Perigo de Extinção).
Ao longo das próximas semanas publicarei neste site o resumo do trabalho de campo efectuado ao longo de 2007. Para além de terem sido realizados vários percursos pedestres e estações de escuta pelo território desta alcateia foram ainda utilizadas câmaras fotográficas e de vídeo automáticas para obtenção do máximo de informação possível sobre a fauna que habita este local. O esforço de campo e o investimento feito em material fotográfico foi realizado única e exclusivamente pelo autor. Os dados obtidos serão agora divulgados com o fim último de beneficiar uma espécie que constitui o símbolo máximo da Natureza portuguesa.

Descrição de Habitat
O meio em que habita a alcateia de Bragança constitui, pelas razões expostas de seguida, um dos mais adequados para o lobo-ibérico no nosso país:
  • Trata-se de um amplo território de perfil montanhoso (a altitude mínima é de 650 metros enquanto que a altitude máxima é de 1074 metros), com várias zonas de refúgio próximas a cursos de água.
  • Apresenta baixa densidade populacional (apenas 2 aldeias habitadas, ambas com menos de 100 habitantes e em regressão populacional).
  • Verifica-se um reduzido efectivo pecuário (o que reduz a possibilidade de ataques ao gado pelo lobo e consequentemente o grau de conflitualidade com o Homem).
  • Existem populações consideráveis de 3 presas-alvo: Javali (Sus scrofa), Veado (Cervus elaphus) e Corço (Capreolus capreolus).
  • A exploração cinegética do território em questão encontra-se em grande parte nas mãos do Estado Português através da figura de Zona de Caça Nacional.
  • A vigilância do território é frequente e efectuada por 3 entidades distintas: o Instituto da Conservação da Natureza e Biodiversidade (ICNB), a Direcção-Geral de Florestas (DGF) e o Serviço de Protecção da Natureza e Ambiente (SEPNA).
(continua no próximo post)

04 janeiro 2008

A resistência do Teixo

Envolto pelos ramos de um Azevinho (Ilex aquifolium) localizado a seu lado, são bem visíveis neste Teixo (Taxus baccata) as marcas deixadas pelo atingimento por um raio.

O Teixo (Taxus baccata) é uma árvore de grande longevidade, rara no nosso país, que se pode encontrar próxima a cursos de água nas Serras do Gerês, Estrela ou Montesinho. Embora extremamente venosa a sua utilidade para o Homem é conhecida desde a antiguidade. Enquanto que na Idade Média a sua madeira, simultaneamente resistente e elástica, era utilizada na construção de arcos para a guerra e caça na actualidade é partir do teixo que se extrai o taxol, um dos quimioterápicos de maior eficácia no tratamento dos cancros da mama ou do pulmão.
Caminhando numa floresta do Norte da Península Ibérica pude constatar que um exemplar centenário de teixo tinha recentemente sido atingido por um raio no decurso de uma tempestade. Apesar do incêndio que se seguiu este velho senhor do bosque ainda resistia. Será que no próximo Verão ainda produzirá os seus característicos arilos vermelhos e poderá resistir a novas tempestades?

31 dezembro 2007

Reintrodução de Águia Pesqueira na Andaluzia

Águia-pesqueira (Pandion haliaetus) fotografada no Parque Nacional de Banff (Montanhas Rochosas canadianas) em recente viagem do autor.

A Águia-pesqueira (Pandion haliaetus) é uma belíssima ave de rapina com ampla distribuição mundial (desde as Montanhas Rochosas canadianas até Cabo Verde) que em Portugal apresenta um estatuto de conservação francamente desfavorável: segundo o Livro Vermelho dos Vertebrados a população residente encontra-se Criticamente Em Perigo (sem evidência de reprodução desde finais do século passado) e a população invernante está classificada como Em Perigo de extinção (pois o número de indivíduos que nos visita durante os meses mais frios não deverá ultrapassar as duas dezenas).
No país vizinho a situação não é melhor: embora seja conhecida a reprodução de cerca de 16 casais nas ilhas Baleares e de 18 nas ilhas Canárias a verdade é que não há evidência de uma população residente na Espanha Continental.
Com vista a melhorar esta situação, e ao contrário da passividade demonstrada pelo organismo luso responsável pela conservação da Natureza, as autoridades espanholas estão a proceder desde 2004 à reintrodução deste super-predador dos meios húmidos. Até à data foram libertadas 40 crias de águia-pesqueira descendentes de progenitores alemães e escoceses na Paraje Natural de las Marismas del Odiel (só no Verão de 2007 foram libertados 9 exemplares). A expectativa é a de que, atendendo ao ciclo biológico da espécie, dentro de 3 anos possa reproduzir-se pela primeira vez nesta área protegida o que representaria a primeira cria de águia-pesqueira na Península Ibérica do século XXI.
Para além da boa notícia que este facto por si só representa, para nós portugueses há um motivo adicional de regozijo: é que a Paraje Natural de las Marismas del Odiel, espaço protegido de 7185 hectares classificado como Reserva da Biosfera pela UNESCO, Zona Húmida RAMSAR e Zona de Especial Protecção para as Aves (ZEPA), localiza-se próximo à cidade de Huelva a apenas cerca de 40 quilómetros da fronteira portuguesa. Poderá a águia-pesqueira voltar a criar no nosso país a médio prazo beneficiando do trabalho da Consejería de Medio Ambiente da Andaluzia?

28 dezembro 2007

Texugo: o mascarado das nossas florestas

Exemplar de Texugo (Meles meles) fotografado no Distrito de Bragança num pinhal de Pinheiro-bravo (Pinus pinaster).

É um dos mamíferos lusitanos mais difíceis de observar na Natureza embora esteja presente por todo o território nacional. Tímido e de hábitos nocturnos o Texugo (Meles meles) apresenta um comportamento peculiar. Constrói uma toca com várias aberturas (normalmente entre 3 a 10) que partilha com outros texugos constituindo uma colónia. Dentro da toca colonial sociabiliza (por exemplo uma única câmara-ninho pode ser partilhada por 3 animais) mas quando se desloca para o exterior fá-lo habitualmente em solitário. Se não ocorrerem perturbações significativas estas tocas são usadas e ampliadas por gerações sucessivas de texugos.
A sua pegada é inconfundível: marca os cinco dedos e respectivas garras apresentando um tamanho aproximado de 6 por 5 cm no adulto. De entre todos os mustelídeos é aquele que mais marca a pegada.
Apresenta um regime alimentar omnívoro e oportunista, habitualmente mais carnívoro na Primavera e Verão e mais vegetariano no Outono com consumo de frutos carnosos e cereais. Talvez devido a esta variedade alimentar alcança um máximo populacional em paisagens tipo mosaico em que a floresta alterna com prados e zonas de cultivo.
Durante o Inverno a sua actividade reduz-se substancialmente, entrando num estado de letargia com redução da temperatura corporal sem que contudo se possa falar em verdadeira hibernação. Por isso foi com verdadeira surpresa que visitando o território da Alcateia de Bragança (ver postagens de Março 2007) constatei que uma das câmaras fotográficas automáticas utilizadas no seu seguimento tinha fotografado na noite de 13 de Dezembro um nutrido exemplar de texugo. No trilho as suas pegadas cruzavam-se com as de um lobo adulto. Será que estes animais se cruzaram? E se assim foi o que terá acontecido?

07 dezembro 2007

A morada do Esquilo


Ninho de Esquilo (Sciurus vulgaris) em local privilegiado de uma área protegida do Norte de Portugal.

O Esquilo (Sciurus vulgaris) colonizou recentemente grande parte do Norte e Centro de Portugal. A sua distribuição corresponde principalmente a florestas caducifólias de Carvalho (Quercus robur e petraea), Faia (Fagus sylvatica) e Castanheiro (Castanea sativa) bem como pinhais de Pinheiro-bravo (Pinus pinaster) e Pinheiro-silvestre (Pinus silvestris), encontrando-se ausente dos montados de sobro (Quercus suber).
Embora este pequeno mamífero não hiberne verifica-se que a sua actividade reduz-se substancialmente nos períodos mais frios podendo passar vários dias no ninho quando as condições climatéricas são rigorosas.
Caminhando num dos raros pinhais de pinheiro-silvestre do nosso país pude observar uma destas "habitações", localizada como habitualmente a grande altura do solo (a mais de 8 metros) apresentando uma característica forma esférica de aproximadamente 30 cm de diâmetro. Conforme se constata na imagem a estrutura é constituída por pequenos ramos e paus que o animal recolhe no solo e possui uma abertura inferior à prova de intempérie.
Devido à actividade eminentemente diurna o nosso esquilo recolhe à sua morada principalmente para passar a noite. Apesar do aspecto acolhedor talvez lhe falte o aquecimento central para os meses que se avizinham...