11 maio 2008

Pica-pau-malhado-grande: o carpinteiro por excelência dos nossos bosques


Pica-pau-malhado-grande (Dendrocopus major) fotografado no mês de Abril em pleno Vale do Sabor.

Nos bosques de Portugal habita uma das aves mais fascinantes da Fauna Ibérica: o Pica-pau-malhado-grande (Dendrocopus major). Com mais de 20 cm de comprimento, padrão de coloração branco e negro e uma mancha vermelha presente na nuca do macho adulto trata-se de uma ave facilmente identificável. No nosso país apenas poderá ser confundido com o mais raro e consideravelmente mais pequeno Pica-pau-malhado-pequeno (Dendrocopus minor) que habita nos montados do Sudoeste.
O pica-pau-malhado-grande distribui-se por todo o país alcançando as suas maiores densidades nas montanhas do Norte e Centro associado a carvalhais e pinhais. Alimenta-se preferencialmente de insectos embora os ovos e as crias de outros pássaros possam ocasionalmente fazer parte da sua dieta. A sua capacidade de "picar" os troncos das árvores é fantástica: tamboreia frequentemente com séries curtas e incrivelmente rápidas acedendo dessa forma ao alimento ou construindo o seu ninho.
Devido à sua timidez torna-se difícil observá-lo na Natureza pelo que a única prova da sua existência resume-se muitas vezes à presença do ninho, aos troncos de árvores "picados" ou à audição de um tamborilar distante...

25 abril 2008

10º aniversário da maior catástrofe ambiental da Península Ibérica - a descarga de Aznalcóllar

Parque Nacional de Doñana, vítima há 10 anos da maior descarga de lodos tóxicos e águas ácidas da Península Ibérica.

Já se passaram dez anos mas parece que aconteceu ontem: a 25 de Abril de 1998 cedia a estrutura de retenção de resíduos mineiros da vila andaluza de Aznalcóllar. De seguida 6 milhões (!) de lodos tóxicos e águas ácidas vertiam ao rio Guadiamar que cruza o Sudoeste de Espanha em direcção a umas das mais importantes áreas húmidas do mundo: o Parque Nacional de Doñana. Para se ter uma ideia da verdadeira dimensão do desastre basta dizer que o naufrágio do petroleiro Prestige arrastou para as costas galegas 63 mil toneladas de fuel, ou seja, a tragédia de Aznalcóllar comportou uma quantidade 100 vezes superior de contaminantes! Foram afectados mais de 60 quilómetros de extensão do rio Guadiamar, os lodos tóxicos inundaram os terrenos entre 500 a 1000 metros de largura desde o rio e 4 mil hectares de terras agrícolas foram considerados inaptas para o cultivo e expropriadas.
A pronta actuação das autoridades minimizou o impacto da catástrofe. Foi erguida com urgência uma barreira às portas de Doñana e a descarga desviada para uma corrente fluvial paralela. Com efeito a zona hoje conhecida como Entremuros no limite Norte do Parque Nacional, um dos locais com maior densidade de Lince-ibérico (Lynx pardinus) do planeta, deve o seu nome aos 2 quilómetros de diques de terra construídos propositadamente para conter a descarga. Simultaneamente iniciou-se um lento mas cuidadoso processo de recolha dos lodos que envolveu o trabalho conjunto de mais de 800 pessoas ao longo de meio ano: junto ao rio e nos locais mais sensíveis procedeu-se à remoção manual dos contaminantes de forma a evitar o impacto ambiental associado ao recurso a maquinaria pesada.
Graças ao esforço dispendido em 98 o Guadiamar recuperou: o habitat ribeirinho é hoje um espaço protegido (Corredor Verde del Guadiamar) que estabelece a ligação entre Doñana e os montados da Sierra Morena andaluza; recentemente foram identificadas 10 espécies de mamíferos, 114 espécies de aves, 27 de peixes e 8 de anfíbios; mesmo a Lontra (Lutra lutra) todo um símbolo da Conservação da Natureza voltou ao local.
Mas em Aznalcóllar sob uma camada impermeável repousam ainda 20 hectómetros cúbicos de lodos tóxicos e não existe tecnologia para os tratar. Tudo o que se pode fazer é vigiar de perto para que a tragédia não se repita...

17 abril 2008

A vulnerabilidade do período de nidificação

Cegonha-branca (Ciconia ciconia) em plena incubação.

No final do Inverno e início da Primavera desenrola-se uma etapa fundamental no ciclo vital das aves residentes em Portugal: a nidificação. Nas escarpas xistosas do vale do Sabor (agora ameçadas pela construção irracional de mais uma barragem), nas penadias graníticas da Serra do Gerês, nos montados de sobro do Alentejo ou nos caniçais da Ria de Aveiro este é uma dos momentos mais espectaculares do ano. Enquanto que um dos progenitores (habitualmente a fêmea, de maiores dimensões) incuba, o parceiro defende o ninho e busca alimento para si e para a sua consorte.
O ninho assume-se como centro do território e uma vez identificada a sua localização é quase garantido que a espera paciente em local próximo, inclusive após o final do período de nidificação, será recompensada pela observação da espécie que o construiu.
A necessária fixação das aves ao ninho torna-as contudo bastante vulneráveis. Como se já não bastassem as condições naturais por vezes adversas (baixas temperaturas, precipitação abundante, aumento da probabilidade de predação por outras espécies) junta-se em certas ocasiões a perseguição e a perturbação humanas. Apelo por isso ao respeito de todos pelas aves da nossa fauna naquele que é o período do ano mais importante para assegurar a sua conservação.

14 abril 2008

Cerejeira, símbolo da Primavera

Cerejeira-brava (Prunus avium) fotografada neste iníco de Primavera no Parque Natural de Montesinho.

A Primavera é uma altura de abundância de recursos alimentares pelo que a maioria das espécies da Fauna Ibérica escolhe este período do ano para iniciar o período reprodutor. Dentro das "ofertas" da Natureza conta-se a Cerejeira (Prunus avium) que no nosso país surge principalmente no interior Norte, em lugares frescos e com solos profundos. Percorrendo um bosque caducifólio ou descendo ao longo das margens florestadas de um curso de água transmontano sobressai uma árvore recoberta de flores brancas que anunciam a cereja, autêntico símbolo da Primavera lusitana.

27 março 2008

O líder da escarpa

Exemplar macho de Cabra-montês (Capra pyrenaica) fotografado no seu ambiente natural.

O dia amanhece naquele vale remoto e as escarpas graniticas que ladeiam o estreito ribeiro são progressivamente banhadas pela luz do Sol. Subitamente, um exemplar do mais ágil mamífero ibérico, a Cabra-montês (Capra pyrenaica), destaca-se na paisagem quando salta de um pequeno ressalto para uma parede aparentemente vertical. De seguida dezenas de outras cabras seguem o líder do grupo, evoluindo por rotas impossíveis de escalada da montanha.
Este espectáculo da Natureza ocorre em Portugal desde 1999, altura em que, a partir do Parque Natural Baixa Limia-Serra do Xurés localizado na Galiza, 2 grupos de cabra-montês (subespécie victoriae) escaparam de um cercado de aclimatação e ocuparam o contíguo Parque Nacional da Peneda-Gerês já em terras lusas.
Desde então estes grupos fundadores prosperaram e actualmente ocupam alguns dos mais belos locais do único Parque Nacional português. Mais: a nível europeu as serras do Alto Minho são dos raros locais onde populações selvagens de cabras-montesas sofrem a predação selectiva exercida por populações estáveis de Lobo-ibérico (Canis lupus signatus).
Apesar de os últimos anos terem-se revelados auspiciosos, a cabra-montês atravessa um risco real de extinção no nosso país devido à baixa variabilidade genética relacionada com o número reduzido de indíviduos fundadores. O Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal (ICNB) atribui-lhe portanto o mais desfavorável estatuto de conservação: Criticamente em Perigo de Extinção. Oxalá os portugueses tenham aprendido com erros do passado e possam conservar esta autêntica jóia da Fauna Ibérica.