23 setembro 2008

"Canhões" transmontanos: o melhor da Natureza portuguesa


Vales repletos de vida do Oriente Transmontano.

O território transmontano é bastante rico em acidentes geográficos destacando-se pela sua importância os vales orientais que atravessam a região no sentido Norte-Sul. Com efeito os declives pronunciados e repletos de escarpas ("canhões") desenhados ao longo de milênios pelos rios Sabor, Maças e Angueira definem ainda hoje barreiras culturais e econômicas para o Homem e santuários e corredores de migração para a Natureza portuguesa.
Amparados pela protecção ambiental conferida pelo estatuto de Rede Natura 2000, Lugar de Importância Comunitária (LIC) e Zona de Especial Protecção para as Aves (ZEPA) estes vales contêm algumas das mais fascinantes espécies da nossa fauna e flora. Vejamos: bosques extensos e intactos de Carrasco (Quercus coccifera) e as principais comunidades nacionais de Buxo (Buxus sempervirens); uma das maiores densidades mundiais de aves rupícolas nomeadamente as fabulosas Águia-real (Aquila chrysaetos), Águia-Bonelli (Hieraatus fasciatus), Falcão-peregrino (Falco peregrinus) e Bufo-real (Bubo bubo) bem como as ameçadas Cegonha-negra (Ciconia nigra) e Abutre-do-Egipto (Neophron percnopterus); local de criação e corredor de dispersão para o Lobo-ibérico (Canis lupus signatus), Gato-montês (Felis silvestris) ou Lontra (Lutra lutra)...
Apesar da figura de protecção ambiental não condizer com a riqueza da área (para quando a declaração de um Parque Natural do Sabor ou Parque Natural dos Vales Transmontanos? Quantas oportunidades de desenvolvimento local e de combate à desertificação se perdem com a não-declaração destas áreas protegidas?) e das ameças recorrentes da construção de grandes infraestruturas (Barragem do Baixo Sabor; construção do IC5/IP2) a exuberância natural destes vales faz acreditar que nos próximos anos continuarão a representar um cartão de visita daquilo que o nosso país tem de melhor. Por isso de que está à espera? Traga os binóculos e as botas de caminhada e descubra os trilhos do Sabor ou do Maças. Terá direito quase exclusivo a uma das mais belas e selvagens paisagens da Velha Europa!

16 setembro 2008

Bufo-real: o grande predador da noite

Nesta fotografia é bem evidente a grande beleza do Bufo-real (Bubo-bubo).

O dia aproxima-se do fim nas fabulosas arribas do troço internacional do Vale do Douro. A Águia-real (Aquila chrysaetos), dominadora dos céus até esse momento, retira-se para um dos seus poisos favoritos, as Gralhas-de-bico-vermelho (Pyrrhocorax pyrrhocorax) escolhem a escarpa mais abrigada para passar a noite e os numerosos Pombos-das-rochas (Columba livia) reúnem-se em bandos nas árvores mais imponentes.
É o momento esperado pelo monarca da noite, uma ave de rapina com mais de metro e meio de envergadura, para iniciar o patrulhamento do território. Quando abre as asas e se lança em vôo ao longo de um dos mais belos canhões do mundo, não emite um único som: as penas especiais que lhe recobrem as asas tornam inaudível até a resistência do ar. Representa o auge da evolução em termos de capacidade de caça nocturna. É o Bufo-real (Bubo-bubo).
Nesta altura do ano, as crias nascidas em Março/Abril iniciam a dispersão a partir do território paterno. É uma altura difícil para estas jovens aves uma vez que ainda não dominam as técnicas de caça que permitem aos seus progenitores a capturas de presas tão distintas como coelhos (Oryctolagus cuniculus), micromamíferos ou raposas (Vulpes vulpes). Esperemos que a meteorologia clemente e a abundância de alimento permita que ao longo dos próximos anos se continue a escutar o característico pio nocturno (um bú-hu profundo) do principal predador alado nocturno da nossa fauna.

Nota: Pelos melhores motivos pessoais a edição deste blogue foi interrompida por cerca de 3 meses... mas agora está de volta.

25 junho 2008

Lírio-do-Gerês: a jóia do nosso único Parque Nacional


Esta é uma das plantas mais belas e raras da Península Ibérica: o Lírio-do-Gerês (Iris boissieri), autêntico símbolo da Conservação da Natureza, fotografado esta semana no auge da floração.

Estamos em Junho e nesta altura do ano a belíssima Serra do Gerês é testemunha de um acontecimento praticamente exclusivo a nível mundial: a floração do Lírio-do-Gerês (Iris boissieri).
O lírio-do-Gerês tem uma distribuição global restrita ao Noroeste da Península Ibérica ocorrendo em alguns pontos isolados da Galiza mas com o maior efectivo populacional no Parque Nacional da Peneda-Gerês. Trata-se de uma planta com preferência por solos ácidos, distribuída na faixa altitudinal entre os 600 e 1300 metros, constituindo povoamentos de baixa densidade em fendas rochosas .
Percorrer as escarpas fabulosas do nosso único Parque Nacional observando as regressadas Cabras-montesas (Capra pyrenaica) enquanto se descobre a floração do lírio-do-Gerês é uma das melhores experiências de Natureza em Portugal.

19 junho 2008

Galiza proíbe a instalação de parques eólicos na Rede Natura 2000

Locais como a belíssima Serra do Courel galega ficam agora protegidos da exploração eólica.

É uma decisão importantíssima para a Conservação da Natureza na Galiza, a Comunidade Autónoma espanhola fronteiriça com o Norte de Portugal: por decisão do governo autónomo galego está proibida a instalação de parques eólicos em áreas da Rede Natura 2000.
A Rede Natura 2000 diz respeito a um conjunto de zonas criadas por imposição da União Europeia com o objectivo de preservar habitats naturais, a fauna e a flora e travar a perda da biodiversidade no Velho Continente constituindo uma rede ecológica europeia.
Se esta decisão dos nossos vizinhos galegos fosse aplicada pelo Governo português tal significaria por exemplo a exclusão de parques eólicos de sítios tão emblemáticos como as serras do Marão, Alvão ou Nogueira. O mais grave é que no nosso país não só se está a autorizar a instalação de aerogeradores em plena Rede Natura 2000 como também existe uma forte pressão para a sua edificação nas mais emblemáticas áreas protegidas portuguesas como é o caso do Parque Natural de Montesinho... Que povo tão triste seremos se efectivamente for autorizada a destruição de um dos locais mais belos e selvagens da Europa (as serras de Montesinho, Coroa e Alta Lombada) com um potencial turístico singular em nome de um progresso (a colocação de torres eólicas) sem regras.
Aqui ao lado na Galiza definiram claramente essas regras: eólicas sim, excepto na Rede Natura 2000 e áreas protegidas. Quando teremos a coragem de fazer o mesmo em Portugal?

15 junho 2008

Águia-imperial ibérica em directo

Símbolo do programa de conservação da Águia-imperial ibérica (Aquila adalberti) promovido pela SEO/Birdlife e que inclui o Parque Nacional de Cabañeros (Espanha, Comunidade Autónoma de Castilla-La Mancha).

A Águia-imperial ibérica (Aquila adalberti) é um super-predador por excelência do ecossistema mediterrâneo. A sua distribuição mundial encontra-se restrita ao centro, sul e sudoeste da Península Ibérica, com 99% da população reprodutora em Espanha e 1% em Portugal. É uma das jóias da nossa fauna, seriamente ameaçada de extinção (Estatuto de Conservação em Portugal: Criticamente em Perigo de Extinção; Estatuto de Conservação em Espanha: Em Perigo de Extinção).
O seu habitat preferencial é constituído por uma paisagem tipo mosaico com bosques de azinho e sobro intercalados por extensões abertas de searas e pousios. A dieta baseia-se no actualmente escasso Coelho-bravo (Oryctolagus cuniculus). Constrói os seus ninhos no topo de velhas árvores podendo estes alcançar grandes dimensões. O período de reprodução inicia-se em Fevereiro com os vôos nupciais, em Março ocorre a postura, em Abril o nascimento dos juvenis (habitualmente 1 ou 2) que deixam o conforto do ninho no final de Junho.
No âmbito de um plano global de conservação da águia-imperial ibérica - o programa "Alzando el Vuelo" - a mais importante organização não-governamental espanhola dedicada ao estudo e preservação das aves, a SEO/Birdlife, com a colaboração de técnicos de uma das mais emblemáticas áreas protegidas do país vizinho, o Parque Nacional Cabañeros, colocou uma webcam alimentada a energia solar dirigida para um ninho. Carregando aqui com o botão direito do rato o leitor deste blogue pode observar em directo e sem qualquer perturbação para as aves um dos espectáculos mais genuínos da Fauna Ibérica: a reprodução em plena Natureza da águia-imperial ibérica...