29 setembro 2008

Águia-real: a dispersão dos juvenis

Juvenil de Águia-real (Aquila chrysaetos) fotografado em vôo planado ("soaring" - fotografia 1) e em atitude de caça (fotografia 2). Na fotografia 3 observa-se o ninho onde passou os primeiros meses de vida.

Estamos no final de Setembro e nesta altura do ano as crias de Águia-real (Aquila chrysaetos) nascidas no mês de Abril abandonam o território dos progenitores: é o início da fase de dispersão, a etapa mais perigosa na vida das jovens águias, que se pode prolongar por 3 a 4 anos.
A rainha das aves é o exemplo acabado de perfeição evolutiva: capacidade de "soaring" que lhe permite longos vôos em busca de presas sem dispêndio de energia, garras tão poderosas que podem imobilizar um Lobo (Canis lupus), capacidade de transporte aéreo de grandes presas (com mais do dobro do seu peso) e territorialidade acentuada sobre a sua área de nidificação e caça. A sua dieta inclui presas de dimensões tão distintas como o Coelho (Oryctolagus cuniculus) ou o Corço (Capreolus capreolus).
Os cerca de 60 casais que criam em Portugal repartem-se principalmente pelo vales e montanhas do Nordeste Transmontano e Tejo Internacional, mas os juvenis que agora abandonam o território paterno irão percorrer toda a Península Ibérica. Representam o futuro da espécie e estarão de regresso em 2011/2012, altura em que integrarão de pleno direito a população reprodutora da mais fantástica das aves...

23 setembro 2008

"Canhões" transmontanos: o melhor da Natureza portuguesa


Vales repletos de vida do Oriente Transmontano.

O território transmontano é bastante rico em acidentes geográficos destacando-se pela sua importância os vales orientais que atravessam a região no sentido Norte-Sul. Com efeito os declives pronunciados e repletos de escarpas ("canhões") desenhados ao longo de milênios pelos rios Sabor, Maças e Angueira definem ainda hoje barreiras culturais e econômicas para o Homem e santuários e corredores de migração para a Natureza portuguesa.
Amparados pela protecção ambiental conferida pelo estatuto de Rede Natura 2000, Lugar de Importância Comunitária (LIC) e Zona de Especial Protecção para as Aves (ZEPA) estes vales contêm algumas das mais fascinantes espécies da nossa fauna e flora. Vejamos: bosques extensos e intactos de Carrasco (Quercus coccifera) e as principais comunidades nacionais de Buxo (Buxus sempervirens); uma das maiores densidades mundiais de aves rupícolas nomeadamente as fabulosas Águia-real (Aquila chrysaetos), Águia-Bonelli (Hieraatus fasciatus), Falcão-peregrino (Falco peregrinus) e Bufo-real (Bubo bubo) bem como as ameçadas Cegonha-negra (Ciconia nigra) e Abutre-do-Egipto (Neophron percnopterus); local de criação e corredor de dispersão para o Lobo-ibérico (Canis lupus signatus), Gato-montês (Felis silvestris) ou Lontra (Lutra lutra)...
Apesar da figura de protecção ambiental não condizer com a riqueza da área (para quando a declaração de um Parque Natural do Sabor ou Parque Natural dos Vales Transmontanos? Quantas oportunidades de desenvolvimento local e de combate à desertificação se perdem com a não-declaração destas áreas protegidas?) e das ameças recorrentes da construção de grandes infraestruturas (Barragem do Baixo Sabor; construção do IC5/IP2) a exuberância natural destes vales faz acreditar que nos próximos anos continuarão a representar um cartão de visita daquilo que o nosso país tem de melhor. Por isso de que está à espera? Traga os binóculos e as botas de caminhada e descubra os trilhos do Sabor ou do Maças. Terá direito quase exclusivo a uma das mais belas e selvagens paisagens da Velha Europa!

16 setembro 2008

Bufo-real: o grande predador da noite

Nesta fotografia é bem evidente a grande beleza do Bufo-real (Bubo-bubo).

O dia aproxima-se do fim nas fabulosas arribas do troço internacional do Vale do Douro. A Águia-real (Aquila chrysaetos), dominadora dos céus até esse momento, retira-se para um dos seus poisos favoritos, as Gralhas-de-bico-vermelho (Pyrrhocorax pyrrhocorax) escolhem a escarpa mais abrigada para passar a noite e os numerosos Pombos-das-rochas (Columba livia) reúnem-se em bandos nas árvores mais imponentes.
É o momento esperado pelo monarca da noite, uma ave de rapina com mais de metro e meio de envergadura, para iniciar o patrulhamento do território. Quando abre as asas e se lança em vôo ao longo de um dos mais belos canhões do mundo, não emite um único som: as penas especiais que lhe recobrem as asas tornam inaudível até a resistência do ar. Representa o auge da evolução em termos de capacidade de caça nocturna. É o Bufo-real (Bubo-bubo).
Nesta altura do ano, as crias nascidas em Março/Abril iniciam a dispersão a partir do território paterno. É uma altura difícil para estas jovens aves uma vez que ainda não dominam as técnicas de caça que permitem aos seus progenitores a capturas de presas tão distintas como coelhos (Oryctolagus cuniculus), micromamíferos ou raposas (Vulpes vulpes). Esperemos que a meteorologia clemente e a abundância de alimento permita que ao longo dos próximos anos se continue a escutar o característico pio nocturno (um bú-hu profundo) do principal predador alado nocturno da nossa fauna.

Nota: Pelos melhores motivos pessoais a edição deste blogue foi interrompida por cerca de 3 meses... mas agora está de volta.

25 junho 2008

Lírio-do-Gerês: a jóia do nosso único Parque Nacional


Esta é uma das plantas mais belas e raras da Península Ibérica: o Lírio-do-Gerês (Iris boissieri), autêntico símbolo da Conservação da Natureza, fotografado esta semana no auge da floração.

Estamos em Junho e nesta altura do ano a belíssima Serra do Gerês é testemunha de um acontecimento praticamente exclusivo a nível mundial: a floração do Lírio-do-Gerês (Iris boissieri).
O lírio-do-Gerês tem uma distribuição global restrita ao Noroeste da Península Ibérica ocorrendo em alguns pontos isolados da Galiza mas com o maior efectivo populacional no Parque Nacional da Peneda-Gerês. Trata-se de uma planta com preferência por solos ácidos, distribuída na faixa altitudinal entre os 600 e 1300 metros, constituindo povoamentos de baixa densidade em fendas rochosas .
Percorrer as escarpas fabulosas do nosso único Parque Nacional observando as regressadas Cabras-montesas (Capra pyrenaica) enquanto se descobre a floração do lírio-do-Gerês é uma das melhores experiências de Natureza em Portugal.

19 junho 2008

Galiza proíbe a instalação de parques eólicos na Rede Natura 2000

Locais como a belíssima Serra do Courel galega ficam agora protegidos da exploração eólica.

É uma decisão importantíssima para a Conservação da Natureza na Galiza, a Comunidade Autónoma espanhola fronteiriça com o Norte de Portugal: por decisão do governo autónomo galego está proibida a instalação de parques eólicos em áreas da Rede Natura 2000.
A Rede Natura 2000 diz respeito a um conjunto de zonas criadas por imposição da União Europeia com o objectivo de preservar habitats naturais, a fauna e a flora e travar a perda da biodiversidade no Velho Continente constituindo uma rede ecológica europeia.
Se esta decisão dos nossos vizinhos galegos fosse aplicada pelo Governo português tal significaria por exemplo a exclusão de parques eólicos de sítios tão emblemáticos como as serras do Marão, Alvão ou Nogueira. O mais grave é que no nosso país não só se está a autorizar a instalação de aerogeradores em plena Rede Natura 2000 como também existe uma forte pressão para a sua edificação nas mais emblemáticas áreas protegidas portuguesas como é o caso do Parque Natural de Montesinho... Que povo tão triste seremos se efectivamente for autorizada a destruição de um dos locais mais belos e selvagens da Europa (as serras de Montesinho, Coroa e Alta Lombada) com um potencial turístico singular em nome de um progresso (a colocação de torres eólicas) sem regras.
Aqui ao lado na Galiza definiram claramente essas regras: eólicas sim, excepto na Rede Natura 2000 e áreas protegidas. Quando teremos a coragem de fazer o mesmo em Portugal?