23 outubro 2008

Tartaranhão-caçador: símbolo do equilíbrio entre o Homem e a Natureza

Fêmea de Tartaranhão-caçador (Circus pygargus) em vôo e em local habitual de pouso, próximo ao sítio de criação de 2008 nos arredores do Parque Natural do Douro Internacional.

O Tartaranhão-caçador (Circus pygargus) é uma ave de rapina vinculada às extensões cerealíferas. Com efeito trata-se de um visitante estival que tem predilecção por grandes áreas de vegetação rasteira, como os campos de cereais alentejanos ou os planaltos recobertos de matos das montanhas do Norte e Centro de Portugal.
Devido ao abandono das práticas agrícolas extensivas e à diminuição da cultura de sequeiro, com a consequente proliferação de matos densos e floresta, o tartaranhão-caçador tem sofrido com a redução de habitat disponível. O seu estatuto de conservação é desfavorável: em Portugal considera-se Em Perigo de Extinção (in Livro Vermelhos dos Vertebrados de Portugal, ICN) e em Espanha encontra-se classificado como Vulnerável (in Guia de las Aves de España, SEO/Birdlife).
Calcula-se que em toda a Península Ibérica existam cerca de 4 mil casais reprodutores com uma tendência populacional regressiva, pelo menos no nosso país.
Ave de grande beleza, caçador de aves, pequenos mamíferos, répteis e grandes insectos, verdadeiro símbolo de qualidade ambiental da agricultura respeitosa para com a Natureza, o tartaranhão-caçador é acima de tudo um barómetro do impacto do Homem no Meio Ambiente: se as suas populações prosperarem, se os nossos filhos tiverem o privilégio de o observar em estado selvagem, tal significa que a nossa geração aprendeu a respeitar os antigos legados de uma agricultura ao sabor dos ciclos naturais, menos dependente de químicos, mais... "biológica".
Esperemos que o futuro assim o demonstre!

17 outubro 2008

Abelharuco-europeu e o primado da cor na Natureza


Retrato de uma Natureza sempre impressionante nas suas formas e cores: o Abelharuco-europeu (Merops apiaster).

O Abelharuco-europeu (Merops apiaster) é a ave mais colorida e um dos maiores expoentes de diversidade da Fauna Ibérica. Vindo da África do Sul atravessa o deserto do Sara durante o mês de Abril para aproveitar o banquete de insectos (principalmente abelhas e vespas) da área mediterrânea. Se a disponibilidade de alimento for adequada elege então barrancos arenosos para escavar o seu ninho onde deposita de 2 a 6 ovos. Apresenta hábitos gregários pelo que é comum observarem-se grupos com várias dezenas de indivíduos.
Agora que chegamos ao final do mês de Outubro os últimos abelharucos abandonam o nosso país contribuindo para o cinzentismo destes dias. Felizmente o seu estatuto de conservação é favorável (calcula-se em mais de 100 000 os casais reprodutores de Portugal e Espanha) pelo que é reconfortante saber que na próxima Primavera receberemos de novo a visita destes arco-íris voadores.

08 outubro 2008

Lince-ibérico: sinais de um fantasma



Rastro de pegadas de Lince-ibérico (Lynx pardina) e habitat "linceiro" no Sul da Península Ibérica.

O Lince-ibérico (Lynx pardina) é um dos mais belos mamíferos europeus com um porte, graciosidade e agilidade apenas possível de encontrar na família dos felinos. Infelizmente é também um dos animais mais ameaçados de extinção a nível mundial com uma população estimada de cerca de 200 indivíduos em estado selvagem. Os seus principais redutos encontram-se nos Parques Nacional e Natural de Doñana assim como na Sierra Morena Oriental, nomeadamente no Parque Natural Sierra de Andújar.
É um especialista do bosque mediterrâneo tranquilo, com estrutura tipo mosaico que combine densa cobertura vegetal com prados de alimentação para a sua presa principal, o Coelho-bravo (Oryctolagus cuniculus). Os adultos são bastantes territoriais não permitindo a entrada de indivíduos do mesmo sexo numa área de 5 a 20 quilómetros quadrados.
Apresenta actividade crepuscular e nocturna o que aliado à escassez de efectivos torna bastante difícil a sua observação na Natureza contudo deixam com frequência as suas pegadas e dejectos em corta-fogos e cruzamento de caminhos. Caminhando numa zona "linceira" observei e fotografei as marcas da sua presença. São sinais de um fantasma da nossa fauna, cada vez mais raro. Os próximos anos serão fundamentais para a conservação do "felino mais ameaçado do mundo": será a nossa a última geração a observá-lo na Natureza?

29 setembro 2008

Águia-real: a dispersão dos juvenis

Juvenil de Águia-real (Aquila chrysaetos) fotografado em vôo planado ("soaring" - fotografia 1) e em atitude de caça (fotografia 2). Na fotografia 3 observa-se o ninho onde passou os primeiros meses de vida.

Estamos no final de Setembro e nesta altura do ano as crias de Águia-real (Aquila chrysaetos) nascidas no mês de Abril abandonam o território dos progenitores: é o início da fase de dispersão, a etapa mais perigosa na vida das jovens águias, que se pode prolongar por 3 a 4 anos.
A rainha das aves é o exemplo acabado de perfeição evolutiva: capacidade de "soaring" que lhe permite longos vôos em busca de presas sem dispêndio de energia, garras tão poderosas que podem imobilizar um Lobo (Canis lupus), capacidade de transporte aéreo de grandes presas (com mais do dobro do seu peso) e territorialidade acentuada sobre a sua área de nidificação e caça. A sua dieta inclui presas de dimensões tão distintas como o Coelho (Oryctolagus cuniculus) ou o Corço (Capreolus capreolus).
Os cerca de 60 casais que criam em Portugal repartem-se principalmente pelo vales e montanhas do Nordeste Transmontano e Tejo Internacional, mas os juvenis que agora abandonam o território paterno irão percorrer toda a Península Ibérica. Representam o futuro da espécie e estarão de regresso em 2011/2012, altura em que integrarão de pleno direito a população reprodutora da mais fantástica das aves...

23 setembro 2008

"Canhões" transmontanos: o melhor da Natureza portuguesa


Vales repletos de vida do Oriente Transmontano.

O território transmontano é bastante rico em acidentes geográficos destacando-se pela sua importância os vales orientais que atravessam a região no sentido Norte-Sul. Com efeito os declives pronunciados e repletos de escarpas ("canhões") desenhados ao longo de milênios pelos rios Sabor, Maças e Angueira definem ainda hoje barreiras culturais e econômicas para o Homem e santuários e corredores de migração para a Natureza portuguesa.
Amparados pela protecção ambiental conferida pelo estatuto de Rede Natura 2000, Lugar de Importância Comunitária (LIC) e Zona de Especial Protecção para as Aves (ZEPA) estes vales contêm algumas das mais fascinantes espécies da nossa fauna e flora. Vejamos: bosques extensos e intactos de Carrasco (Quercus coccifera) e as principais comunidades nacionais de Buxo (Buxus sempervirens); uma das maiores densidades mundiais de aves rupícolas nomeadamente as fabulosas Águia-real (Aquila chrysaetos), Águia-Bonelli (Hieraatus fasciatus), Falcão-peregrino (Falco peregrinus) e Bufo-real (Bubo bubo) bem como as ameçadas Cegonha-negra (Ciconia nigra) e Abutre-do-Egipto (Neophron percnopterus); local de criação e corredor de dispersão para o Lobo-ibérico (Canis lupus signatus), Gato-montês (Felis silvestris) ou Lontra (Lutra lutra)...
Apesar da figura de protecção ambiental não condizer com a riqueza da área (para quando a declaração de um Parque Natural do Sabor ou Parque Natural dos Vales Transmontanos? Quantas oportunidades de desenvolvimento local e de combate à desertificação se perdem com a não-declaração destas áreas protegidas?) e das ameças recorrentes da construção de grandes infraestruturas (Barragem do Baixo Sabor; construção do IC5/IP2) a exuberância natural destes vales faz acreditar que nos próximos anos continuarão a representar um cartão de visita daquilo que o nosso país tem de melhor. Por isso de que está à espera? Traga os binóculos e as botas de caminhada e descubra os trilhos do Sabor ou do Maças. Terá direito quase exclusivo a uma das mais belas e selvagens paisagens da Velha Europa!