07 dezembro 2008

Texugo: o mascarado da nossa fauna



Fotografias de Texugos (Meles meles) selvagens obtidas com recurso a máquinas fotográficas de disparo automático no Norte de Portugal.

Amanhece nas montanhas asturianas e a claridade do dia permite contemplar um aglomerado de picos cantábricos nevados e um vale recoberto por um extenso faial. Encontramo-nos de madrugada neste local remoto, absolutamente enregelados por um vento cortante soprando de Norte, com um único objectivo: observar em estado selvagem um dos grandes predadores da Fauna Ibérica: o Urso-pardo cantábrico (Ursus arctos). Para tal temos o privilégio de acompanhar um dos maiores conhecedores da ecologia desta espécie, Alfonso Hartasánchez do FAPAS (Fondo Asturiano para la Protección de los Animales Selvages). Contudo naquela manhã o vertebrado de hábitos elusivos que nos brindou com a sua presença não foi o desejado plantígrado mas antes o Texugo (Meles meles). Alheio à nossa presença este mamífero de porte desajeitado irrompeu do bosque e avançou decididamente por um prado de altitude. A certa altura pressentiu a nossa presença, encarou-nos e rapidamente desapareceu por entre o arvoredo...
O Texugo é um carnívoro de médio porte (pesa até 12 kg) que se distribui por todo o país (estatuto de conservação: pouco preocupante) preferindo áreas de paisagem tipo mosaico com cobertura florestal e arbustiva intercalada com prados de cultivo. Apresenta um regime alimentar omnívoro, fazendo parte integrante da sua dieta os frutos, insectos ou pequenos mamíferos. Caracteriza-se por viver em grupos sociais com um número que oscila entre 5 e 25 elementos de ambos os sexos que defendem um mesmo território. Escava diversas galerias onde socializa e se refugia durante o dia (o padrão de actividade é essencialmente nocturno). 
Quanto ao comportamento reprodutor destacam-se 2 períodos de acasalamento no final do Inverno e durante o Verão. A gestação apresenta uma duração variável, podendo prolongar-se por vários meses devido ao fenómeno conhecido como implantação retardada. As crias nascem habitualmente em pleno Inverno e mantêm-se na texugueira por cerca de 2 meses, assomando ao exterior já em plena Primavera.
A presença do texugo, inconfundível mascarado da nossa fauna, é um excelente indicador de equilíbrio conseguido pelo Homem na exploração racional da Natureza. A manutenção das actividades agrícolas tradicionais constitui assim a melhor garantia da sua sobrevivência futura.

30 novembro 2008

Disponibilização gratuita da Biblioteca Digital do ICNB - uma medida acertada


O Instituto para a Conservação da Natureza e Biodiversidade disponibilizou recentemente em formato pdf alguns dos trabalhos promovidos ou apoiados pela entidade e seus predecessores ao longo dos últimos 30 anos.
De momento encontram-se acessíveis trabalhos relacionados com as áreas protegidas do Norte do país mas prevê-se para breve a disponibilização de mais de um milhar de títulos dedicados às restantes áreas protegidas e aos valores naturais nacionais. 
Esta é sem dúvida uma excelente notícia para quem se interessa pela Natureza Portuguesa. Clicando aqui abre-se a porta para muitas horas de leitura sobre os nossos bosques, aves e mamíferos desde a vegetação do vale do Sabor no Parque Natural de Montesinho até aos prejuízos causados pelo Lobo (Canis lupus signatus) no Parque Natural do Alvão... Boa leitura!

27 novembro 2008

Ursa "Villarina": símbolo da recuperação do Urso-pardo Cantábrico



Villarina, a cria de Urso-pardo cantábrico (Ursus arctos) mais mediática de sempre [Fotografias FAPAS e Fundación Oso Pardo].

Cordilheira Cantábrica, Junho de 2008: uma fêmea de Urso-pardo cantábrico (Ursus arctos) deambula por um dos maiores bosques caducifólios ibéricos em busca de alimento juntamente com as suas 3 crias de 5 meses de idade. Enquanto sobem a encosta uma das crias cai e sofre um traumatismo craniano. Desorientada a pequena ursa desce cambaleante até ao fundo do vale por onde passa uma estrada pouco transitada.
Mais tarde um casal de turistas que se tinha deslocado à Cordilheira Cantábrica para conhecer o "País dos Ursos" mal pode acreditar no que vê: à frente do seu carro encontra-se uma frágil cria de urso. Prudentes fingem ignorá-la primeiro, depois tentam reconduzi-la de volta ao bosque mas o "esbardo" (termo asturiano que designa cria de urso) regressa teimosamente à estrada. Finalmente e porque se apercebem de que o animal não se desloca normalmente e não há sinais da progenitora, recolhem-na e entregam-na na delegação mais próxima da Fundación Oso Pardo.
Durante o Verão as Astúrias e toda a Espanha acompanham a recuperação da pequena ursa, entretanto baptizada de Villarina de acordo com o nome da aldeia mais próxima do local onde foi encontrada. Inicialmente tratada em Oviedo, o agravamento do seu estado de saúde obriga ao transporte de urgência para um centro veterinário intensivo na vizinha Cantábria. Felizmente em Agosto Villarina já se encontra livre de perigo e regressa ao Principado das Astúrias ingressando num Centro de Recuperação de Fauna (foto 1).
Começa então a discussão: que fazer à pequena ursa? Depois de tantos meses em cativeiro e apesar de todo o cuidado em reduzir a exposição ao Homem será que consegue sobreviver de novo na Natureza? Não será mais prudente mantê-la em cativeiro servindo o propósito de educação ambiental? Depois de tanta exposição mediática será legítimo utilizá-la como atractivo turístico das regiões por onde deambula o urso?
No terreno o Fondo Asturiano para la Proteccion de los Animales Salvages (FAPAS) através da utilização de câmaras fotográficas automáticas estrategicamente colocadas localiza a progenitora e os dois irmãos de Villarina (foto 2).
O que se passa de seguida demonstra na perfeição a referência que o Principado das Astúrias constitui em termos de Conservação da Natureza, comparando com a restante Espanha e Portugal: em Setembro o departamento de Meio Ambiente do Principado reúne com as principais associações ligadas à Conservação da Natureza, com biólogos especialistas na gestão do urso-pardo e com os directores das áreas protegidas asturianas para decidir o futuro da cria de urso. A decisão final, apesar dos riscos envolvidos, passa pela a reintrodução do esbardo no bosque por onde nesse momento deambula o seu grupo familiar.
Novembro 2008. A neve começa a cair nos belíssimos cumes cantábricos. Há já duas semanas que Villarina voltou às montanhas que a viram nascer (foto 3). De momento o reencontro com a mãe e irmãos ainda não ocorreu. Ao nascer e pôr-do-sol a cria, agora com 10 meses de idade, deambula por um extenso faial repleto de alimento. Com a descida de temperatura recolhe a uma pequena gruta onde se prepara para hibernar. A mais de um quilómetro de distância todos os seus movimentos são seguidos por uma equipe permanente da Fundación Oso Pardo munida de poderosos telescópios.
Não sabemos se Villarina sobreviverá ao seu primeiro Inverno. Mas todos os cuidados, tempo e dinheiro disponibilizados para salvar esta única cria de urso-pardo permitem compreender porque é que nas Astúrias a população do plantígrado em estado selvagem duplicou nos últimos dez anos: é porque aqui a conservação e respeito pela Natureza não constituem apenas uma obrigação legal mas antes um desígnio de toda a sociedade...

09 novembro 2008

Explosão de cores antes da monocromia invernal

Harmonia das cores outonais num país que longe do caos urbanístico do litoral ainda tem muito de belo.   

O tempo frio chegou. Nas montanhas do Norte e Centro de Portugal a neve faz a sua aparição fugaz dificultando a sobrevivência das espécies residentes. 
Os castanheiros perdem as suas folhas e brindam-nos com o emblema da estação: as castanhas. Os Grous (Grus grus) regressam ao Alentenjo após a criação nas regiões mais setentrionais do continente europeu de forma a aproveitar os recursos alimentares de um ecossistema que nos define enquanto povo: o montado mediterrâneo. Nas serranias do Gerês as fêmeas e crias de Cabra-montês (Capra pyrenaica) descem dos alcantilados graníticos para o resguardo dos vales. Nos planaltos de Montesinho os machos de Veado (Cervus elaphus), após o intenso desgaste da brama em que através de combates ganham o direito à reprodução, refugiam-se discretamente nos extensos pinhais que por aqui existem.
A vida selvagem torna-se mais dificil de observar, os dias curtos, cinzentos e frios dificultam as caminhadas pelo campo. Apenas a diversidade de cores do bosque caducifólio torna menos penosa a letargia invernal que se avizinha. 

30 outubro 2008

Tritão-marmorado: exemplo de beleza no mundo dos anfíbios

Exemplar de Tritão-marmorado (Triturus marmoratus).

Ao final da tarde o anfíbio avançava desajeitado pelo trilho tendo sido salvo in extremis de uma pisadela provavelmente letal pelo olhar atento de um amigo. Perante nós encontrava-se um anfíbio peculiar, com cerca de 5 cm de comprimento, dorso de coloração esverdeada atravessado por uma vistosa linha alaranjada e manchas escuras de tamanho variável: o Tritão-marmorado (Triturus marmoratus).
Esta espécie apresenta uma ampla distribuição em Portugal. Com efeito habita uma grande variedade de biótopos desde as zonas agrícolas costeiras às altas montanhas do Norte e Centro de Portugal, desde que esteja satisfeita uma condição essencial: a proximidade da água, sob a forma de charcos, tanques, lagoas ou albufeiras.
Tal como todos os anfíbios o tritão-marmorado depende do meio aquático para se reproduzir. Os machos são os primeiros a chegar ao local de acasalamento, habitualmente massas de água paradas ou de baixa corrente com vegetação aquática associada. A partir do mês de Outubro, com a chegada das fêmeas, inicia-se a reprodução que culmina com a postura de entre 150 a 400 ovos.
No Verão seguinte completa-se a fase larvar e observam-se os primeiros juvenis que, se conseguirem sobreviver à predação pela Cobra-de-água (Natrix natrix) ou Cegonha-branca (Ciconia ciconia), poderão viver em estado selvagem por mais de 10 anos.