22 dezembro 2008

Votos de Festas Felizes a todos os leitores



Imagens de paisagens naturais portuguesas fabulosas: o curso superior do Vale do Homem e a Mata Nacional de Albergaria no Parque Nacional da Peneda-Gerês. 

A quadra natalícia é tradicionalmente uma altura de paz e compreensão entre os Homens mas talvez devesse também constituir um momento de reflexão da nossa relação para com a Natureza. O meio que nos rodeia é parte integrante do Homem pois ao longo de milénios condicionou a evolução da nossa espécie. Agora que adquirimos uma extraordinária capacidade de transformação da Natureza, como nenhuma outra espécie deteve na já longa história do nosso planeta, devemos justificar a nossa auto-intitulada inteligência preservando tudo aquilo que fez de nós o que hoje somos.
Aos leitores habituais do Fauna Ibérica peço desculpa pelo tom talvez demasiado filosófico. Desejo a todos festas felizes, um 2009 cheio de saúde e sonhos concretizados, com votos de que no próximo ano a Natureza portuguesa receba o respeito que merece. 

19 dezembro 2008

Águia-real nas montanhas do Gerês/Xurés: precisa-se de uma estratégia concertada entre Portugal e Espanha



Fotografias retratando o o trabalho de reforço populacional de Águia-real (Aquila chrysaetos) no Parque Natural Baixa Limia - Serra do Xurés (fotografias: GREFA, Grupo de Rehabilitación de la Fauna Autoctóna y su hábitat).

Mapa de localizações GPS de exemplar de Águia-real (Aquila chrysaetos) libertada em 2008 no Parque Natural Baixa Limia - Serra do Xurés obtido graças a um emissor transportado pela ave. Há 3 semanas este animal foi encontrado ferido na província de Salamanca, com a asa esquerda fracturada após ter sido vítima de disparos  (fotografias: GREFA, Grupo de Rehabilitación de la Fauna Autoctóna y su hábitat). 

No Parque Nacional da Peneda-Gerês e no vizinho Parque Natural de Baixa Limia - Serra do Xurés galego a população de um dos principais predadores europeus, a Águia-real (Aquila chrysaetos), encontra-se à beira da extinção. Desde o início do século XX que nesta área protegida transfronteiriça com cerca de cem mil hectares de extensão, representativa das montanhas do Noroeste ibérico, deambula de maneira permanente apenas um único exemplar. Com vista a contrariar a situação de extinção biológica (sem capacidade de reprodução em condições naturais) os nossos vizinhos galegos iniciaram em 2001 um programa de reforço populacional/reintrodução de águia-real. Com o auxílio do GREFA (Grupo de Rehabilitación de la Fauna Autoctóna y su hábitat) procederam à libertação no espaço natural galego, a menos de 5 km da fronteira portuguesa, de 7 crias de águia-real.
Cronologicamente a solta exemplares decorreu da seguinte forma:
  • 2001: 1 cria de águia-real nascida em cativeiro no GREFA é colocada aos 60 dias de vida numa plataforma artificial em pleno Parque Natural Baixa Limia - Serra do Xurés, iniciando os primeiros voos cerca de 20 dias mais tarde;
  • 2002: 1 cria de águia-real nascida em cativeiro no GREFA é libertada no mesmo local;
  • 2003: 1 cria de águia-real também nascida em cativeiro é solta nas mesmas condições;
  • 2006: 2 crias de águia-real disponibilizadas pelas Juntas de Castilla La Mancha e Extremadura são libertadas na mesma plataforma-ninho;
  • 2007: 1 cria de águia-real, desta feita nascida em cativeiro no GREFA (baptizada "Lobios") é solta no Sudoeste da Galiza
  • 2008: 1 cria de águia-real nascida em cativeiro no GREFA (baptizada de "Eufemia") é libertada numa zona nobre do Parque Natural de Baixa Limia - Serra do Xurés.
Infelizmente e até à data os resultados não têm sido animadores. Com efeito pelo menos um dos animais libertados foi encontrado morto na fase de dispersão juvenil. Já este ano a aclimatação e os primeiros voos de Eufemia tinham decorrido conforme o esperado, com incursões nos vales graníticos dos nossos Parque Nacional da Peneda-Gerês e Parque Natural do Alvão, e início do período de dispersão que a levou a atravessar todo o Norte de Portugal até se estabelecr numa zona de grande densidade de Coelho-bravo (Oryctolagus cuniculus) a 20 km a Sul de Salamanca. No dia 20 de Novembro e porque o animal permanecia imóvel há um período considerável de tempo de acordo com o emissor GPS a equipa de seguimento aproximou-se da ave e constatou que se encontrava ferida, com a asa esquerda fracturada vítima de disparos de arma de caça. Foi transportada para as instalações do GREFA nos arredores de Madrid onde actualmente se encontra a recuperar.
O programa de reforço populacional/reintrodução  de águia-real nas montanhas da Peneda e Gerês/Xurés deve constituir um desígnio das entidades responsáveis pela Conservação da Natureza portuguesas e galegas, por vários motivos mas principalmente porque tratando-se de áreas protegidas (do lado português é mesmo a principal área protegida do país) não é admissível aceitar-se passivamente a extinção de um super-predador por causas antrópicas com a consequente perda de diversidade biológica e de equilíbrio do ecossistema. Este esforço contudo tem que ser coordenado entre os 2 países e assumido de forma plena. 
Numa medida plena de oportunidade o Parque Nacional da Peneda-Gerês colocou a funcionar um alimentador para aves necrófagas ao longo de 2008, esforço que porventura deveria ser alargado a outros locais nomeadamente ao Parque Natural Baixa Limia - Serra do Xurés. Por outro lado numa ave longeva como a águia-real é do maior interesse reduzir a mortalidade de efectivos o que apenas se consegue com a presença de equipas especializadas na luta contra o veneno em ambos os países (este constitui um autêntico flagelo nestas serras sendo habitualmente colocado para atingir outro super-predador, o Lobo-ibérico (Canis lupus signatus)). Finalmente é urgente a libertação de mais exemplares de águia-real a cada ano: a solta de apenas um exemplar é manifestamente insuficiente atendendo à elevada taxa de mortalidade associada ao perigoso período de dispersão juvenil. A experiência internacional demonstra que as probabilidades de êxito de um programa de reintrodução de águia-real aumentam com a libertação de pelo menos 4 aves/ano em vários anos sucessivos. Apelo portanto aos nossos amigos galegos para que o insucesso que rodeou a libertação de Eufemia apenas os motive para a introdução já em 2009 de um maior número de aves. Apelo também às entidades portuguesas, nomeadamente ao Ministério do Meio Ambiente, Ordenamento do Território e Desenvolvimento Regional e ao Instituto da Conservação da Natureza e Biodiversidade para que não poupem esforços e recursos na salvação da águia-real no único parque nacional português: esse seria um óptimo investimento no futuro do país... 

07 dezembro 2008

Texugo: o mascarado da nossa fauna



Fotografias de Texugos (Meles meles) selvagens obtidas com recurso a máquinas fotográficas de disparo automático no Norte de Portugal.

Amanhece nas montanhas asturianas e a claridade do dia permite contemplar um aglomerado de picos cantábricos nevados e um vale recoberto por um extenso faial. Encontramo-nos de madrugada neste local remoto, absolutamente enregelados por um vento cortante soprando de Norte, com um único objectivo: observar em estado selvagem um dos grandes predadores da Fauna Ibérica: o Urso-pardo cantábrico (Ursus arctos). Para tal temos o privilégio de acompanhar um dos maiores conhecedores da ecologia desta espécie, Alfonso Hartasánchez do FAPAS (Fondo Asturiano para la Protección de los Animales Selvages). Contudo naquela manhã o vertebrado de hábitos elusivos que nos brindou com a sua presença não foi o desejado plantígrado mas antes o Texugo (Meles meles). Alheio à nossa presença este mamífero de porte desajeitado irrompeu do bosque e avançou decididamente por um prado de altitude. A certa altura pressentiu a nossa presença, encarou-nos e rapidamente desapareceu por entre o arvoredo...
O Texugo é um carnívoro de médio porte (pesa até 12 kg) que se distribui por todo o país (estatuto de conservação: pouco preocupante) preferindo áreas de paisagem tipo mosaico com cobertura florestal e arbustiva intercalada com prados de cultivo. Apresenta um regime alimentar omnívoro, fazendo parte integrante da sua dieta os frutos, insectos ou pequenos mamíferos. Caracteriza-se por viver em grupos sociais com um número que oscila entre 5 e 25 elementos de ambos os sexos que defendem um mesmo território. Escava diversas galerias onde socializa e se refugia durante o dia (o padrão de actividade é essencialmente nocturno). 
Quanto ao comportamento reprodutor destacam-se 2 períodos de acasalamento no final do Inverno e durante o Verão. A gestação apresenta uma duração variável, podendo prolongar-se por vários meses devido ao fenómeno conhecido como implantação retardada. As crias nascem habitualmente em pleno Inverno e mantêm-se na texugueira por cerca de 2 meses, assomando ao exterior já em plena Primavera.
A presença do texugo, inconfundível mascarado da nossa fauna, é um excelente indicador de equilíbrio conseguido pelo Homem na exploração racional da Natureza. A manutenção das actividades agrícolas tradicionais constitui assim a melhor garantia da sua sobrevivência futura.

30 novembro 2008

Disponibilização gratuita da Biblioteca Digital do ICNB - uma medida acertada


O Instituto para a Conservação da Natureza e Biodiversidade disponibilizou recentemente em formato pdf alguns dos trabalhos promovidos ou apoiados pela entidade e seus predecessores ao longo dos últimos 30 anos.
De momento encontram-se acessíveis trabalhos relacionados com as áreas protegidas do Norte do país mas prevê-se para breve a disponibilização de mais de um milhar de títulos dedicados às restantes áreas protegidas e aos valores naturais nacionais. 
Esta é sem dúvida uma excelente notícia para quem se interessa pela Natureza Portuguesa. Clicando aqui abre-se a porta para muitas horas de leitura sobre os nossos bosques, aves e mamíferos desde a vegetação do vale do Sabor no Parque Natural de Montesinho até aos prejuízos causados pelo Lobo (Canis lupus signatus) no Parque Natural do Alvão... Boa leitura!

27 novembro 2008

Ursa "Villarina": símbolo da recuperação do Urso-pardo Cantábrico



Villarina, a cria de Urso-pardo cantábrico (Ursus arctos) mais mediática de sempre [Fotografias FAPAS e Fundación Oso Pardo].

Cordilheira Cantábrica, Junho de 2008: uma fêmea de Urso-pardo cantábrico (Ursus arctos) deambula por um dos maiores bosques caducifólios ibéricos em busca de alimento juntamente com as suas 3 crias de 5 meses de idade. Enquanto sobem a encosta uma das crias cai e sofre um traumatismo craniano. Desorientada a pequena ursa desce cambaleante até ao fundo do vale por onde passa uma estrada pouco transitada.
Mais tarde um casal de turistas que se tinha deslocado à Cordilheira Cantábrica para conhecer o "País dos Ursos" mal pode acreditar no que vê: à frente do seu carro encontra-se uma frágil cria de urso. Prudentes fingem ignorá-la primeiro, depois tentam reconduzi-la de volta ao bosque mas o "esbardo" (termo asturiano que designa cria de urso) regressa teimosamente à estrada. Finalmente e porque se apercebem de que o animal não se desloca normalmente e não há sinais da progenitora, recolhem-na e entregam-na na delegação mais próxima da Fundación Oso Pardo.
Durante o Verão as Astúrias e toda a Espanha acompanham a recuperação da pequena ursa, entretanto baptizada de Villarina de acordo com o nome da aldeia mais próxima do local onde foi encontrada. Inicialmente tratada em Oviedo, o agravamento do seu estado de saúde obriga ao transporte de urgência para um centro veterinário intensivo na vizinha Cantábria. Felizmente em Agosto Villarina já se encontra livre de perigo e regressa ao Principado das Astúrias ingressando num Centro de Recuperação de Fauna (foto 1).
Começa então a discussão: que fazer à pequena ursa? Depois de tantos meses em cativeiro e apesar de todo o cuidado em reduzir a exposição ao Homem será que consegue sobreviver de novo na Natureza? Não será mais prudente mantê-la em cativeiro servindo o propósito de educação ambiental? Depois de tanta exposição mediática será legítimo utilizá-la como atractivo turístico das regiões por onde deambula o urso?
No terreno o Fondo Asturiano para la Proteccion de los Animales Salvages (FAPAS) através da utilização de câmaras fotográficas automáticas estrategicamente colocadas localiza a progenitora e os dois irmãos de Villarina (foto 2).
O que se passa de seguida demonstra na perfeição a referência que o Principado das Astúrias constitui em termos de Conservação da Natureza, comparando com a restante Espanha e Portugal: em Setembro o departamento de Meio Ambiente do Principado reúne com as principais associações ligadas à Conservação da Natureza, com biólogos especialistas na gestão do urso-pardo e com os directores das áreas protegidas asturianas para decidir o futuro da cria de urso. A decisão final, apesar dos riscos envolvidos, passa pela a reintrodução do esbardo no bosque por onde nesse momento deambula o seu grupo familiar.
Novembro 2008. A neve começa a cair nos belíssimos cumes cantábricos. Há já duas semanas que Villarina voltou às montanhas que a viram nascer (foto 3). De momento o reencontro com a mãe e irmãos ainda não ocorreu. Ao nascer e pôr-do-sol a cria, agora com 10 meses de idade, deambula por um extenso faial repleto de alimento. Com a descida de temperatura recolhe a uma pequena gruta onde se prepara para hibernar. A mais de um quilómetro de distância todos os seus movimentos são seguidos por uma equipe permanente da Fundación Oso Pardo munida de poderosos telescópios.
Não sabemos se Villarina sobreviverá ao seu primeiro Inverno. Mas todos os cuidados, tempo e dinheiro disponibilizados para salvar esta única cria de urso-pardo permitem compreender porque é que nas Astúrias a população do plantígrado em estado selvagem duplicou nos últimos dez anos: é porque aqui a conservação e respeito pela Natureza não constituem apenas uma obrigação legal mas antes um desígnio de toda a sociedade...