19 janeiro 2009

O longo Inverno das Cegonhas-brancas no Norte de Portugal

Cegonhas-brancas (Ciconia ciconia) pousadas no ninho em pleno mês de Janeiro, próximo a uma aldeia de montanha do Parque Natural de Montesinho.

Há cada vez mais Cegonhas-brancas (Ciconia ciconia) na Península Ibérica e muitas escolhem abdicar da migração outonal e permanecer entre nós nestes meses frios. Tal é mais comum no Centro e Sul de Portugal contudo, nos últimos anos, este mesmo fenómeno tem-se verificado no Norte do país e inclusive em zonas de montanha.

No Parque Natural de Montesinho o presente Inverno tem obedecido aos padrões habituais, ou seja, sucedem-se os nevões e as temperaturas mínimas não ultrapassaam consecutivamente valores negativos. O Rio Onor, por exemplo, na zona oriental do parque encontra-se praticamente gelado à passagem pela aldeia com o mesmo nome. Causa por isso alguma surpresa constatar que enquanto neva um irredutível casal de cegonhas-brancas permanece imóvel no seu ninho em plena aldeia de Gimonde aguardando por uma meteorologia mais benévola. Constituirá este um exemplo das alterações climáticas e da capacidade adaptativa da fauna a novas  condições ambienciais? Ou será que no passado, quando as populações de cegonha-branca eram igualmente densas, este fenómeno já se verificava?

Não sei a resposta mas espero que a estratégia resulte... na Primavera darei conta do que sucedeu a este casal.

04 janeiro 2009

Corvo-marinho-de-faces-brancas: a ave pesqueira que nos visita de Inverno

Exemplar de Corvo-marinho-de-faces-brancas (Phalacrocorax carbo). Fotografia: Stawomir Staszczuk.

Proveniente das Ilhas Britânicas, Países Baixos e Dinamarca, o Corvo-marinho-de-faces-brancas (Phalacrocorax carbo) é uma ave migradora que visita o nosso país entre Setembro e Abril. Grande, robusta e de coloração escura com excepção de pequenas áreas brancas na cabeça e flancos, trata-se de uma espécie com excelentes dotes para a pesca. 
Percorre com frequência os rios e albufeiras do interior do país no que se distingue do seu parente próximo, o Corvo-marinho-de-crista (Phalacrocorax aristotelis). É comum encontrá-la pousada próximo da água, inserida num grupo, com as asas abertas para melhor secar a plumagem após mergulhos em busca de alimento. 
Na tarde do dia de Natal, após ter observado o voo majestoso de uma Águia-real (Aquila chrysaetos) sobre as escarpas do Rio Sabor, deparei com 3 corvos-marinhos-de-faces-brancas em plena jornada de pesca. Por mais distraído que fosse o observador não podia deixar de reparar no espectáculo: as 3 aves negras sobressaíam de forma bem evidente nas encostas brancas, recobertas de gelo, do vale do Sabor. 
Nos próximos anos é provável que o espectáculo continue: os efectivos desta espécie têm aumentado, calculando-se que a Península Ibérica seja visitada a cada Inverno por mais de 70 mil indivíduos. Mais: a sua reprodução já foi confirmada na vizinha Espanha, havendo pelos menos 60 casais que preferem passar o Verão nas nossas latitudes.

22 dezembro 2008

Votos de Festas Felizes a todos os leitores



Imagens de paisagens naturais portuguesas fabulosas: o curso superior do Vale do Homem e a Mata Nacional de Albergaria no Parque Nacional da Peneda-Gerês. 

A quadra natalícia é tradicionalmente uma altura de paz e compreensão entre os Homens mas talvez devesse também constituir um momento de reflexão da nossa relação para com a Natureza. O meio que nos rodeia é parte integrante do Homem pois ao longo de milénios condicionou a evolução da nossa espécie. Agora que adquirimos uma extraordinária capacidade de transformação da Natureza, como nenhuma outra espécie deteve na já longa história do nosso planeta, devemos justificar a nossa auto-intitulada inteligência preservando tudo aquilo que fez de nós o que hoje somos.
Aos leitores habituais do Fauna Ibérica peço desculpa pelo tom talvez demasiado filosófico. Desejo a todos festas felizes, um 2009 cheio de saúde e sonhos concretizados, com votos de que no próximo ano a Natureza portuguesa receba o respeito que merece. 

19 dezembro 2008

Águia-real nas montanhas do Gerês/Xurés: precisa-se de uma estratégia concertada entre Portugal e Espanha



Fotografias retratando o o trabalho de reforço populacional de Águia-real (Aquila chrysaetos) no Parque Natural Baixa Limia - Serra do Xurés (fotografias: GREFA, Grupo de Rehabilitación de la Fauna Autoctóna y su hábitat).

Mapa de localizações GPS de exemplar de Águia-real (Aquila chrysaetos) libertada em 2008 no Parque Natural Baixa Limia - Serra do Xurés obtido graças a um emissor transportado pela ave. Há 3 semanas este animal foi encontrado ferido na província de Salamanca, com a asa esquerda fracturada após ter sido vítima de disparos  (fotografias: GREFA, Grupo de Rehabilitación de la Fauna Autoctóna y su hábitat). 

No Parque Nacional da Peneda-Gerês e no vizinho Parque Natural de Baixa Limia - Serra do Xurés galego a população de um dos principais predadores europeus, a Águia-real (Aquila chrysaetos), encontra-se à beira da extinção. Desde o início do século XX que nesta área protegida transfronteiriça com cerca de cem mil hectares de extensão, representativa das montanhas do Noroeste ibérico, deambula de maneira permanente apenas um único exemplar. Com vista a contrariar a situação de extinção biológica (sem capacidade de reprodução em condições naturais) os nossos vizinhos galegos iniciaram em 2001 um programa de reforço populacional/reintrodução de águia-real. Com o auxílio do GREFA (Grupo de Rehabilitación de la Fauna Autoctóna y su hábitat) procederam à libertação no espaço natural galego, a menos de 5 km da fronteira portuguesa, de 7 crias de águia-real.
Cronologicamente a solta exemplares decorreu da seguinte forma:
  • 2001: 1 cria de águia-real nascida em cativeiro no GREFA é colocada aos 60 dias de vida numa plataforma artificial em pleno Parque Natural Baixa Limia - Serra do Xurés, iniciando os primeiros voos cerca de 20 dias mais tarde;
  • 2002: 1 cria de águia-real nascida em cativeiro no GREFA é libertada no mesmo local;
  • 2003: 1 cria de águia-real também nascida em cativeiro é solta nas mesmas condições;
  • 2006: 2 crias de águia-real disponibilizadas pelas Juntas de Castilla La Mancha e Extremadura são libertadas na mesma plataforma-ninho;
  • 2007: 1 cria de águia-real, desta feita nascida em cativeiro no GREFA (baptizada "Lobios") é solta no Sudoeste da Galiza
  • 2008: 1 cria de águia-real nascida em cativeiro no GREFA (baptizada de "Eufemia") é libertada numa zona nobre do Parque Natural de Baixa Limia - Serra do Xurés.
Infelizmente e até à data os resultados não têm sido animadores. Com efeito pelo menos um dos animais libertados foi encontrado morto na fase de dispersão juvenil. Já este ano a aclimatação e os primeiros voos de Eufemia tinham decorrido conforme o esperado, com incursões nos vales graníticos dos nossos Parque Nacional da Peneda-Gerês e Parque Natural do Alvão, e início do período de dispersão que a levou a atravessar todo o Norte de Portugal até se estabelecr numa zona de grande densidade de Coelho-bravo (Oryctolagus cuniculus) a 20 km a Sul de Salamanca. No dia 20 de Novembro e porque o animal permanecia imóvel há um período considerável de tempo de acordo com o emissor GPS a equipa de seguimento aproximou-se da ave e constatou que se encontrava ferida, com a asa esquerda fracturada vítima de disparos de arma de caça. Foi transportada para as instalações do GREFA nos arredores de Madrid onde actualmente se encontra a recuperar.
O programa de reforço populacional/reintrodução  de águia-real nas montanhas da Peneda e Gerês/Xurés deve constituir um desígnio das entidades responsáveis pela Conservação da Natureza portuguesas e galegas, por vários motivos mas principalmente porque tratando-se de áreas protegidas (do lado português é mesmo a principal área protegida do país) não é admissível aceitar-se passivamente a extinção de um super-predador por causas antrópicas com a consequente perda de diversidade biológica e de equilíbrio do ecossistema. Este esforço contudo tem que ser coordenado entre os 2 países e assumido de forma plena. 
Numa medida plena de oportunidade o Parque Nacional da Peneda-Gerês colocou a funcionar um alimentador para aves necrófagas ao longo de 2008, esforço que porventura deveria ser alargado a outros locais nomeadamente ao Parque Natural Baixa Limia - Serra do Xurés. Por outro lado numa ave longeva como a águia-real é do maior interesse reduzir a mortalidade de efectivos o que apenas se consegue com a presença de equipas especializadas na luta contra o veneno em ambos os países (este constitui um autêntico flagelo nestas serras sendo habitualmente colocado para atingir outro super-predador, o Lobo-ibérico (Canis lupus signatus)). Finalmente é urgente a libertação de mais exemplares de águia-real a cada ano: a solta de apenas um exemplar é manifestamente insuficiente atendendo à elevada taxa de mortalidade associada ao perigoso período de dispersão juvenil. A experiência internacional demonstra que as probabilidades de êxito de um programa de reintrodução de águia-real aumentam com a libertação de pelo menos 4 aves/ano em vários anos sucessivos. Apelo portanto aos nossos amigos galegos para que o insucesso que rodeou a libertação de Eufemia apenas os motive para a introdução já em 2009 de um maior número de aves. Apelo também às entidades portuguesas, nomeadamente ao Ministério do Meio Ambiente, Ordenamento do Território e Desenvolvimento Regional e ao Instituto da Conservação da Natureza e Biodiversidade para que não poupem esforços e recursos na salvação da águia-real no único parque nacional português: esse seria um óptimo investimento no futuro do país... 

07 dezembro 2008

Texugo: o mascarado da nossa fauna



Fotografias de Texugos (Meles meles) selvagens obtidas com recurso a máquinas fotográficas de disparo automático no Norte de Portugal.

Amanhece nas montanhas asturianas e a claridade do dia permite contemplar um aglomerado de picos cantábricos nevados e um vale recoberto por um extenso faial. Encontramo-nos de madrugada neste local remoto, absolutamente enregelados por um vento cortante soprando de Norte, com um único objectivo: observar em estado selvagem um dos grandes predadores da Fauna Ibérica: o Urso-pardo cantábrico (Ursus arctos). Para tal temos o privilégio de acompanhar um dos maiores conhecedores da ecologia desta espécie, Alfonso Hartasánchez do FAPAS (Fondo Asturiano para la Protección de los Animales Selvages). Contudo naquela manhã o vertebrado de hábitos elusivos que nos brindou com a sua presença não foi o desejado plantígrado mas antes o Texugo (Meles meles). Alheio à nossa presença este mamífero de porte desajeitado irrompeu do bosque e avançou decididamente por um prado de altitude. A certa altura pressentiu a nossa presença, encarou-nos e rapidamente desapareceu por entre o arvoredo...
O Texugo é um carnívoro de médio porte (pesa até 12 kg) que se distribui por todo o país (estatuto de conservação: pouco preocupante) preferindo áreas de paisagem tipo mosaico com cobertura florestal e arbustiva intercalada com prados de cultivo. Apresenta um regime alimentar omnívoro, fazendo parte integrante da sua dieta os frutos, insectos ou pequenos mamíferos. Caracteriza-se por viver em grupos sociais com um número que oscila entre 5 e 25 elementos de ambos os sexos que defendem um mesmo território. Escava diversas galerias onde socializa e se refugia durante o dia (o padrão de actividade é essencialmente nocturno). 
Quanto ao comportamento reprodutor destacam-se 2 períodos de acasalamento no final do Inverno e durante o Verão. A gestação apresenta uma duração variável, podendo prolongar-se por vários meses devido ao fenómeno conhecido como implantação retardada. As crias nascem habitualmente em pleno Inverno e mantêm-se na texugueira por cerca de 2 meses, assomando ao exterior já em plena Primavera.
A presença do texugo, inconfundível mascarado da nossa fauna, é um excelente indicador de equilíbrio conseguido pelo Homem na exploração racional da Natureza. A manutenção das actividades agrícolas tradicionais constitui assim a melhor garantia da sua sobrevivência futura.