24 março 2009

Incêndio na Mata de Albergaria ou o prenúncio de um ano problemático

Mata de Albergaria fotografada no Verão de 2008. Observa-se à esquerda na imagem o vale do Cagademos, entretanto afectado pelo fogo.

Encosta de Bouça da Mó (imagem do Verão 2008), que foi poupada pelo incêndio de 22 e 23 de Março.

Faial (Fagus sylvatica) em Albergaria ou um dos tipos de bosque mais resistente ao fogo.

Falar de fogos florestais não é fácil: há várias maneiras de encarar o problema e cada um considera-se dono da razão. Habitualmente a discussão surge durante a ocorrência de incêndios graves (em termos de área ardida ou de valores ambientais) e raramente se ouvem as pessoas mais conhecedoras e cuja opinião teria mais valor: como técnicos da Autoridade Florestal Nacional, equipas do Instituto da Conservação da Natureza e Biodiversidade (ICNB) ou as equipas de sapadores que estão na frente de "combate". O resultado é a existência de discussões estéreis com um progressivo distanciamento da população urbana relativamente ao tema (não posso deixar de me espantar como é que a notícia de abertura dos principais noticiários televisivos por estes dias relacionou-se com futebol enquanto que decorria o incêndio mais grave da última década na floresta mais valiosa de Portugal Continental).
Combater o fogo em Albergaria é difícil e perigoso. Por isso antes de tudo a minha palavra é de reconhecimento e agradecimento por todos aqueles que nos dias 22 e 23 de Março estiveram na vertente Ocidental de Gerês a combater as chamas. Em especial quero referir a importância das equipas de sapadores florestais, do Grupo de Intervenção de Protecção e Socorro (GIPS, uma das melhores medidas deste Governo) e das equipas do ICNB que, apesar da desorçamentação a que foi votado por governos sucessivos com a consequente desmotivação de pessoal, é um dos elementos-chave para que Portugal não esteja hoje totalmente devassado por interesses economicistas de curto-prazo.
Este incêndio contudo foi bastante grave e há que referi-lo. Ao contrário do que a Autoridade Nacional de Protecção Civil (ANPC) difundiu e a Comunicação Social transmitiu a Mata de Albergaria ardeu mesmo. As chamas consumiram locais únicos como os fantásticos vales do Forno, Monção ou Cagademos. Aqui existiam enormes exemplares de Teixos (Taxus baccata) ou Carvalhos-alvarinho (Quercus robur) que eram percorridos por animais de que pouco se sabe no nosso país como a Marta (Martes martes). 
Neste momento contudo ainda é cedo para falar da destruição que acarretou. O solo que se apresentava húmido pode ter possibilitado a salvação de ilhas de floresta, indispensáveis para o processo de reflorestação natural. Também ainda não acorreu o nascimento de crias de Marta, algo que só se verificará em Abril/Maio.
Os dias de 22 e 23 de Março de 2009 não devem ser esquecidos. A fragilidade da Mata de Albergaria ao fogo, a tendência de desvalorização dos factos por parte dos intervenientes políticos e a sucessão de actos eleitorais nos próximos meses podem constituir, se o Verão for quente e seco, o prenúncio de um ano problemático.

28 fevereiro 2009

Laurissilva: o tesouro da Natureza portuguesa



O melhor da Natureza portuguesa: a Floresta Laurissilva.

A Laurissilva constitui a floresta indígena da ilha da Madeira e é um autêntico tesouro ambiental mundial. Trata-se de um bosque com origem na Era Terciária, há cerca de 20 milhões de anos, e que originalmente cobria extensas áreas da bacia mediterrânea. Com o advento subsequente de períodos glaciares desapareceu do continente europeu apenas permanecendo na Macaronésia (arquipélagos da Madeira, Açores, Canárias e Cabo Verde) como testemunho de um tempo e de animais há muito desaparecidos.
Neste particular Portugal é bafejado pela sorte: a maior mancha de Laurissilva do mundo, e a mais bem conservada, encontra-se na Madeira cobrindo cerca de 20% da superfície da ilha. Os mais de 15 mil hectares de floresta encontram-se totalmente protegidos pelo Parque Natural da Madeira e, conforme seria de esperar pelo elevado valor ambiental que encerra, integra a lista de Património Mundial Natural da UNESCO. 
Por isso numa próxima ida à Madeira não perca a oportunidade de caminhar por uma "levada" e conhecer as 4 lauráceas principais deste bosque sempre verde: Loureiro (Laurus azorica), Til (Ocotea foetens), Vinhático (Persea indica) e Barbusano (Apollonias barbujana). Contam-se pelos dedos de uma mão os locais no mundo onde poderá usufruir de tamanho privilégio e nenhum é tão majestoso como o que se encontra na "Pérola do Atlântico".     

26 fevereiro 2009

O encanto da neve



Fotografias de Raposa (Vulpes vulpes) e Geneta (Genetta genetta) obtidas no Distrito de Bragança, gentilmente cedidas por Luís Moreira, biólogo do Parque Natural de Montesinho.

Neste Inverno os nevões tem-se sucedido com relativa frequência nas montanhas do Norte e Centro do país. Estas condições meteorológicas adversas dificultam a actividade diária da fauna, como a recolha de alimento ou a procura de locais adequados de abrigo.
Torna-se assim possível observar mamíferos como a Raposa (Vulpes vulpes) ou Gineta (Genetta genetta) a enfrentarem condições climatéricas bastante adversas deambulando sob um espesso manto de neve.
Estas imagens, obtidas através de câmaras fotográficas activadas por sensor de movimento e calor, provam que apesar de belo o Inverno é a estação mais dura do ano.

09 fevereiro 2009

Apenas sobrevivem os mais fortes

Macho de Veado (Cervus elaphus), fotografado com recurso a um dispositivo fotográfico automático, atravessa um pinhal nevado no Nordeste do país.

Estes são dias difícieis para a Fauna Ibérica: sucedem-se as frentes atlânticas, a temperatura baixa, a precipitação é abundante e o vento cortante. Nas montanhas do Norte e Centro do país a neve é presença habitual. 
Nestas circunstâncias a procura de abrigo e de alimento por parte dos animais selvagens encontra-se bastante dificultada. Embora correndo um risco elevado frequentemente abandonam locais remotos, como os cumes das serras ou o refúgio dos bosques, para se aproximarem do Homem aproveitando a abundância relativa de recursos disponibilizada pelos nossos aglomerados populacionais. 
Por estes dias a mortalidade da Fauna Ibérica será seguramente considerável. Homens e animais, todos esperam a Primavera... 

29 janeiro 2009

Autor de incêndio próximo a Rio de Onor condenado ao pagamento de 1 milhão de euros

O aceiro visível à direita representa a fronteira entre Portugal e Espanha ou entre o Parque Natural de Montesinho e a Reserva de Caça da Sierra de la Culebra. O pinhal que se vê nesta imagem (obtida pouco antes do incêndio de 2006) foi consumido pelas chamas.

Maio de 2006. J.M.P.R., de naturalidade espanhola, sai pela manhã das aldeias gémeas de Rio de Onor (portuguesa, localizada no Parque Natural de Montesinho) /Rihonor (espanhola, incluída na Reserva de Caça da Sierra de la Culebra) em direcção a uma parcela de terra de sua propriedade que se encontra alguns quilómetros a Norte em Espanha. De forma ilegal e imprudente fez aquilo que tantos proprietários fazem: limpou a vegetação e iniciou a queima de mato sem a necessária autorização.
O dia estava quente e o vento forte. Rapidamente o fogo propagou-se. A poucas centenas de metros, soube-se mais tarde, criava uma alcateia de Lobos-ibéricos (Canis lupus signatus). Enquanto J.M.P.R. regressava de forma dissimulada à aldeia o fogo arrasava 378 hectares de bosque, principalmente Pinheiro-bravo (Pinus pinaster) e Carvalho-negral (Quercus pyrenaica), bem como outros 163 hectares de terreno vegetal. Tratava-se de um bosque maduro, plantado com o objectivo de aproveitamento florestal, contudo que albergava uma importante diversidade biológica sendo comprovadamente frequentado por jóias da nossa fauna como a Marta (Martes martes) ou o Gato-montês (Felis silvestris).
O trabalho de extinção, que contou com ajuda de meios aéreos e assistência portuguesa, prolongou-se por 3 dias. Custou mais de 173 mil euros. Os prejuízos estimados, nomeadamente a perda de madeira de excelente qualidade, foram estimados em mais de 870 mil euros. Há outros danos não contabilizados: no ano seguinte (2007) o lobo não criou na zona e os padrões de ocupação de espaço pelo Veado (Cervus  elaphus)  alteraram-se substancialmente.
Janeiro de 2009. A justiça espanhola condena o autor do incêndio, habitualmente residente em Madrid mas com segunda habitação em Rihonor, ao pagamento de uma indemnização milionária à Junta de Castela e Leão de mais de 1 milhão de euros como única forma de evitar a prisão. O tribunal considerou como gravemente imprudente a actuação do condenado. Refere que, atendendo ao risco elevado de incêndio nesse dia, não tomou as medidas extremas de segurança necessárias, não solicitou a indispensável autorização para a queima de resíduos vegetais às autoridades competentes e atendendo ao lugar onde se iniciava o fogo e aos espaços naturais protegidos envolvidos (Reserva de Caça Sierra de la Culebra e Parque Natural de Montesinho) era previsível um importante dano ao Meio Ambiente.
A sentença é histórica. Os tesouros ambientais da Culebra e Montesinho estão agora mais protegidos.