16 agosto 2009

Corços em cio




Fêmea seguida por macho de Corço (Capreolus capreolus), às 11 horas da manhã, num dia quente de Julho no interior Norte de Portugal.


Agosto é o mês de acasalamento para os Corços (Capreolus capreolus). Os hábitos esquivos desta elegante espécie tornam contudo difícil presenciar na Natureza os comportamentos associados a esta fase do seu ciclo vital.
As imagens aqui reproduzidas mostram uma fêmea de corço a caminhar a meio do dia ao longo de um trilho (fotografia 1) e logo refugiar-se no interior de um pinhal de Pinheiro-bravo (Pinus pinaster) (fotografia 2). Nove minutos mais tarde surge um macho ao longo do mesmo caminho (fotografia 3), o qual também entra na floresta seguindo o rastro da sua parceira (fotografia 4). O que se passou a seguir permanece na intimidade dos corços...
São imagens raras e apenas possíveis em regiões isoladas e livres de pressão humana, como felizmente ainda acontece em determinadas áreas naturais protegidas.

04 agosto 2009

Tarde de Agosto nas margens do Sabor



O azul do céu e do rio, o verde da floresta a espaços centenária das margens e o castanho das fragas compõe as cores de um cenário paradisíaco. A Águia-de-asa-redonda (Buteo buteo) fotografada aguardou ao longo de horas nas margens do rio, talvez à espreita de alguma presa. 

Tarde de Agosto no belíssimo Vale do Sabor. O calor sufoca, tornando ainda mais atraente a imagem do curso de águas límpidas que corre ao fundo da encosta. 
Apesar do estio as recompensas surgem em catadupa para o amante da Natureza: manchas de carrasco que se estendem a perder de vista, uma Águia-real (Aquila chrysaetos) atacada por um Falcão-peregrino (Falco peregrinus) residente, um casal de Melro-d´água que percorre incessantemente as penedias de um rio (ainda) selvagem...
A certa altura os binóculos fixam na silhueta de uma ave de rapina pousada nas margens do Sabor. Durante a próxima hora a ave ora permanece longos minutos imóvel perscrutando o rio, ora se desloca num voo curto para uma outra atalaia localizada a algumas dezenas de metros. 
Trata-se de uma Águia-de-asa-redonda (Buteo buteo), ave que no Norte da Europa caça na espessura florestal mas que no nosso país, talvez devido à escassez de floresta autóctone, se adaptou à predação em espaços abertos. O comportamento que observo, contudo, representa uma novidade para mim.  Estaria esta águia-de-asa-redonda à caça de algum anfíbio incauto?
A resposta permanecerá no Vale do Sabor, pequeno pedaço de um país que ainda surpreende pela sua beleza...

18 julho 2009

Serra da Arada: o território do Lobo a Sul do Rio Douro



Cumes isolados, vales profundos e inacessíveis e a existência de efectivos de gado caprino permitem a sobrevivência do Lobo-ibérico (Canis lupus signatus), a cerca de quarenta quilómetros em linha recta do Grande Porto, em pleno século XXI.

Na fronteira entre os Distritos de Aveiro e Viseu existe uma paisagem de cumes arredondados e despidos de vegetação a perder de vista. Por aqui escondem-se aldeias abandonadas, cursos de águas límpidas e fragas imponentes. Esta é terra onde ainda persiste uma raridade da Península Ibérica: o Lobo (Canis lupus signatus).
Isolado pela recém-construída rede de auto-estradas, perturbado pelas gigantescas turbinas eólicas, vítima de uma menor disponibilidade de alimento devido à redução progressiva das cabeças de gado o lobo ainda resiste... mas até quando?
Integrada na Rede Natura 2000 como Sítio de Importância Comunitária (SIC), a Serra da Arada pelos elevados valores naturais que encerra, e entre os quais se inclui a ameaçada população lupina, é merecedora de um maior grau de protecção ambiental.

24 março 2009

Incêndio na Mata de Albergaria ou o prenúncio de um ano problemático

Mata de Albergaria fotografada no Verão de 2008. Observa-se à esquerda na imagem o vale do Cagademos, entretanto afectado pelo fogo.

Encosta de Bouça da Mó (imagem do Verão 2008), que foi poupada pelo incêndio de 22 e 23 de Março.

Faial (Fagus sylvatica) em Albergaria ou um dos tipos de bosque mais resistente ao fogo.

Falar de fogos florestais não é fácil: há várias maneiras de encarar o problema e cada um considera-se dono da razão. Habitualmente a discussão surge durante a ocorrência de incêndios graves (em termos de área ardida ou de valores ambientais) e raramente se ouvem as pessoas mais conhecedoras e cuja opinião teria mais valor: como técnicos da Autoridade Florestal Nacional, equipas do Instituto da Conservação da Natureza e Biodiversidade (ICNB) ou as equipas de sapadores que estão na frente de "combate". O resultado é a existência de discussões estéreis com um progressivo distanciamento da população urbana relativamente ao tema (não posso deixar de me espantar como é que a notícia de abertura dos principais noticiários televisivos por estes dias relacionou-se com futebol enquanto que decorria o incêndio mais grave da última década na floresta mais valiosa de Portugal Continental).
Combater o fogo em Albergaria é difícil e perigoso. Por isso antes de tudo a minha palavra é de reconhecimento e agradecimento por todos aqueles que nos dias 22 e 23 de Março estiveram na vertente Ocidental de Gerês a combater as chamas. Em especial quero referir a importância das equipas de sapadores florestais, do Grupo de Intervenção de Protecção e Socorro (GIPS, uma das melhores medidas deste Governo) e das equipas do ICNB que, apesar da desorçamentação a que foi votado por governos sucessivos com a consequente desmotivação de pessoal, é um dos elementos-chave para que Portugal não esteja hoje totalmente devassado por interesses economicistas de curto-prazo.
Este incêndio contudo foi bastante grave e há que referi-lo. Ao contrário do que a Autoridade Nacional de Protecção Civil (ANPC) difundiu e a Comunicação Social transmitiu a Mata de Albergaria ardeu mesmo. As chamas consumiram locais únicos como os fantásticos vales do Forno, Monção ou Cagademos. Aqui existiam enormes exemplares de Teixos (Taxus baccata) ou Carvalhos-alvarinho (Quercus robur) que eram percorridos por animais de que pouco se sabe no nosso país como a Marta (Martes martes). 
Neste momento contudo ainda é cedo para falar da destruição que acarretou. O solo que se apresentava húmido pode ter possibilitado a salvação de ilhas de floresta, indispensáveis para o processo de reflorestação natural. Também ainda não acorreu o nascimento de crias de Marta, algo que só se verificará em Abril/Maio.
Os dias de 22 e 23 de Março de 2009 não devem ser esquecidos. A fragilidade da Mata de Albergaria ao fogo, a tendência de desvalorização dos factos por parte dos intervenientes políticos e a sucessão de actos eleitorais nos próximos meses podem constituir, se o Verão for quente e seco, o prenúncio de um ano problemático.

28 fevereiro 2009

Laurissilva: o tesouro da Natureza portuguesa



O melhor da Natureza portuguesa: a Floresta Laurissilva.

A Laurissilva constitui a floresta indígena da ilha da Madeira e é um autêntico tesouro ambiental mundial. Trata-se de um bosque com origem na Era Terciária, há cerca de 20 milhões de anos, e que originalmente cobria extensas áreas da bacia mediterrânea. Com o advento subsequente de períodos glaciares desapareceu do continente europeu apenas permanecendo na Macaronésia (arquipélagos da Madeira, Açores, Canárias e Cabo Verde) como testemunho de um tempo e de animais há muito desaparecidos.
Neste particular Portugal é bafejado pela sorte: a maior mancha de Laurissilva do mundo, e a mais bem conservada, encontra-se na Madeira cobrindo cerca de 20% da superfície da ilha. Os mais de 15 mil hectares de floresta encontram-se totalmente protegidos pelo Parque Natural da Madeira e, conforme seria de esperar pelo elevado valor ambiental que encerra, integra a lista de Património Mundial Natural da UNESCO. 
Por isso numa próxima ida à Madeira não perca a oportunidade de caminhar por uma "levada" e conhecer as 4 lauráceas principais deste bosque sempre verde: Loureiro (Laurus azorica), Til (Ocotea foetens), Vinhático (Persea indica) e Barbusano (Apollonias barbujana). Contam-se pelos dedos de uma mão os locais no mundo onde poderá usufruir de tamanho privilégio e nenhum é tão majestoso como o que se encontra na "Pérola do Atlântico".