25 outubro 2009

Alcateia de Bragança - seguimento durante o ano 2008 (parte 2)


Alcateia de Bragança numa noite de caça e uma das suas principais presas, o Veado (Cervus elaphus).

Metodologia

O seguimento da alcateia de Bragança efectuou-se através de 3 métodos distintos: realização de percursos pré-definidos com registo de sinais indirectos de presença, armadilhagem fotográfica e estações de escuta.
A realização de percursos pré-definidos teve como objectivo a obtenção de um índice relativo de abundância da espécie. Foram considerados os sinais indirectos de presença, como a existência de dejectos e “esgaravatados” ao longo dos trilhos percorridos. Os dejectos foram classificados de acordo com o conteúdo, como contendo restos identificáveis de Cervídeo (Corço -Capreolus capreolus- ou Veado -Cervus elaphus-), Javali (Sus scrofa) ou Outros (incluindo de origem indeterminada).
A armadilhagem fotográfica foi utilizada de forma a permitir a “observação” da espécie, determinar padrões de utilização de território e períodos de actividade, para além de confirmar a sua reprodução. De igual modo procurou-se obter um índice relativo de abundância das principais presas do lobo, bem como caracterizar as restantes populações de mamíferos. De forma a perturbar o mínimo possível a espécie, as estações fotográficas foram colocadas a uma distância superior a 300 metros do local habitual de cria.
A realização de estações de escuta teve como objectivo confirmar a reprodução e avaliar o sucesso reprodutor da alcateia de Bragança.

10 outubro 2009

Alcateia de Bragança - seguimento durante o ano 2008 (parte 1)


Lobos-ibéricos (Canis lupus signatus) pertencentes à Alcateia de Bragança, fotografados com recurso a dispositivos automáticos dotados de flash (imagem superior) e de emissores infravermelhos (imagem inferior).

Introdução

O Lobo-ibérico (Canis lupus signatus) é uma espécie ameaçada de extinção em Portugal. Perante as rápidas, e por vezes profundas, alterações de habitat que se verificam nos locais habitados pelo lobo torna-se necessário o desenvolvimento de estudos de monitorização da espécie projectados a longo prazo.
A alcateia de Bragança habita numa área localizada a cerca de 20 quilómetros da cidade com o mesmo nome. O seu território encontra-se em contiguidade com a população lupina espanhola representando, pelas suas características de tranquilidade, disponibilidade de presas selvagens e ausência de conflito com o Homem, uma das áreas mais adequadas para o estabelecimento da espécie em Portugal.
Esta alcateia é acompanhada num esforço contínuo de monitorização desde 2006 (vide postagens anteriores neste mesmo blogue), ano em que se confirmou a sua reprodução. Em 2007, apesar da abundância de registos fotográficos de indivíduos pertencentes a este grupo familiar e da detecção de inúmeros sinais de presença, não foi possível confirmar a sua criação. Refira-se que nesse ano verificou-se um incêndio de proporções consideráveis, no final do mês de Abril, próximo ao local tradicional de cria.
Ao longo das próximas semanas serão publicados no blogue Fauna Ibérica os dados relativos ao seguimento desta alcateia durante o ano 2008.

Nota importante: tratando-se de uma espécie com especial interesse de conservação, todos os dados obtidos foram facultados em primeira mão ao Instituto da Conservação da Natureza e Biodiversidade (ICNB). O autor encontra-se agradecido a esta entidade oficial pela emissão da indispensável autorização para a realização de trabalho de campo e enaltece o excelente espírito de colaboração que se verificou em todos os momentos.

27 setembro 2009

O Gato-bravo e a Lebre

Gato-bravo (Felis silvestris) com uma Lebre (Lepus granatensis) recém-capturada.

O Gato-bravo (Felis silvestris) é um dos mamíferos mais esquivos e menos estudados da nossa Fauna. O seu estatuto de conservação, segundo o Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal (Instituto da Conservação da Natureza), é de Vulnerável, assumindo-se um declínio acentuado da sua população nos últimos anos.
Trata-se de um predador que privilegia na sua dieta o Coelho (Oryctolagus cuniculus), a Lebre (Lepus granatensis), os roedores, como o Rato-do-campo (Apodemus sylvaticus) e as aves, principalmente os passeriformes. Enquanto a observação na Natureza de um gato-bravo é bastante difícil, a visualização de um lance de caça é um evento extremamente raro, mesmo para um indivíduo que dedique grande parte da sua vida ao estudo da Fauna Ibérica. 
A imagem que aqui se expõe assume por isso um significado especial. Nela se observa um gato-bravo fotografado às 6 horas da manhã do passado dia 6 de Setembro no Nordeste Transmontano, transportando pela boca uma lebre recém-capturada. Permite constatar a elegância felina deste animal tão secreto, comprovar a sua capacidade de caça, atestar a sua força no transporte de uma presa que pode atingir um peso semelhante ao seu.
Acima de tudo esta fotografia é o testemunho maior de um Portugal selvagem que há muito aprendi a admirar... 

05 setembro 2009

O desaparecimento estival do Rio Maças


Estas imagens mostram algo pouco comum: o desaparecimento completo de um rio devido à escassez de precipitação ao longo do último ano hidrológico. 

As pessoas mais idosas das aldeias circundantes não se lembram de algo assim: o Rio Maças, que forma um dos mais belos vales do país, desapareceu...
Conforme testemunham as fotografias, desde meados de Agosto que a água deixou de correr nesta região do Nordeste Transmontano. À escassez de chuvas do Inverno juntou-se uma Primavera anormalmente seca e um Verão de elevadas temperaturas que conduziram a este desfecho. O desaparecimento do rio acarreta consequências sérias para a Fauna e Flora locais, contudo trata-se de um evento transitório, integrado num ciclo natural mais amplo. 
O inédito deste registo deve-se também a um outro factor: é que o Rio Maças, desde a nascente até à foz em pleno Sabor, é um rio selvagem, com uma ausência quase completa de barragens. E nos rios selvagens verifica-se isto mesmo: períodos de seca alternados com cheias, estabelecendo condições ambientais extremamente desafiantes para todos os seres vivos. E é a partir de laboratórios naturais de extremos como este que se desenvolve a biodiversidade... 

24 agosto 2009

Amieiros centenários num vale remoto

Águas frias e rápidas com um bosque ribeirinho no seu apogeu, ou imagens de um Portugal superior.

Exemplar de Amieiro (Alnus glutinosa) centenário, num vale paradisíaco.

O perímetro do tronco deste amieiro atinge vários metros.

Raízes "embebidas" em água cristalina, num local recôndito do vale.

Primeiro atravessa-se um extenso carvalhal de Carvalho-negral (Quercus pyrenaica), depois prados há muito abandonados do seu propósito agrícola e finalmente vislumbra-se o vale. Poucos lugares como este ainda restam na Península Ibérica: um rio de águas translúcidas envolvido por uma galeria ripícola na qual predominam Amieiros (Alnus glutinosa) centenários!
Caminhar ao longo do vale corresponde a uma viagem no tempo, pois a cada curva do curso de água sucedem-se as árvores monumentais. Esta galeria lenhosa ribeirinha, que durante séculos escapou ao fogo e ao machado do Homem, fornece matéria orgânica em abundância ao leito fluvial. Cria assim as condições para o estabelecimento de colónias de microorganismos decompositores e de invertebrados aquáticos, base da alimentação de aves tão raras como o Melro de água (Cinclus cinclus).
Tão antigo e tão frágil (motivo pelo qual não revelo a sua localização, que me perdoem os leitores), este ecossistema constitui uma amostra insuperável  do que o nosso país tem de melhor...