13 junho 2011

Vida e morte na Natureza lusitana

Lobo-ibérico (Canis lupus signatus) fotografado há duas semanas no Norte de Portugal transportando o resultado da sua caçada.


Maio de 2011: o dia aproxima-se do fim numa remota serra transmontana. Ao fundo, no vale, crias de Lobo-ibérico (Canis lupus signatus) com apenas algumas semanas de vida esperam pela chegada de comida. Os dias sucedem-se, a fome aperta e a caça não vem. Mas hoje tudo vai ser diferente...
A poucas centenas de metros do local habitual de cria uma câmara fotográfica activada por movimento detecta um momento íntimo na vida desta alcateia. Poucos minutos passam das 19 horas quando um lobo adulto apressa-se a regressar para junto da família e é fotografado. A cabeça de cria de Veado (Cervus elaphus) que transporta entre as presas e o abdómen bastante dilatado que se pode ver na imagem são sinais de uma refeição faustosa. Não para si mas para as suas crias...
Uma vez chegado ao vale as crias irão rodeá-lo, lambendo-lhe o focinho. Num gesto repetido desde há milénios ele irá regurgitar o que ingeriu minutos antes e será o produto dessa regurgitação e a cabeça de veado que irão alimentar a nova geração de lobos portugueses.
O país está em crise mas a nossa Natureza permanece única e vibrante como sempre o foi...

26 maio 2011

Lebre-ibérica: camuflagem e rapidez

Lebre-ibérica (Lepus granatensis) fotografada numa serra transmontana.


A Lebre-ibérica (Lepus granatensis) é um lagomorfo com cerca de 2,5 kg de peso que se distribui por quase toda a Península Ibérica, com excepção das Cordilheiras Cantábrica e Pirenaica. É mais comum em zonas de mato rasteiro, olival, campos de cereal ou vinhedos, rareando em zonas florestadas.
Distingue-se do Coelho (Oryctolagus cuniculus) pelas maiores dimensões, pelas orelhas longas e negras nas extremidades, cauda com risca preta e membros compridos.
Apesar da sua proverbial rapidez trata-se de um mamífero que baseia muito da sua estratégia de sobrevivência na arte da camuflagem, pelo que encontrá-la a meio do dia, em pleno trilho de uma área protegida do Norte de Portugal é digno de registo...

17 abril 2011

Gato-bravo em patrulha à hora do almoço


A observação na Natureza de um mamífero tão esquivo como o Gato-bravo (Felis silvestris) é sempre um acontecimento especial. Para que tal suceda são necessárias várias horas de espera, conhecimento do terreno e... muita sorte!
O vídeo em anexo não foi obtido através de uma observação directa mas antes utilizando uma câmara automática acoplada a um sensor de movimento. Através desta ajuda electrónica foi possível saber que no passado dia 17 de Março, quinta-feira, em plena luz do dia, às 13 horas e 30 minutos, no Extremo Norte de Portugal um gato-bravo patrulhava o seu território. Acumula-se a informação de que para esta espécie a tranquilidade do território não só durante a noite mas também durante o dia é um factor a ter em conta quando se planeia a sua conservação.

19 janeiro 2011

Côa: património humano e natural

O belíssimo Vale do Côa próximo a Algodres.

Águia-real (Aquila chrysaetos) sobrevoando o Côa.

Vale do Côa próximo a Cidadelhe.


O Vale do Côa constitui um dos locais mais singulares de Portugal: ao reconhecimento nacional e internacional relacionado com a herança de arte rupestre ao ar livre (Parque Arqueológico do Vale do Côa, 1996; Património da Humanidade pela UNESCO, 1998) junta-se uma riqueza natural assombrosa embora poucas vezes enaltecida.
O Vale do Côa é, muito justamente, uma Zona de Protecção Especial para as Aves (Instituto da Conservação da Natureza, 1999) constituindo um importante refúgio para mais de uma centena de espécies. Merece especial destaque, pela raridade à escala europeia, o grupo de aves rupícolas como a Águia-real (Aquila chrysaetos), a Águia-perdigueira (Aquila fasciata) ou o Abutre-do-Egipto (Neophron percnopterus).
Nas margens do rio, livre de barragens, desenvolve-se uma das principais colónias portuguesas de uma planta rara, o Tamujo (Securinega tinctoria) enquanto mais acima, nas encostas, predominam os azinhais (Quercus rotundifolia) e sobreirais (Quercus suber).
Aldeias fortificadas, arte rupestre, espécies raras de fauna e flora numa paisagem preservada como há poucas na Europa: eis o Vale do Côa aqui tão perto...

29 dezembro 2010

Seguimento de duas alcateias durante o ano 2009 (5)

Lobo da Alcateia de Bragança Norte fotografado a meio do dia.


Mamíferos detectados no ano 2009 no território da

Alcateia de Bragança Norte

Espécies

Fotografias

Razão de fotografias

Tendência populacional

Raposa (Vulpes vulpes)

472

52%

Javali (Sus scrofa)

139

15%

Corço (Capreolus capreolus)

14

2%

-

Veado (Cervus elaphus)

95

11%

Gato-bravo (Felis silvestris)

7

1%

-

Texugo (Meles meles)

25

3%

Marta (Martes martes)

25

3%

Fuinha (Martes foina)

2

0%

Lebre-ibérica (Lepus granatensis)

19

2%

Rato-campo (Apodemus sylvaticus)

28

3%

-

Total

900

Tendência populacional de alguns dos mamíferos que compartem o território com a Alcateia de Bragança Norte.


(conclusão)


Discussão

O seguimento ao longo de vários anos de alcateias do Distrito de Bragança permite a aquisição de conhecimentos aprofundados sobre os grupos familiares, a evolução populacional das restantes espécies com as quais compartem o território e os factores de ameaça para a sua conservação.

O ano 2009 foi favorável ao lobo no extremo Nordeste da sua área de distribuição em Portugal. Não só não se verificaram alterações substanciais no território (ausência de incêndios ou de construção de grandes infra-estruturas), como registou-se um aumento das principais presas alvo (nomeadamente o javali e o veado). Desta forma as 2 alcateias estudadas reproduziram-se com sucesso, a apenas 5 km de distância, o que traduz bem a densidade do lobo nesta área.

A tranquilidade da zona de estudo confirma-se igualmente pela actividade frequentemente diurna de ambos os grupos familiares (mais de 40% dos registos de lobo obtidos).

No final de 2009 contabilizavam-se 2 crias de ano em cada uma das alcateias. Este número relativamente baixo talvez possa ser explicado por uma população lupina próximo da capacidade de saturação do meio, visto que não foram identificados factores de ameaça directos significativos.

O facto de duas alcateias contíguas não terem respondido a uivos simulados em 10 ocasiões distintas e próximo ao local confirmado de reprodução coloca em causa a fiabilidade deste método, principalmente quando utilizado de forma isolada no censo da espécie e perante um número reduzido de crias.

Em resumo, a monitorização contínua ao longo de mais de três anos duma área específica do distrito de Bragança permite confirmar a tranquilidade do território, a estabilidade da reprodução do lobo-ibérico e o aumento consolidado das suas principais presas.


Agradecimentos

Agradeço ao Instituto de Conservação da Natureza e Biodiversidade (ICNB) a autorização emitida para a realização do trabalho de campo. Agradeço ao Dr. Luís Moreira o apoio imprescindível e entusiasmo que sempre demonstrou; sem a sua ajuda este trabalho não teria sido possível.


Proximamente

Os dados referentes a 2010 encontram-se já trabalhados e serão revelados brevemente.