18 novembro 2013

Desabafo pela perda de mais um dos lobos portugueses...


A recente morte de um dos exemplares de Lobo-ibérico (Canis lupus signatus), acompanhada por telemetria no âmbito do programa de seguimento da população lupina do Parque Nacional da Peneda-Gerês, representa um acontecimento triste e lamentável para a espécie e para a área protegida.
A sua gravidade é ainda mais relevante pelo facto de se tratar de uma fêmea reprodutora, que este ano tinha tido a sua primeira ninhada. Junto portanto a minha indignação à de outros antes de mim e assino a petição online com o objectivo de pressionar as autoridades competentes a actuar contra a perseguição ilegal do lobo (caso também pretenda assinar tecle aqui).

Há algo que me parece oportuno referir: a zona da Gavieira, onde decorreram os factos, é belíssima e representa um sítio histórico de presença do lobo. Partilha algumas semelhanças com outros locais do país, também de elevado valor paisagístico, onde o lobo ainda ocorre, como o maciço do Alvão, as estribações de Montemuro ou o planalto de Leomil. Nestas áreas foram recentemente rasgadas vias de acesso para a colocação de parques eólicos o que leva a que, infelizmente, a facilitação da acessibilidade a determinados locais remotos potencie a ocorrência de eventos tão tristes como este. Quando documento a actividade do lobo durante o dia no Alvão, quando percorro os sítios de criação da espécie no Montemuro ou em Leomil, ao lado, perto, demasiado perto, passam invariavelmente estradões que servem aerogeradores. E estas vias são utilizadas por todos: por mim, pela população local no seu esforço de sobrevivência diária, por caçadores conscenciosos e por indivíduos de índole duvidosa.
A nossa culpa enquanto sociedade foi, em seu tempo, a de não termos determinado zonas de não-intervenção, locais de dimensão variável onde não pudéssemos edificar, aceder. O que significaria, claro, que Lisboa teria de pagar directamente a estas freguesias pelo menos o mesmo, senão mais, daquilo que as freguesias vizinhas com parques eólicos recebem. Só faz sentido tratar uma doença especifica se o doente, no seu todo, estiver bem; só faz sentido preservar uma espécie se o espaço onde esta vive se encontrar integro, capaz de a acolher.
Foi na Serra da Peneda onde há muitos anos ouvi pela primeira vez os lobos a uivarem. Provavelmente os antepassados da alcateia à qual pertencia a "Bragadinha". A melancolia desse coro acompanha-me hoje na escrita deste texto.

10 comentários:

Anónimo disse...

completamente lamentável

Pedro Durães disse...

Olá Miguel Barbosa,
- Em primeiro lugar deixa-me dizer que concordo em absoluto com tudo aquilo que mencionas-te no texto.
- Como amante da natureza e da montanha em particular, tenho percorrido a pé várias zonas montanhosas em Portugal (sobretudo no norte) e tenho testemunhado desde há uns anos a esta parte uma assustadora "invasão" por parte dos parques eólicos. Já são muito poucas as montanhas onde (ainda) não se encontram instaladas essa autêntica praga. E para ser sincero, mais do que a degradação paisagística de um determinado local (é realmente maravilhoso olhar para a cumeada de uma montanha e vê-la repleta de turbinas eólicas...) o que mais me preocupa são as vias de acesso construídas para esse mesmo efeito. Zonas outrora remotas, quase inacessíveis, tornaram-se hoje em dia locais de autênticas romarias de fim-de-semana. E as áreas protegidas não deveriam ser essas «zonas de não intervenção»? Mas a verdade é que quase todas elas encontram-se completamente cercadas pelos referidos parques eólicos. Os responsáveis alegam que nenhum parque eólico encontra-se instalado dentro de uma área protegida, mas «só faz sentido preservar uma espécie se o espaço onde esta vive se encontrar íntegro». Como se não bastasse a existência de um estradão que rasga todo o belo planalto de Lamas do Vês (local onde foi encontrada a loba), na referida área é permitida a caça associativa. Ironia das ironias, o local encontra-se dentro do território do Parque Nacional da Peneda-Gerês!

Um Abraço,
Pedro Durães

Amilcar Monteiro disse...

Boa Noite,

Concordo com o que disse. Não se entende que no nosso País apenas exista um único Parque Nacional e que dentro deste existam intervenções puramente económicas e muito pior se permita a caça. Temos que conseguir um ordenamento do território onde se defenda a sobrevivencia de todas as espécies. Será que o homem não entende que não sobrevive se irremediavelmente destruir tudo o que o rodeia,
Por favor, continue a divulgar a fauna ibérica.
Amilcar Monteiro

O Burro do Ti Zé disse...

Concordo plenamente, assim como com o comentário anterior.

mviana disse...

E quando determinada serra arde porque os bombeiros não conseguem chegar às chamas, já se queixam de falta de acessos. Não é uma estrada que mata os lobos, são idiotas com armas e venenos. E se os idiotas quiserem chegar aos lobos vão continuar a fazê-lo com estradas ou sem estradas.

Concentrem-se no que realmente os lobos precisam, presas selvagens para não atacarem rebanhos e não haver ressentimento das populações locais.

A situação das alcateias no Montesinho em comparação com o resto do país não surgiu à toa.

Morêda disse...

Concordo com quase tudo o que foi escrito, excepto com o "ataque" aos caçadores. Os verdadeiros caçadores respeitam e protegem o lobo e, inclusivamente, fomentam o aumento das suas presas naturais, os "outros" não podem ser chamados de caçadores e gente mal formada, infelizmente, existem em todas as classes. Na caça, já me deparei, de perto, com um lobo em Bragança e outro em Castro Daire e foram dois momentos que nunca esquecerei!As principais ameaças à espécie, para mim, passam pelos laços, armadilhas e venenos e pelas doenças do coelho-bravo. A boa noticia é que uma das suas presas naturais de maior peso se encontra em franca expansão, o Corço.

Contacto disse...

Caro Miguel Barbosa
O que vê em torno do pescoço é o equipamento de telemetria? Em caso afirmativo parece-me horripilante.
Cumprimentos

Anónimo disse...

É fácil ser a favor dos lobos e ter emprego longe deles, ponham-se no lugar das pessoas que lá vivem, fazendo das tripas coração para comprarem umas cabecinhas de gado e depois vêm os lobos e matam-lhes o gado, se fossem vocês o que é que faziam?

cesar disse...

este ultimo comentario deste anonimo e duma imbecilidade de um egoista o lobo tem o mesmo direito de consiguir alimentar-se que esse sr.anonimo andar de motorisada e comprar roupa e ir ao restaurante

Anónimo disse...

Portugal tem gente nojenta. Odeio-os de morte. Primeiro proíbem nós os montanhistas de ir para o Geres á vontade apreciar a natureza e acampar (ao contrário de outros países da Europa onde é permitido acampar na floresta), mas depois os porcos dos caçadores andam lá. Vou abrir a época de caça aos caçadores, na tropa eu tinha boa pontaria e continuo a ter.