10 agosto 2006

O fim da Mata do Ramiscal


Fotografias recentes do Vale do Ramiscal revelavam a diversidade de habitats: o bosque caducifólio, os prados de altitude e as encostas escarpadas.

Hoje é um dia particularmente triste para a Conservação da Natureza em Portugal. Uma das poucas florestas autóctones que ainda existiam no nosso país, a Mata do Ramiscal, integrada no Parque Nacional da Peneda-Gerês, foi na sua maior parte destruída pelo fogo. Enquanto escrevo estas linhas (noite de 10 de Agosto) Azevinhos (Ilex aquifolium) centenários são consumidos pelas chamas.
O Vale do Ramiscal é um vale remoto do Alto Minho com cerca de 10 quilómetros de extensão que se dispõe no sentido Este-Oeste. A maior parte da sua área está protegida legalmente pelo máximo estatuto de protecção ambiental, o de Parque Nacional.
A Mata do Ramiscal estendia-se ao longo da margem esquerda do rio e era formada sobretudo por exemplares de Carvalho-alvarinho (Quercus robur) de grande porte e pelos supra-citados azevinhos. Neste local deambulava o Lobo-ibérico (Canis lupus signatus), a Águia-real (Aquila chrysaetos) cruzava assiduamente os céus e o Gato-bravo (Felis silvestris) refugiava-se no mais espesso do bosque.
Seria difícil encontrar uma maior diversidade e riqueza natural no nosso país. Nos últimos dois dias tudo isto desapareceu! A Mata do Ramiscal morreu! O solo carbonizado estende-se do rio até ao ponto mais alto da Serra do Soajo. A Natureza lusa está de luto, o Parque Nacional da Peneda-Gerês nunca mais será o mesmo, a minha tristeza é imensa...

21 comentários:

tikka masala disse...

Miguel, sou uma simples amante da natureza sem os seus conhecimentos científicos e desde já lhe dou os meus parabéns pela iniciativa deste blog e pelos seus textos, que hoje li pela primeira vez, em virtude da divulgação que deles fez o Grupo Lobo. Revoltam-me os atentados à escassa natureza que ainda existe neste país e as suas palavras comovem-me muito. Estou triste também, sobretudo porque o Gerês arde há cinco dias e os estragos são irreversíveis. Vêm-me lágrimas aos olhos só de pensar no sofrimento dos animais, na destruição que podia e deveria ter sido evitada, na enorme perda que isto representa para o ambiente.

solas_na_mesa disse...

no inverno passado caminhei bastante pela mata do ramiscal, tanto nas cotas mais baixas como nas mais altas. Estou tão triste com esta notícia que acho que tão cedo não volto ao gerês.

Vi um director do parque a falar na sic acerca do incendio. o que ele disse foi que não era muito grave porque não era uma àrea de resinosas.
Por um momento pensei que fosse uma ironia, mas o homem disse mesmo aquilo.
Não é de estranhar de facto o abandono que o parque tem sofrido.

Ricardo
http://solasnamesa.blogspot.com/

ljma disse...

Estamos todos de luto.

Paulo Sempre disse...

Faz o que eu digo mas não faças o que eu faço. É a politica do Estado português...

Henrique Pereira dos Santos disse...

Pessoalmente já li vários destes obituários.

Muito bem escritos, muito emotivos, mas... basicamente errados.

A mata do solitário, a mata da margaraça, a mata do cabril, todas elas já tiveram obituários destes.

E todas elas se mostram hoje pujantes, podendo mesmo dizer-se que poderiam fazer suas as palavras de mark twain ao ler a notícia da sua morte num jornal, notícia que o próprio considerou manifestamente exagerada.

Na verdade a destruição física das plantas (e nem sequer estou a discutir qual é o grau de afectação física, que não faço ideia) não corresponde imediatamente à destruição biológica das matas. Aliás a verificação da afectação biológica só pode ser feita na próxima Primavera e as chuvas de ontem e hoje serão um forte impulso à recuperação rápida.

Bem longe de haver qualquer correspondência entre afectação física pelo fogo e afectação biológica é o que demonstram todos os estudos que conheço de dinâmica após fogo que foram feitos em Portugal.

Algumas das espécies citadas, até provavelmente beneficiarão com o fogo (veja-se o comentário de Paulo Fernandes, um dos maiores especialistas de fogo em Portugal, neste link http://ambio.blogspot.com/2006/08/runa-das-jias-da-coroa.html#comments ).

Outras, como o lobo, poderão ser prejudicadas (pessoalmente não estou convencido disso, mas veremos o balanço a fazer daqui a algum tempo)

henrique pereira dos santos

ljma disse...

Henrique Pereira dos Santos, devemos concluir do seu post que o Henrique acha que não vale a pena o esforço de apagar fogos nas áreas protegidas? Claro que não! Devemos então concluir que o Henrique não compreende a tristeza que sentimos ao ver desaparecer, mesmo que "apenas" por vinte ou trinta anos, um local que apreciamos? Suponho que não, também. Que devemos então concluir do seu post?
Diga o que disser, Henrique, eu fico triste com estas coisas. Mesmo não sendo um especialista, acho que há razões para isso.

Henrique Pereira dos Santos disse...

Com certeza que compreendo a tristeza e uma área ardida é desoladora imediatamente após o fogo, sendo aparentmente uma área de morte e desespero (na realidade milhares de plantas e outros organismos continuam vivos apesar das suas partes aéreas queimadas, o que aliás, com esta chuva, pode ser verificado dentro de quinze dias, mas mais espetacularmente a partir de Maio do ano que vem).

O que devemos concluir é o mesmo que devemos concluir da fábula do pastor que estava sempre a gritar "vem lobo, vem lobo" na brincadeira e que perdeu o seu rebanho quando ao gritar "vem lobo" a sério ninguém acudiu.

Há problemas de conservação associados aos fogos, mas são, com excepções pontuais, problemas marginais.

O fogo constitui um retardante da recuperação dos sistemas naturais a que estamos a assistir (o fogo é mesmo um dos sintomas dessa recuperação) e portanto evitá-lo em algumas circunstâncias é útil.

Mas como será absolutamente impossível evitá-lo sempre e em todo o lado (entre outras razões pela afectação de meios que isso implica, meios que terão de ser desviados de outras prioridades de conservação) e mesmo que o conseguíssemos por algum tempo isso implicaria um maior risco de fogos de grandes dimensões ao favorecer a acumulação de combustível, é preciso que discutamos em concreto que fogos queremos evitar, que meios isso implica e, sobretudo, que medidas de gestão de combustíveis devem estar associadas.

Dramatizar perdas que efectivamente são muito menores do que parece à primeira vista não tem outra utilidade que não seja impedir a discussão racional da gestão dos recursos afectos à conservação, desiquilibrando ainda mais a sua utilização a favor de uma política de prevenção e combate a incêndios que já hoje retira a outras prioridades de conservação recursos excessivos, sem grande utilidade social.

henrique pereira dos santos

Paulo Almeida Santos disse...

Não posso, na verdade, deixar de ficar algo indignado, com a apologia do fogo nas áreas naturais feita aqui por Henrique Pereira dos Santos (HPS)…
Em primeiro lugar, gostaria de lembrar que estamos a falar concretamente do Parque Nacional da Peneda-Gerês (PNPG), pertencente à área Eurosiberiana (e não Mediterrânica) e cujos biótipos são caracterizados por bosques de carvalho (carvalho-alvarinho e carvalho-negral), bem como outras espécies arbóreas, das quais destaco o azevinho, a bétula e o teixo. Esta é, de facto, a vegetação autóctone característica do PNPG que, séculos após séculos, tem vindo a sucumbir à mercê dos cortes de madeira em massa e dos incontroláveis incêndios. Esta perda gradual de habitat foi responsável pela extinção, no passado, de espécies tão importantes com o Urso-pardo e o Galo-montês, assistindo-se no presente ao apertar do cerco às espécies de vertebrados que dependem do bosque para alimento e refúgio, das quais destaco a Marta, que mantém nesta área uma população altamente vulnerável.
Na referência de Miguel Barbosa à Mata do Ramiscal (e não Mato do Ramiscal!), a tónica é colocada na perda irreparável de um valiosíssimo bosque autóctone, maduro, formado por carvalhos e azevinhos centenários cuja regeneração, a acontecer, demorará muitas décadas até atingir o estadio prévio aos incêndios.
HPS faz no seu comentário referência à regeneração “pujante” da Mata do Cabril… Erro elementar… Outrora um bosque caducifólio imponente, após ter sido fustigado por um violento incêndio na década de 80, transformou-se no presente num imenso urzal, impenetrável, estando os carvalhos remanescentes confinados a pequenas bolsas isoladas junto ao rio Cabril. As vertentes escarpadas do vale, uma vez livres do arvoredo, deixaram escapar o solo fértil que as cobria, transformando-se em enormes cascalheiras. O impacto na fauna, como devem imaginar, foi irreparável…
A alusão ao comentário elaborado por Paulo Fernandes no blog Ambio parece-me perfeitamente desajustada, tendo em conta que este se refere concretamente à área bioclimática mediterrânea onde, de facto, os matos têm um lugar importante. Estabelecer um paralelismo com a realidade do PNPG é, no meu entender, algo abusiva, para não dizer imprecisa.
Por último, faço referência à fauna implicada nesta catástrofe, que HPS considera não ter sido gravemente prejudicada! Como é possível não o ser??? Depois de uma semana a arder em contínuo, com múltiplos focos de incêndio em simultâneo… Quantos corços, raposas, ginetas, lobos, coelhos terão perecido face ao avançar das chamas? Muitos certamente… O que terá acontecido ao ameaçado gato-montês filmado pelas nossas câmaras fotográficas automáticas na noite anterior ao grande incêndio? (ver http://montanhasibericas.blogspot.com/2006/08/natureza-em-directo-09082006.html) Espero, sinceramente, que se tenha safado…
Por todos estes motivos, não “compro” a história do “Fogo Amigo” contada aqui por Henrique Pereira.
Corroboro por completo o texto “muito emotivo” de Miguel Barbosa (justamente destacado no editorial do Público do passado dia 17), que retrata a perda irreversível de uma área natural única, por nós percorrida vezes sem conta nos últimos anos e que agora se mostra cinzenta, estéril e abandonada.

Henrique Pereira dos Santos disse...

Caro Paulo Almeida Santos,

Eu não fiz qualquer apologia do fogo nas áreas protegidas, o que fiz foi procurar dar ao problema do efeito do fogo no património natural a dimensão que penso que tem.

Não vale a pena indignar-se só porque tenho uma opinião diferente da sua: se eu não tiver razão, a indignação não vale apena porque vozes de burro não chegam ao Céu; se eu tiver alguma razão, a indignação não ajuda a discussões racionais.

A distinção que faz entre a região biogeográfica mediterrânica e atlântica para este efeito é muito pouco relevante: a dinâmica de sistemas de todas as serras do Noroeste é muito semelhante.

Por uma questão de precisão, a mata do Cabril não ardeu violentamente nos anos 80, mas sim em 1996 ou 1997 (não me lembro) e não ardeu toda. talvez seja útil comparar as fotografias aéreas dos anos 40, 50 e por aí fora até hoje para se ter a percepção da sua evolução.

Não percebo por que razão reduz a diversidade do Gerês, que varia de elementos tipicamente mediterrânicos até elementos mais atlânticos e de Montanha, mas devo dizer que a história que traça da evolução da sua vegetação está muito pouco demonstrada, nomeadamente a afirmação de que se continua num processo de degradação da vegetação autóctone (dê-se uma volta pela encosta de vilarinho da Furna), como alíás demonstra a progressiva recuperação do corço, do esquilo e do lobo.

Chamar para aqui o Urso parece-me claramente excessivo.

Quem está em maior dificuldade são de facto os grandes predadores dependentes da clareira, como a águia real, porque a pujante recuperação da vegetação a que se assiste nos últimos cinquenta anos está a diminuir as suas presas.

Quanto aos bichos que terão morrido parece-me uma coisa misteriosa. Alguém acredita que um gato bravo fica à espera de esturricar num incêndio, ou que o incêndio o ultrapassa? Esquecem-se com certeza do fenómemo descrito na bibliografia das rapinas em voo na frente de fogo exactamente a aproveitar a fuga de presas para que nessas circunstâncias são mais fáceis de caçar.

Eu sei que o que digo é chocante para muita gente, mas isso não significa que não esteja certo.

Volto a dizer esperemos para ver.

Não se esqueça que se a mata do Ramiscal existe é exactamente por ter resisitido milhares de anos à progressiva ocupação do espaço pelo pastoreio e pela agricultura, actividades claramente em retracção.

henrique pereira dos santos

Paulo Almeida Santos disse...

Caro Henrique Pereira dos Santos:

Relativamente à sua resposta, permita-me tecer algumas considerações:

1 - Como deve saber, a área do PNPG marca, sem dúvida, o limite sul da região Eurosiberiana. Pertence, mais concretamente, à subprovíncia Astur-Galaica (sector Galaico-Português), onde se insere igualmente a região ocidental da Cordilheira Cantábrica. Convido-o a percorrer os extensíssimos bosques caducifólios do Alto Sil, Degaña, Munielllos (entre outros), que albergam no seu seio riquíssimas comunidades de vertebrados e plantas, e onde o fogo é visitante esporádico. Tal como o Gerês, caracterizam-se por áreas declivosas, com características climáticas muito semelhantes e onde o pastorícia é a principal actividade das populações. O resultado é diametralmente oposto. Tudo aqui se processa de uma forma sustentável. É este o modelo que eu gostaria de ter para o nosso Parque Nacional.

2 - Na verdade, a Mata do Cabril ardeu nos anos 90 e não nos 80 como erradamente referi. No entanto, reafirmo aquilo que escrevi: a perda do carvalhal foi bastante significativa, a erosão das encostas envolventes é desoladora e a proliferação dos matos altos tomaram conta do vale. Tudo isto, como é óbvio, são constatações feitas por mim no local. Posso dizer-lhe que, neste momento, os trilhos que dão acesso ao vale estão definitivamente ocultados pelo “pujante” giestal que prolifera em todo o Cabril.

3 - Quando fala na presença de vegetação autóctone nas imediações de Vilarinho das Furnas, penso que se refere à Mata de Albergaria, um pouco mais a montante no vale do rio Homem. Trata-se, na verdade, de um pequeno oásis, transformado progressivamente numa “relíquia paleontológica”, só para lembrar ao visitante mais atento o ecossistema primitivo do Parque. A encosta de Vilarinho propriamente dita é uma desolação, tal a frequência de incêndios que se têm abatido sobra ela, ano após ano. Ainda há poucas semanas um novo fogo varreu a encosta, ameaçando inclusivamente os limites de Albergaria junto ao vale de Gramelas. A própria Serra Amarela debate-se, no presente, com a colonização das extensas áreas ardidas no passado recente, por uma planta infestante pirófita muito difícil de erradicar. Já para não falar no “bosque” de acácias que cresce, vigoroso, encosta acima em direcção a Albergaria. Como é compreensível, o fogo abriu as portas a estas ameaças, que mancham indelevelmente o património genético vegetal do parque. Havendo bosques primitivos maduros, estas espécies jamais teriam hipóteses de vingar.

4 - Quanto à recuperação do lobo, penso que não será correcto falar de uma expansão da sua população nos últimos anos, pelo menos no que toca à existente a norte do Douro. Falaria, antes, de uma estabilização do número de indivíduos. Por outro lado, como saberá também, o lobo é das espécies mais facilmente adaptáveis aos diferentes ecossistemas, sendo a acção directa do homem o principal factor limitante à expansão da sua população.
O aparecimento de uma população de esquilo em Portugal advém da expansão natural da população de espanhola (e não por haver especiais potencialidades no nosso país) o que, aliado à escassez de predadores naturais, faz com que esta espécie tenha atingido uma posição estável.
Quanto ao corço, não conheço muitos dados para contrapor a sua afirmação. Sei, no entanto, que graças ao lobby da caça, várias reintroduções têm sido feitas em todo país, o que desvirtua um pouco o argumento da expansão natural da espécie.
Falando da Águia-real, vamos analisar a evolução da sua populção nas serranias do Noroeste português: o casal do Alvão desapareceu há décadas; o do Marão extinguiu-se há meia dúzia de anos; os do PNPG foram sendo riscados do mapa ao longo das últimas décadas, até à infeliz situação de pré-extinção que se vive hoje em dia… Um factor comum em todos estes sítios é a presença de fogos, ano após ano. Será coincidência?

5 - Pelo que tenho lido das intervenções do Henrique a este respeito, vejo que tenta analisar esta problemática numa perspectiva longitudinal em relação à variável tempo. Visto isto, não entendo porque classifica de excessivo, o exemplo apresentado da extinção do Urso no PNPG. Esta está inegavelmente associada, entre outros factores, a uma perda de habitat favorável para a espécie. Vejamos a situação inversa: o status actual da população cantábrica da espécie mostra francos sinais de crescimento à custa da recolonização de novos territórios caracterizados por amplas massas de bosque, que lhes serve de alimento, refúgio e corredor biológico.

6 - Em relação aos animais vítimas do fogo, espero que a sua visão optimista se confirme, principalmente no que diz respeito às jovens crias dos diferentes mamíferos, nascidas na passada primavera, ainda pouco habituadas a estas agressões. De qualquer forma, o habitat nativo ficou irremediavelmente danificado. Coloca-se agora a questão para os sobreviventes: que território ocupar? Aceitam-se sugestões…

Henrique Pereira dos Santos disse...

Caro Paulo Almeida Santos,

Pensei que estivéssemos a discutir a realidade e a forma de actuar sobre ela, mas pelos vistos enganei-me.

Pretender que o Gerês está mais próximo dos montes cantábricos que do Marão/ Alvão só porque existe uma classificação geográfica que o diz não lembra a ninguém.

Talvez não seja mau fazer notar que os montes cantábricos sempre foram muito pouco povoados, que não sofreram a revolução do milho, que têm um clima e uma geologia substancialmente diferentes das do Gerês, que têm as suas cotas mais baixas a mais de 700 metros, que quase não têm área agrícola e que de há um século para cá vivem essencialmente da exploração mineira e não da agricultura (que nunca viveram), nem da pastorícia.

Confundir isto com o Gerês (neste caso, mais precisamente com a Peneda), como digo, põe-me imediatamente fora da discussão.

Da mesma forma negar a recuperação da encosta de Vilarinho da Furna (não, eu não confundo a encosta de Vilarinho com a Mata de Palheiros/ Albergaria), não a ver, também me põe imediatamente fora de qualquer discussão, porque a partir dessa negação nenhuma das suas observações é aceite por mim sem verificação.

Assim sendo, e com pena minha, deixo-vos com as vossas opiniões sobre o fogo e as dinâmicas de sistemas naturais e vou pregar a outra freguesia onde a realidade seja menos filtrada por preconceitos ideológicos.

É possível que a razão esteja do vosso lado, mas como não existe qualquer ponto de contacto entre os factos que reconhecem como verdadeiros para suportar as vossas opiniões e os factos que eu elejo como verdadeiros para suportar a minha opinião, não há discussão útil possível.

henrique pereira dos santos

Paulo Almeida Santos disse...

Caro Henrique Pereira dos Santos:

Depois de ler as suas últimas palavras, só posso chegar a uma conclusão: o Henrique não conhece o terreno… Talvez, se o conhecesse, a sua opinião fosse diferente.

E assim vamos vivendo neste autêntico marasmo…
As Áreas Naturais continuam abandonadas, fragmentadas, à mercê de fogos incontroláveis, rasgadas por estradões e sem qualquer tipo de vigilância eficaz, sendo geridas, em muitos casos, por pessoas sem qualificação, ao abrigo de uma suspeita nomeação governamental.
No topo hierárquico de toda esta trapalhada, encontramos o moribundo Instituto da Conservação da Natureza (ICN), onde, no meio de algumas pessoas válidas, existem grupos de “pseudo-técnicos”, refugiados atrás das suas secretárias em Lisboa, vendidos aos interesses de grupos económicos ou do poder autárquico, a quem está entregue a Conservação da Natureza em Portugal. É graças a este grupo de iluminados que estamos nesta situação lastimável…

Posto isto, não lhe vou pedir que “arrume as botas”! Pelo contrário. Equipe-se, pegue nos binóculos e confronte, in loco, tudo aquilo que tem defendido ao longo destas linhas com a realidade que se lhe vai deparar. Tire as suas conclusões, isentas… Talvez, nessa fase, poderá estar à altura desta discussão…

Henrique Pereira dos Santos disse...

Caro Paulo Almeida Santos,

Conhecerá com certeza muito melhor o terreno que eu e eu não estarei a altura da discussão porque faço parte dos tais pseudo-técnicos vendidos aos interesses.

Mesmo assim peço-lhe que faça uma coisa: pegue numa fotografia aérea dos anos 40 ou cinquenta (existe uma da RAF se não me engano de 46 e existe outra americana de 1958 e compare a encosta de Vilarinho com uma fotografia aérea actual.

Tire daí as conclusões que entender.

henrique pereira dos santos

medronho disse...

Olá,

Não tens FOTOS da área ardida?
Devo ir lá na próxima 4ª feira...Quero ver in loco o que se passou. Não sei se a área ardida chegou ao Alto da Pedrada...
É triste ver um património natural todo destruído.
E já agora, podem ver a reportagem no Público (20/8) sobre a Mata do Ramiscal.

http://umpardebotas.blogs.sapo.pt

Henrique Pereira dos Santos disse...

Já agora, vindo dos tais iluminados vendidos aos interesses, transcrevo o essencial de uma nota de imprensa do ICN que é relevante para a discussão que aqui se pretendeu que existisse.

Repare-se como o incêndio de Vilarinho da Furna foi aqui referido por Paulo Almeida Santos e como ele é aqui descrito. Sem discutir quem tem razão sobre as causas deste incêndio, e sabendo da feroz oposição à abertura de acessos (que genericamente partilho), como se pretende resolver situações destas num quadro de progressiva acumulação de combustìvel?

henrique pereira dos santos

Informação para a Imprensa – 17 de Agosto de 2006

INCÊNDIOS RURAIS EM ÁREAS PROTEGIDAS

Ponto de situação relativo ao período 15 de Julho a 15 de Agosto de 2006
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A avaliação preliminar dos efeitos do incêndio iniciado em 6 de Agosto e que atingiu o Parque Nacional da Peneda-Gerês (PNPG) entre 8 e 15 de Agosto revela que foram afectados mais de 3 mil hectares, o que corresponde a 4 % da área total desta Área Protegida (69.693 hectares). Este incêndio, que teve início a 4 km do Parque, entrou na área protegida passados três dias, já com três frentes de incêndio, cada uma com cerca de 1km.
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A maior parte da área ardida é composta por matos utilizados para pastorícia. Também foi atingida a mata do Mezio, uma mancha de resinosas (pinheiros e Chamaecyparis) em mosaico com folhosas (vidoeiros) e a Reserva Integral do Ramiscal. Esta reserva, composta essencialmente por carvalhos e azevinhos, é uma das áreas mais importantes do Parque em termos de biodiversidade. A observação no local indica que a maioria dos carvalhos poderá ter resistido ao incêndio, o que permite neste momento expectar uma recuperação rápida (2 anos). Foi perdido um número significativo de azevinhos. O Ramiscal é refúgio para uma águia-real. A observação da área ardida revela que as áreas onde esta espécie procura alimento mantêm-se intactas.
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Este ano, já ocorreram 65 incêndios no Parque Nacional com origem dentro da área do Parque, tendo quase todos sido rapidamente extintos pelas equipas de 1ª intervenção do PNPG e brigadas de sapadores, que limitaram a zona ardida de cada incêndio a menos de 2 hectares. Registam-se duas excepções: o incêndio na barragem de Vilarinho da Furnas, causado por um relâmpago que atingiu uma zona escarpada de muito difícil acesso, e no qual arderam 300 hectares; e o incêndio na Ermida, no qual arderam mais de 100 hectares.
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Estes dois incêndios, respectivamente na Peneda-Gerês e nas Serras de Aire e Candeeiros, são as situações relevantes de incêndios em Áreas Protegidas entre 15 de Julho e 15 de Agosto.

Todavia, registou-se, desde o início do ano um total de 297 incêndios em Áreas Protegidas, tendo ardido 9.068 hectares. Em 80% das ocorrências, a área ardida foi inferior a 2 hectares, valor que reforça o papel determinante das equipas de vigilância e de 1ª intervenção e das brigadas de sapadores.
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Gabinete de Comunicação do ICN

jacinto disse...

Boa Noite! como residente em Arcos de Valdevez e uma pessoa que adora montanha,apesar de ser um leigo na área da biologia/ecologia, nao podia deixar de contribuir com um comentário acertado ou não. Tenho 27 anos e sempre conheci o mesio e a serra do soajo-peneda desde pequeno, como eram há 15 diads atrás! Vi pela primeira vez na minha vida, no mesio mais exactamente no caminho de pé-posto da travanca à vertente norte do guidão um corço no meio de um verde ...espectacular...dia 20 de Agosto decidi fazer uma caminhada no mesmo trajecto, só vi negro, tudo negro, subi ao marco geodésio so guidão, e ver que tudo em redor está calcinado........é muito triste mas infelizmente uma realidade, agora interessa é ajudar a melhorar, para que situações destas nao aconteçam nunca mais!!!

Jacinto disse...

Já agora alguém me pode dar algumas indicaçoes acerca do fojo do Soajo e dos outros três que existem na serra da Peneda Soajo? apesar do seu objectivo, gostava de saber mais coisa s acerca deles tipo quando foram construidos, etc? podem indicar biblio, etc !! obrigado

zbiry disse...

O que está em causa é que este país não consegue conservar uma área única pela sua riqueza natural estando esta ao abrigo máximo da lei no que respeita à proteção de áreas naturais. A mata do Ramiscal defenivamente MORREU . Pena é também não morrerem as pessoas que têm responsabilidades directas na ocorrência desta enorme tragédia.

Anónimo disse...

Olá, passados dois anos e meio desta triste notícia; estive no Ramiscal, sei que se perderam bastantes azevinhos, gostaria de saber, da parte do Henrique, como ele pensa que poderemos voltar a ter azevinhos no Ramiscal, devido à sua idade e porte eram praticamente únicos em Portugal; bem sei que a maior parte dos carvalhos sobreviveram (que eu conheça, carvalhos e sobreiros são as árvores que mais resistem ao fogo); mas está tudo coberto de giestas, e receio bem que as infestantes possam vir a dominar este vale. O Mezio, esse, recuperou do fogo, mas agora tem um inimigo bem mais persistente - o homem - vamos ter um campo de golfe no nosso único Parque Nacional; eu devo ser meia pateta, mas não é proíbido construir em zonas protegidas, como é o PNPG?

Joao Dias disse...

Viva,
Antes de mais deixe-me felicita-lo pelo excelente trabalho aqui postado!
O blogue já está nos meus favoritos!

Eu conheço a fundo a mata do Ramiscal,tanto nas cotas altas como nas baixas.

É com enorme tristeza que leio alguns comentários ao seu excelente post,penso que a maioria dos que que dão opinião sobre este assunto não conhecem o terreno.

Tive oportunidade de informar as autoridades,ICNB,PNPG,DGF,através de Email,da total destruição no terreno que o incêndio provocou,na altura,ao que responderam,passados dias, acusando a minha preocupação em relação ao sucedido e que estavam ao corrente de tudo.

Passados estes anos todos,e visitando eu o local todos os anos,verifico que nada foi feito em relação ao sucedido.

Tenho vindo a escrever num blogue, http://trutaseserras.blogspot.com
e muito antes de conhecer o Seu trabalho,sobre este assunto,dando a conhecer a minha revolta e tristeza pelo sucedido.

Como disse atrás,todos os anos visito o Ramiscal.Este ano estou a prever fase-lo em Junho,se por ventura me quiser acompanhar,seria um prazer para mim,o meu email é ponteneiva@sapo.pt.
Cumprimentos,
João Dias

Rui Faria disse...

Apesar de já se ter passado alguns anos a realidade desta situação não mudou, muito resumidamente, valem as declarações do Paulo,porque apesar dos fogos serem uma constante nos ecossistemas mediterrânicos,em menor parte, atlânticos; hoje é importante que estes se mantenham longe dos últimos bosques ou bosquetes sobreviventes.
Porque incêndios há muitos,em demasia ,onde apesar de não conhecer todos os recantos do país posso afirmar com certeza que praticamente todo o país desde o nível do mar até ás montanhas mais altas já foi percorrido pelo fogo, na sua grande maioria de origem negligente e criminosa, mas isso já é sabido.
Quanto aos bosques, meu caro amigo Henrique, esses são praticamente enixestentes e difíceis de encontrar num estado bem conservado, e em quase todos onde estive , haverá sempre algum "maluco a espetar-lhe uma foice no tronco".
Só haverá mão firme nestes incêndiários (directa e indirectamente falando) quando houver um massacre de humanos mortos cruelmente pelas labaredas,algo que não está muito longe de acontecer, basta haver um pequeno descuido."O rastilho está montado".Qunto a esses tipos que andam atrás das secretárias na mama, deviam ter vergonha na cara,por colocarem interesses económicos á frente de um futuro risonho e feliz.
Excelente blog,Até breve