19 dezembro 2008

Águia-real nas montanhas do Gerês/Xurés: precisa-se de uma estratégia concertada entre Portugal e Espanha



Fotografias retratando o o trabalho de reforço populacional de Águia-real (Aquila chrysaetos) no Parque Natural Baixa Limia - Serra do Xurés (fotografias: GREFA, Grupo de Rehabilitación de la Fauna Autoctóna y su hábitat).

Mapa de localizações GPS de exemplar de Águia-real (Aquila chrysaetos) libertada em 2008 no Parque Natural Baixa Limia - Serra do Xurés obtido graças a um emissor transportado pela ave. Há 3 semanas este animal foi encontrado ferido na província de Salamanca, com a asa esquerda fracturada após ter sido vítima de disparos  (fotografias: GREFA, Grupo de Rehabilitación de la Fauna Autoctóna y su hábitat). 

No Parque Nacional da Peneda-Gerês e no vizinho Parque Natural de Baixa Limia - Serra do Xurés galego a população de um dos principais predadores europeus, a Águia-real (Aquila chrysaetos), encontra-se à beira da extinção. Desde o início do século XX que nesta área protegida transfronteiriça com cerca de cem mil hectares de extensão, representativa das montanhas do Noroeste ibérico, deambula de maneira permanente apenas um único exemplar. Com vista a contrariar a situação de extinção biológica (sem capacidade de reprodução em condições naturais) os nossos vizinhos galegos iniciaram em 2001 um programa de reforço populacional/reintrodução de águia-real. Com o auxílio do GREFA (Grupo de Rehabilitación de la Fauna Autoctóna y su hábitat) procederam à libertação no espaço natural galego, a menos de 5 km da fronteira portuguesa, de 7 crias de águia-real.
Cronologicamente a solta exemplares decorreu da seguinte forma:
  • 2001: 1 cria de águia-real nascida em cativeiro no GREFA é colocada aos 60 dias de vida numa plataforma artificial em pleno Parque Natural Baixa Limia - Serra do Xurés, iniciando os primeiros voos cerca de 20 dias mais tarde;
  • 2002: 1 cria de águia-real nascida em cativeiro no GREFA é libertada no mesmo local;
  • 2003: 1 cria de águia-real também nascida em cativeiro é solta nas mesmas condições;
  • 2006: 2 crias de águia-real disponibilizadas pelas Juntas de Castilla La Mancha e Extremadura são libertadas na mesma plataforma-ninho;
  • 2007: 1 cria de águia-real, desta feita nascida em cativeiro no GREFA (baptizada "Lobios") é solta no Sudoeste da Galiza
  • 2008: 1 cria de águia-real nascida em cativeiro no GREFA (baptizada de "Eufemia") é libertada numa zona nobre do Parque Natural de Baixa Limia - Serra do Xurés.
Infelizmente e até à data os resultados não têm sido animadores. Com efeito pelo menos um dos animais libertados foi encontrado morto na fase de dispersão juvenil. Já este ano a aclimatação e os primeiros voos de Eufemia tinham decorrido conforme o esperado, com incursões nos vales graníticos dos nossos Parque Nacional da Peneda-Gerês e Parque Natural do Alvão, e início do período de dispersão que a levou a atravessar todo o Norte de Portugal até se estabelecr numa zona de grande densidade de Coelho-bravo (Oryctolagus cuniculus) a 20 km a Sul de Salamanca. No dia 20 de Novembro e porque o animal permanecia imóvel há um período considerável de tempo de acordo com o emissor GPS a equipa de seguimento aproximou-se da ave e constatou que se encontrava ferida, com a asa esquerda fracturada vítima de disparos de arma de caça. Foi transportada para as instalações do GREFA nos arredores de Madrid onde actualmente se encontra a recuperar.
O programa de reforço populacional/reintrodução  de águia-real nas montanhas da Peneda e Gerês/Xurés deve constituir um desígnio das entidades responsáveis pela Conservação da Natureza portuguesas e galegas, por vários motivos mas principalmente porque tratando-se de áreas protegidas (do lado português é mesmo a principal área protegida do país) não é admissível aceitar-se passivamente a extinção de um super-predador por causas antrópicas com a consequente perda de diversidade biológica e de equilíbrio do ecossistema. Este esforço contudo tem que ser coordenado entre os 2 países e assumido de forma plena. 
Numa medida plena de oportunidade o Parque Nacional da Peneda-Gerês colocou a funcionar um alimentador para aves necrófagas ao longo de 2008, esforço que porventura deveria ser alargado a outros locais nomeadamente ao Parque Natural Baixa Limia - Serra do Xurés. Por outro lado numa ave longeva como a águia-real é do maior interesse reduzir a mortalidade de efectivos o que apenas se consegue com a presença de equipas especializadas na luta contra o veneno em ambos os países (este constitui um autêntico flagelo nestas serras sendo habitualmente colocado para atingir outro super-predador, o Lobo-ibérico (Canis lupus signatus)). Finalmente é urgente a libertação de mais exemplares de águia-real a cada ano: a solta de apenas um exemplar é manifestamente insuficiente atendendo à elevada taxa de mortalidade associada ao perigoso período de dispersão juvenil. A experiência internacional demonstra que as probabilidades de êxito de um programa de reintrodução de águia-real aumentam com a libertação de pelo menos 4 aves/ano em vários anos sucessivos. Apelo portanto aos nossos amigos galegos para que o insucesso que rodeou a libertação de Eufemia apenas os motive para a introdução já em 2009 de um maior número de aves. Apelo também às entidades portuguesas, nomeadamente ao Ministério do Meio Ambiente, Ordenamento do Território e Desenvolvimento Regional e ao Instituto da Conservação da Natureza e Biodiversidade para que não poupem esforços e recursos na salvação da águia-real no único parque nacional português: esse seria um óptimo investimento no futuro do país... 

19 comentários:

Tiago Rocha disse...

Concordo perfeitamente.É de elogiar esta atitude dos espanhois, aliás ja não é a primeira vez, com varias especies ibéricas têm feito estas reetroduções. Pena que no nosso país isto não se suceda.

Anónimo disse...

espécies ibéricas deixarão de existir em Portugal enquanto formos portugueses...

Rui Pedro Lérias disse...

Antes da reintrodução é necessário avaliar se existe habitat de qualidade suficiente para sustentar uma população.

Porque se extinguiu a população do Gerês?

Porque se instalou em Salamanca e não no Gerês a ave que foi mais tarde ferida?

Se não houver habitat, não adianta estar a libertar aves sem primeiro fazer gestão de habitats no terreno.

Tanta pergunta por responder!

Mas claro que seria fantástico que a população de águia-real no PNPG viesse a crescer substancialmente.

Já agora, descobri este blog há duas semanas e tenho estado a ler todo o seu acervo. E, meu caro, blog fantástico, estás de parabéns. Muito obrigado pela tua partilha, pelo teu entusiasmo contagiante, pelos posts originais e trabalho de campo. Tanta coisa que já descobri neste blog por ler a experiência de alguém que anda no campo e partilha o seu conhecimento.

Excepcional.

Um abraço

miguelbarbosa disse...

Olá Rui. Muito obrigado pelos comentários que fez em relação ao blog. Fico contente quando o meu trabalho contribui para que outros se aproximem um pouco mais da nossa Natureza.
Votos de festas felizes e que, apesar de todas as vicissitudes, em breve a Águia-real possa regressar ao Parque Nacional da Peneda-Gerês. Tenho a certeza que é também o desejo dos funcionários do Parque. Oxalá os decisores políticos criem as condições para esse acontecimento.

Anónimo disse...

Pois a mim não me parece que deva ser a direcção a tomar. Os ecossistemas do gerês, como grande parte do Norte de Portugal, estão lentamente a evoluir para carvalhais. Principalmente nas zonas mais altas, acima do limite das exóticas (acácias e eucaliptos), onde a ocorrência de geada é um factor limitante para estas invasoras. Estes estádios sucessionais levam ao desaparecimento de muitas espécies que têm como espaços abertos o seu habitat, entre estas, a águia-real. Por outro lado, espécies florestais, como o esquilo ou a marta, beneficiam desta evolução natural e são alguns dos sinais de mudança que deveriam ser reconhecidos. Infelizmente essa percepção não parece existir nas autoridades galegas e ano após ano insistem em projectos e acções com resultados, no mínimo, discutíveis. Pode-se sempre argumentar que há envenenamento, que as causas do insucesso se devem à acção do Homem,etc., mas será mesmo assim? Há mais veneno no gerês do que em Castelo Branco? Há mais caçadores no Gerês do que no Tejo Internacional? A mim não me parece, mas é só uma opinião.
Por outro lado, não me parece que faltem juvenis de águia-real e até mesmo de águia de Bonneli no Noroeste. Os poucos dados que existem do seguimento de várias espécies têm indicado (embora também seja verdade que não são suficientes para demonstrar) que na fase de dispersão os juvenis percorrem enormes distâncias para encontrar áreas adequadas e não ocupadas.
Enfim, no fundo fico com a impressão que muitas das autoridades que zelam pela conservação da natureza têm pouca formação numa ciência que se chama ecologia e têm excesso de movimento "ecologista". O pior é que os recursos dedicados à conservação da natureza são sempre escassos e que as opções erradas ocupam sempre muito destes recursos, deixando para trás a conservação de importantes valores naturais que têm mais e melhores hipóteses de sobreviver. Como agravante, os projectos e as acções que demonstraram ser um erro são esquecidos ou obtém justificações duvidosas para o insucesso em vez de serem conhecidos e devidamente estudados para não voltarem a ser repetidos. A repetição do erro acaba por ser recorrente.
Bem, é só uma opinião diferente. Um Bom Ano a todos.
Luís Moreira

JA disse...

Aplaudo o comentário de Luis Moreira!

Anónimo disse...

Meu caro Miguel,

Vamos lá ver como as coisas correm.

Obrigado pelo apoio

um abraço

Miguel Pimenta

Anónimo disse...

Parabéns pelo blog.
Águia-real tema de paixões de muitos medos e bastante ignorância no caso das populações portuguesas.
O que está a acontecer é que as populações de águia-real no PNPG e no espaço adjacente espanhol desapareceram. Esta é a realidade. Pergunta-se mas então se as populações do noroeste estão pujantes, onde estão os juvenis? E os sub adultos? E os adultos não acasalados? Onde estão todos estes indivíduos ? Teoricamente estes estratos da população teriam que existir em populações pujantes e em expansão. Teriam então que existir tentativas dessas aves de colonizar o espaço PNPG e galego mesmo que depois abandonassem, morressem ou que por escassez de alimento não se reproduzissem. A mim não me chegam essas notícias. Também não tenho dados para a confirmar ou não as questões levantadas, mas penso que é um problema geral no nosso país relativamente a águias-reais.
Então temos uma população do noroeste que não sabemos bem como está mas que tem casais activos e que produzem todos os anos ovos que são incubados dos quais nascem aguiotos. Como é natural nalguns ninhos nascem dois filhotes e também naturalmente nesses ninhos a esmagadora maioria dos filhotes que nascem em segundo lugar são mortos (salvo interessantes excepções). Então porque é que não podemos utilizar estes aguiotos condenados a morrer ao bico dos mais velhos?
Porque não levá-los para ninhos artificiais no PNPG e possibilitar que todos os anos 6, 7, 10 filhotes de águia, consigam sulcar céus e ares ibéricos e dar uma oportunidade á águia-real ao noroeste á Galiza a nós próprios. São aves cujo destino está traçado, mais de 80% destes filhotes são mortos pelos irmãos se não os tirarmos dos ninhos.
Em relação á libertação na zona da Galiza de águias-reais uma única critica, é pouco. Continuem a libertar mas são necessários mais indivíduos por ano.

helder

Miguel Pimenta disse...

Porque desaparece a águia-real? Os motivos são conhecidos e arrastam-se há anos (pilhagem, abate intencional, falta de presas,pressão sobre o habitat, provável electrocussão e sobretudo veneno.O retorno da águia-real deve basear-se na eliminação da mortalidade não natural da espécie e no incremento do sucesso da reprodução. Em 2001 foi desenhado um projecto apoiado nestas duas questões e avançaram-se com diferentes acções:monitorização da espécie,desmantelamento de vias de escalada,sementeira de currais, tentativa de erradicação de venenos,levantamento de linhas eléctricas perigosas e desvio de outras, acções de educação ambiental, construção de um alimentador, etc. Entretanto o projecto entrou em "banho maria", por motivos que não cabe aqui referir,e hoje a Peneda- Gerês é sobrevoada apenas por uma fêmea velha e um ou outro juvenil e (ou) sub-adulto.
O retorno da águia-real neste momento só é possível através da reintrodução (como se fez, com sucesso, na Irlanda) e se as medidas apontadas no projecto forem retomadas. Esta é uma condição fundamental. Quanto ao reforço da população, terá que passar por um esforço conjunto de ambas as áreas protegidas. A experiência galega teve resultados positivos, na medida em que os juvenis libertados regressavam com regularidade ao território de "nascença". A águia-real atingida em Salamanca estava a fazer um percurso perfeitamente normal. Já tinha saído do território em diversas ocasiões mas voltava sempre ao Gerês-Xurès. Era ainda errante. Teve o azar de ser atingida. Numa situação normal iria fixar-se mais tarde na região.
Com vontade e alguns meios é possivel o retorno. Devemos fazê-lo? Na minha opinião sim. Porque se trata de uma espécie emblemática, por motivos estéticos, éticos, científicos e porque tem um papel importante no ecossistema. Para além disso qualquer medida em torno da conservação da águia-real irá beneficiar finalmente as outras espécies e o ecossistema em geral.

Para que não aconteça aquilo que sucedeu com o urso, a cabra (hoje, como espécie, a regressar em força)o grifo (a surgir felizmente cada vez em maior número)a perdiz cinzenta e se calhar muito em breve a narceja, como espécie nidificante.
Miguel Pimenta

Anónimo disse...

As áreas que se encontram nas condições naturais semelhantes às do PNPG vão ter sempre, ao longo de muitos anos, espécies que desaparecem e outras que voltam a aparecer ou que aparecem de novo (pelo menos achamos que são os primeiros registos). O PNPG situa-se no limite de duas regiões biogeográficas a Atlântica e a Mediterrânica, tal como, por exemplo, o Parque Natural de Montesinho. Desta forma, é natural que ao longo dos anos algumas das espécies que aqui estão no limite Norte ou Sul da sua distribuição desapareçam por longos períodos de tempo (décadas provavelmente) e depois voltem a aparecer. Nesta situação parecem estar a narceja e a perdiz-cinzenta, no PNPG, e o pisco-de-peito-azul, a petinha-ribeirinha, a perdiz-cinzenta e a cegonha-preta em Montesinho. A perdiz-cinzenta desapareceu destes lugares a cegonha-preta é, por exemplo, uma colonização recente em Montesinho (menos de 20 anos). Nestas zonas, as extinções locais irão sempre acontecer de forma natural e, por vezes, até acelerada pela acção do Homem.
A adicionar a esta característica de limite de zonas biogeográficas vem a altitude que acaba por acentuar o carácter finícola destas zonas, uma vez que para muitas espécies o Gerês e Montesinho acabam por ser o fim da cordilheira Cantábrica. Isto é bastante visível na distribuição de plantas e passa-se o mesmo noutros grupos da fauna (Víbora de Seoane e Arvicola terrestris, por exemplo).
Cumulativamente, a menor pressão humana sobre estas áreas tem permitido uma lenta recuperação dos bosques autóctones e, neste momento, estamos a assistir a uma lenta, mas contínua recuperação dos bosques autóctones de muitas zonas do PNPG e de Montesinho. È claro que nem tudo vai ao mesmo ritmo e da mesma forma nas várias zonas destas duas áreas protegidas. Esta evolução da sucessão natural vai levar seguramente à perda de habitat de espécies como a águia-real, o tartaranhão-azulado e muitas outras que dependem do mato para a sua sobrevivência. É possível que, a longo prazo, certamente várias décadas, espécies como o urso ou o tetraz-real (Tetrao urugallus) possam voltar a aparecer.
Estas colonizações e extinções, por sua vez, também estão muito dependentes da dinâmica populacional de cada espécie. Todos nós já assistimos a expansões recentes de várias espécies, como o esquilo, a garça-boieira, e agora mais recentemente o tordo-comum. Algumas são tão rápidas que certamente estão mais relacionadas com mecanismos de dinâmica populacional da espécie do que com súbitas alterações de habitat (embora possa haver dependência entre estes dois factores).
Embora todos nós gostemos de ver o céu do PNPG e do PNM serem cruzados pelo lindíssimo voo de uma águia-real, é bem possível que dentro de algumas décadas isso já não venha a ser possível pela própria evolução natural destas zonas.
O que actualmente importa saber é se a acção do Homem está apenas a acelerar um processo natural, ou se, pelo contrário, é a única causa do desaparecimento desta espécie. No caso de ser o Homem a única causa ou a principal causa do desaparecimento da águia-real, importa também saber se vale a pena reintroduzir juvenis criados em cativeiro ou eliminar primeiro as causas humanas do desaparecimento desta espécie, criando condições para a sua colonização natural. Criadas as condições para a existência da espécie, a reintrodução só é justificável se for reconhecida a impossibilidade da colonização natural. Isto é, só sendo identificada uma barreira à colonização natural, seja uma barreira artificial ou natural intransponível (como características naturais dos padrões de dispersão e colonização da espécie) é que se pode justificar a reintrodução.
Por último, áreas como o PNPG e o PNM não se resumem a um conjunto de espécies da flora e da fauna como se fossem um jardim botânico e um jardim zoológico. São áreas excepcionais no contexto ibérico e europeu e representam ecossistemas de uma riqueza e singularidades únicas que vão muito para além das espécies que hoje em dia aí se encontram.
Luís Moreira

Miguel Pimenta disse...

Caro Luís,

Concordo basicamente em algumas das tuas afirmações.Mas tenho dúvidas relativamente a outras. Por exemplo tenho dúvidas relativamente ao regresso do Galo-montês. Neste momento até duvido da sua existência mais ou menos recente (sec XVII).Receio que o único dado existente enferme de um erro de transcrição (há anos que tenho por vício ou paixão a pesquisa de dados históricos sobre a flora e a fauna). E dúvido que o urso volte nos tempos mais próximos(décadas ou séculos), isto porque embora os carvalhais estejam em expansão, como tu afirmas, e bem, as prováveis alterações do clima, de que tanto se fala, não permitem acalentar grandes esperanças.Tenho dúvidas também quanto à narceja (vítima sobretudo da alteração do habitat), bem como da perdiz cinzenta. Mas é um facto que assistimos constantemente ao surgimento e à extinção de espécies, seja pelas alterações do habitat, pelo clima ou por outra razão qualquer. A Natureza é dinâmica.
Quanto aos cimos do Gerês é dificil algum dia voltarem a ser ocupados pelo carvalhal. Os solos são esqueléticos. Em alguns pontos, em grandes áreas, parecem desgastados quase polidos. Dizem alguns especialistas que a palavra Gerês deriva de Juris (Juris- Jurez-Gerez-Gerês, finalmente Xures em galego) que significava em celta, parece,a montanha arborizada, equivalente ao Jura francês.Não sei se era arborizada ou não (em meados do século XVIII pelo menos nao era)mas tenho quase a certeza que tão cedo as zonas elevadas não terão carvalhal. Por isso a expansão do carvalhal não me parece um impedimento ao regresso da águia. Vale a pena o esforço, o investimento em tempo e dinheiro? Parece-me que sim pelas razões já apontadas. Mas isso só saberemos depois de experimentar.

abraço

miguel

miguelbarbosa disse...

Não costumo participar nas discussões motivadas pelos textos que coloco no blogue mas desta vez abro uma excepção.
É discutível se os escassos recursos que podem ser dispensados à Conservação da Natureza em Portugal deverão ser dirigidos à recuperação da Águia-real na zona de influência do PNPG ou antes a outras medidas, como por exemplo a compra de terras que comprovadamente encerrem uma biodiversidade assinalável.
Na minha opinião, leiga, a recuperação da população da Águia-real no PNPG deve ser uma prioridade da Conservação da Natureza em Portugal.
Entendo e compreendo os argumentos do Luís e não me parece que aquilo que diz esteja errado. Pelo contrário traz uma nova perspectiva à questão, fora de lugares comuns tão nocivos em qualquer discussão.
O Miguel Pimenta refere que o que está em questão é "uma espécie emblemática", que deve ser reintroduzida "por motivos estéticos, éticos, científicos e porque tem um papel importante no ecossistema".
Sobre o valor intrínseco da Águia-real todos concordamos. Eu adiciono aqui mais um argumento a favor da sua recuperação: a causa.
A causa em questão (a recuperação de um predador de topo na mais emblemática área protegida portuguesa) é exactamente aquilo que a Conservação da Natureza em Portugal precisa. Porque é uma causa justa, adequada e... mediática.
Num momento em que se assiste a uma "sede" da nossa sociedade pelas causas ambientais (veja-se o sucesso da reciclagem ou a aceitação generalizada das energias renováveis) a Conservação da Natureza tem sido o parente pobre deste movimento "verde".
Deixo um exemplo: a maioria das pessoas acha intrinsecamente boa toda e qualquer forma de energia renovável pois provavelmente desconhece a mortalidade maciça de aves planadoras em alguns parques eólicos ou o plano para a plantação de 2 mil hectares de eucaliptais ao redor do Parque Nacional de Doñana para servir o propósito de centrais de biomassa.
Chamando a atenção para a Águia-real e para o PNPG, colocando à cabeça da agenda mediática um projecto de recuperação da espécie bem sucedido, far-se-á mais pela Conservação da Natureza e pelo despertar de consciências de que com a generalidade de outras medidas. Tornará mais fácil no futuro a passagem da mensagem da Conservação da Natureza e a permitirá explicar o custo ambiental de determinados projectos. Não há melhor investimento no nosso futuro e no futuro da Natureza do que o despertar dessa consciência.
Esse é talvez o principal motivo para a existência deste blogue.

Meus amigos obrigado a todos pela vossa participação.

João Gabriel Barbedo Marques disse...

Temos que esperar que os espanhóis façam o que não fizemos nestes 35 anos pós-25 de abril?
Essa revolução sem dúvida que prejudicou a fauna e a flora do Parque Nacional da Peneda-Geres, que quando da sua criação, lembro-me bem disso, suscitou enormes esperança em todos os amantes da natureza. Não só não se tem feito nada para enriquecer a sua fauna e flora, como não se tem sabido, ao menos, conservar o que existia.

Saudações

João Gabriel Barbedo Marques

Anónimo disse...

Em primeiro lugar, deixe-me felicitá-lo pelo excelente blog. As imagens são muito sugestivas e os textos são ainda melhores. Agora uma pequena correcção (penso eu): a segunda foto parece-me um abutre-preto, e não uma águia-real.
Continuação de bom trabalho!

Anónimo disse...

Não parece, mas é uma águia-real. A coloração escura, própria de um juvenil,e a incidência da luz enganam.

Anónimo disse...

é uma águia-real o abutre-preto não tem penas do pescoço para cima esta tem!

Alexandre Pereira disse...

Boa tarde,
Permitam o comentário de leigo na matéria que quanto mais vê o que acontece com o animal irracional mais se desilude com o "animal" racional científico!
Esta questão do:"vale ou não a pena "gastar" dinheiro em prole de uma espécie" parece-me sempre muito perniciosa, na minha opinião, partindo daqui o pouco dinheiro investido na Conservação da Natureza, pois se os próprios especialistas têm reticências muitas mais terão os patrocinadores.
Exemplos concretos:
- 10 estádios de futebol para o Euro2004...alguém se opôs?!
- milhares de hectares de olival intensivo com um 1/4 do mercado espanhol...alguêm se opõe?!
- Obras recentes na Assembleia da Republica mesmo com a água que metem...alguém se opôs?!
- Autoestrada,derrapagens financeiras, acidentes em flecha...alguém se opõe?!
- Barragens que se alimentam a si próprias tipo Alqueva...alguém se opõe?!
Muitos poucos (talvez só alguns ecologistas radicais) porque, apesar de saberem que vai ser dinheiro muito mal gasto, ninguém tem coragem para contrariar as insfraestruturas básicas.
Felizmente que os espanhóis têm como referência o Dom Quixote de La Mancha em vez do Velho do Restelo português porque senão nem Águias-reais, nem Linces, nem grifos quanto mais negros, nem Águias-imperiais, nem Perdiz-cinzenta, nem Ursos, nem Urogallos, nem muitas outras espécies endémicas existiam porque enquanto a comunidade/científica/ambientalista/académica portuguesa discute qual o "suposto" melhor (como se houvesse algum perfeito ainda para mais em Portugal)alvo/método/processo/politica/espécie para empregar o escasso dinheiro que sobra das derrapagens e lobbies académicos portugueses.
O problema não está no habitat ou na espécie/alvo ou no aquecimento global mas sim nas politiquices académicas/ambientais portuguesas alimentadas por um pensamento atrasado da chico espertice/clubice que permanece para se "safarem" e serem "aplaudidos" em vez fazerem algo pela Causa Vital Comum (e não estou a falar do Curricullum Vittae).
Outra duvida me surge no habitat:
Mas a Península Ibérica não foi já uma quase contínua floresta mediterrânica, que surge no ultimo estádio de evolução natural, sem intervenção humana, como aprendemos todos em Biologia)????? E nessa longíqua época não havia Águias-reais na Península Ibérica ou eram mais raras do que hoje onde o Homem transforma tudo em mato ou erosão????
Realmente o problema português é mais grave do que parece pois a mentalidade de "estuda aqui, estuda ali, se desaparecer foi por falta de estudos" só nos leva à ruína (Valha-nos DEUS, a CE e o FMI).
Enquanto não pusermos de lado orgulho individual e desculpas por termos medo de actuar, mais vale juntarmo-nos a Espanha e percebermos como "se aprende fazendo" em vez de "estudar temendo" para bem dos animais comuns. É fácil estudar no gabinete com ar condicionado, dificil é proteger ao vento!
Desculpem se fui muito incisivo, mas nunca compreendo o porquê de se discutir se Vale a Pena ou Não gastar dinheiro por uma espécie, nem que seja por um pardal (e por este andar...)??????! O dinheiro para salvar uma espécie é sempre mal gasto, porque por muito que seja é sempre pouco e dá lucro vitalício evitá-lo (se houver coragem para fazer).

Miguel Brandão Pimenta disse...

Caro Miguel
Estive há dois dias no Xurés para assistir a colocação de mais uma águia-real numa plataforma artificial.Ontem foi colocada uma outra águia-real desta vez oferecida por Portugal e no mês de Julho serão colocadas noutra plataforma mais duas águias, todas no ambito do programa de reeintrodução desta espécie no espaço conjunto Gerês-Xurés. Faço esta introdução para dizer que este programa começa a ter efeitos positivos. Temos presentemente dois casais de águia-real no PN, um no Ramiscal e outro no Cabril, casais formados por aves reintroduzidas e selvagens. Para al~em destesdois casais o PN é sobrevoado por mais dois indivuduos isolados im dos quais também proveniente de uma libertação. Mas o mais curioso é que a águia-real fêmeaque tem território no Ramiscal (desde 2010 ) é a famosa Eufêmia que foi atingida a tiro em Salamanca e libertada novamente no Xurés. Como podes ver as notícias não podiam ser melhores. Abraço e continua em frente.
Miguel Pimenta

Paulo Dias disse...

Boas
Apesar de leigo (muito) interessado nestas questões e ter uma posição formada mais ou menos a meio caminho das posições aqui manifestadas pelos caros Miguel Pimenta e Luís Moreira, este ultimo resume muito bem a minha posição nesta questão quando afirma "No caso de ser o Homem a única causa ou a principal causa do desaparecimento da águia-real, importa também saber se vale a pena reintroduzir juvenis criados em cativeiro ou eliminar primeiro as causas humanas do desaparecimento desta espécie, criando condições para a sua colonização natural." Como estou convencido que foi devido intervenção directa/indirecta do homem que levou a esta triste situação (existe diversa bibliografia e quem frequenta estas serras e contacta com a população não têm ilusões qual o sentimento e prática enraizada aos "animais daninhos")e auséncia de fiscalização e politicas de gestão ambiental reais (agravadas por medidas avulsas e como é o caso das indemnizações por predação pelo lobo um desrespeito estúpido pelas pop. local) deixa-me moderadamente optimista (ou pouco optimista).
Apesar de tudo como frequentador do PNPG (e principalmente do Gerês) este ano entre Montalegre e o Vale do Gerês(grosso modo) tenho várias observações (anteriormente só tinha 2/3 registos e localizados.